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Cães ocupam lugar de afeto

26 de agosto de 2020

A psicóloga Carolina Jardim, especialista em comportamento animal. / Foto: Divulgação

Por anos, Renata Dunshee de Abranches teve medo de cachorros. Quando era criança, tinha verdadeiro pânico e atravessava a rua para não passar pela mesma calçada que tivesse um.

Aos 10 anos, fiquei uma vez o dia inteiro dentro de um carro em um churrasco num sítio. Tinha um cachorro solto lá, pequenininho, mas eu ficava morrendo de medo e não conseguia sair do carro. Meu pai pensou que, se eu ficasse dentro do carro, uma hora eu iria sair e perder o medo do cachorro”, lembra.

A psicóloga Carolina Jardim, especialista em comportamento animal, explica que muitas pessoas que têm medo de animais passaram por eventos negativos.

Pode ser algum trauma, muitas vezes vivido na infância. O papel dos cães na nossa sociedade ao longo dos anos mudou muito. Na minha infância, os cães ainda viviam em quintais, alguns deles acorrentados durante o dia, pois a função era cuidar da casa à noite. E eles não eram bem socializados, não tinham suas necessidades básicas atendidas, e, por isso, muitas vezes, acabavam tendo comportamentos inadequados. O que, por consequência, aumentava a probabilidade de acidentes e possíveis traumas para os envolvidos”, analisa.

A fobia de Renata a acompanhou ao longo da infância. O sentimento só foi diminuindo com o tempo.

Fui crescendo, amadurecendo, e esse pânico foi diminuindo. Passei a ter uma convivência ‘amigável’ com o cachorro. Se ele vem me cheirar, eu deixo, mas não fico ali brincando. Não gosto de cachorro pulando. Não suporto cachorro na minha cama. Não é da minha própria vontade ter um cachorro de estimação. Isso só acabou acontecendo por uma influência externa, no caso, meu filho”, afirma Renata.

Os pedidos de Guilherme, hoje com 14 anos de idade, começaram há sete anos. O garoto insistia em adotar um cãozinho, mas a mãe dava um jeito de escapar.

Ele sempre pediu muito e eu dizia que não dava, porque ele estudava em período integral na escola, e eu trabalhava e ficava 10 horas fora de casa e não dava conta de um cachorro. E, no fundo, eu não estava com a menor vontade de ter um e falava que ele só poderia ter um quando fosse maior e pudesse arcar com os trabalhos de ter um cachorro. Quando fosse sozinho para passear com o cachorro, limpar as coisas dele, aí sim ele poderia ser dono de um. Eu havia combinado que isso seria quando tivesse uns 10 anos”, conta.

E adivinha só? Guilherme completou 10 anos e a primeira coisa que fez foi lembrar a mãe de sua promessa. Mas algo inesperado aconteceu. “O Guilherme perguntou: ‘Mãe, e aí?’. E eu falei: ‘Que tal um irmãozinho em vez de um cachorro?’ (risos) E aí tive meu segundo filho. Falei pra ele que cachorro agora só quando seu irmão crescer”, afirma Renata.

A grande chance de Guilherme aconteceu neste ano, em março, no início da pandemia do novo coronavírus.

Eu já estava praticamente cedendo e, no que veio a pandemia, achei que seria mais importante ainda ele ter um cachorro. Ele está em aula em casa, o dia inteiro sozinho, porque estou no banco trabalhando normalmente. Pensei que seria legal adotar um filhote e que também estaria precisando de alguém. Aí, na primeira semana da pandemia, adotamos”, revela.