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Café: preços devem ser mais altos em 2021, mas país terá safra menor

28 de dezembro de 2020

O enfraquecimento do dólar ante o real tende a reduzir a competitividade e a oferta do café exportado pelo Brasil no mercado internacional no próximo ano. / Foto: Divulgação

A cafeicultura brasileira deve ter em 2021 resultados menos promissores, mesmo com a expectativa de preços mais altos no mercado internacional. A produção já mostra comprometimento pelo clima desfavorável e, por ser ano de bienalidade negativa, a colheita será naturalmente menor. Entre agosto e novembro, altas temperaturas e chuvas irregulares não permitiram o desenvolvimento saudável dos cafezais, cujos grãos vão ser colhidos a partir de abril de 2021.

Na Bolsa de Nova York (ICE Futures US), referência internacional de preço, os contratos futuros de café arábica passaram a sinalizar alta consistente, principalmente depois que especialistas, agrônomos e tradings começaram a divulgar relatórios indicando perdas irreversíveis na safra brasileira do ano que vem. O contrato com vencimento em setembro/21, quando o Brasil estará no auge da entrega do café recém-colhido, saltou cerca de 17,8% do início de novembro até o dia 18, de 110,30 centavos de dólar por libra-peso para 129,90 cents.

Ainda não é possível calcular, no entanto, o prejuízo do produtor porque é difícil estimar o volume de café perdido, diz o especialista em café da Terra Investimentos, Luiz Fernando Monteiro. “Algumas regiões estão mais prejudicadas, outras menos A quebra será significativa no arábica; no conilon é esperada uma melhora.

Em relatórios, bancos e tradings têm apontado quebra da safra brasileira de arábica de 17% a 40%. O Rabobank, por exemplo, projeta a safra brasileira 2021/22 em 60,7 milhões de sacas, sendo 40,5 milhões de sacas do tipo arábica, o que representa uma queda de 17,3% ante 2020/21 (49 milhões de sacas). “Para o conilon brasileiro, a situação segue favorável, com as lavouras apresentando ótimo desenvolvimento“, informa o banco no relatório de perspectivas para o agronegócio brasileiro em 2021.

Monteiro menciona, ainda, problemas climáticos na América Central, especificamente em Honduras e na Nicarágua, decorrentes da passagem de dois furacões em outubro, que também afetaram a produção de café local. O Vietnã, maior produtor mundial de café robusta, enfrentou estiagem em parte deste ano e, depois, muita chuva e tufões.

Nesse contexto, enfatiza ele, a oferta ao mercado deve cair. Além disso, acrescenta o especialista da Terra Investimentos, o enfraquecimento do dólar ante o real tende a reduzir a competitividade e a oferta do produto exportado pelo Brasil. Estima-se que o dólar deva continuar a perder força em 2021, principalmente com o início da vacinação contra covid-19 e a elevada liquidez internacional, que tendem a estimular o apetite de investidores por ativos de risco, como commodities.


Pessimismo

O pesquisador Celso Vegro, do Instituto de Economia Agrícola (IEA), da Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo, é pessimista. “O mercado é altista nos próximos meses mas, com custos crescentes e escassez de produto, serão raros aqueles cafeicultores que fecharão o ano no azul“, diz. Vegro cita os aumentos de preço do diesel, de 11,63%; dos fertilizantes (5,47% no caso da formulação NPK) e dos defensivos (16,89% para o Roundup original).

Ele destaca que o ambiente macroeconômico será desafiador. “O cenário que se desenha para 2021 nos cinturões cafeeiros combina três cavaleiros apocalípticos: maior desalento, aumento do desemprego e comércio deprimido.” Com relação à demanda global por café, o Rabobank relata que medidas adotadas para conter a covid-19 afetaram o consumo fora do lar (hotéis, cafeterias e outros foodservices), o que foi parcialmente compensado pelo aumento da demanda dentro de casa.

O Rabobank projeta consumo mundial de 164,5 milhões de sacas em 2020/21 e de 167,7 milhões de sacas em 2021/22 (aumento de 1,95%). “Tenho dúvidas sobre os efeitos da pandemia no consumo mundial”, destaca Luiz Monteiro.

“A gente vê aumento do consumo doméstico, redução dos cafés especiais e gourmet, pela ausência do mercado de cafeterias, restaurantes e hotéis. Mas a dúvida segue, se o consumo doméstico compensa a falta de demanda fora do lar, se foi expressivo ou não“, avalia.