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Brasil, país muçulmano?

POR ALEXANDRE MARINO

18 de setembro de 2020

Outubro de 2012. Malala voltava da escola para casa, quando um homem entrou no ônibus, apontou-lhe uma arma e disparou – a bala atravessou sua cabeça e atingiu o ombro. Malala tinha 15 anos e era conhecida em sua comunidade por fazer campanha pela paz no vale do Swat, norte do Paquistão, onde vivia, e defender o direito de meninas frequentarem a escola. O grupo terrorista Talibã assumiu o atentado.

Malala foi atendida em dois hospitais no Paquistão e levada para Birmingham, Inglaterra, onde passou por várias cirurgias. Passou a viver em Birmingham com sua família, e seu caso se tornou conhecido em todo o mundo. Em julho de 2013, no dia de seu aniversário, discursou para a Assembleia de Jovens das Nações Unidas, em Nova York. E, em 2014, tornou-se, aos 17 anos, a mais jovem ganhadora do Prêmio Nobel da Paz.

Nascida e criada em país muçulmano, onde as mulheres apenas cozinham, servem aos pais e irmãos e casam-se para dar filhos aos maridos, Malala quase morreu devido à decisão que tomou, ainda criança, de buscar outro sentido para sua vida. “Não quero ser conhecida como a menina que levou um tiro, e sim como a menina que lutou pela educação”, disse.

No mundo islâmico, é uma luta inglória. As mulheres, obrigadas a esconder o cabelo e, em alguns países, também o rosto, não têm liberdade individual. Quase nada fazem sem a autorização de um homem. No Afeganistão, que faz fronteira com o Paquistão, é como se não existissem. Seus nomes são conhecidos apenas na família, e nem são citados nos convites para o casamento. Quando uma mulher morre, seu nome não é escrito na lápide nem no atestado de óbito. Essa cultura bizarra deu origem ao movimento “WhereIsMyName” (Onde está meu nome), que reivindica o registro obrigatório dos nomes da mãe e do pai nas certidões de nascimento.

Na Justiça dos países muçulmanos o testemunho de um homem vale tanto quanto o de duas mulheres, e os homens sempre são beneficiados em qualquer disputa. Desde a divisão de uma herança, a definição da guarda dos filhos após o divórcio, até casos de estupro, em que frequentemente a mulher se torna culpada. Uma pesquisa da Fundação Thompson Reuters em 2013 definiu um ranking dos países árabes que mais oferecem perigos às mulheres em suas sociedades e constituições. Nos primeiros lugares aparecem Egito, Iraque e Arábia Saudita.

No Brasil, não há dúvida de que a situação da mulher é muito diferente, sob o ponto de vista institucional, especialmente de um século para cá, período em que os movimentos feministas se fortaleceram. As mulheres têm os mesmos direitos que os homens, garantidos pelo artigo 5º da Constituição. A Lei Maria da Penha as protege da violência doméstica, e ninguém questiona o direito da mulher à educação, à saúde, a ocupar cargos importantes nos setores público e privado, ou simplesmente a se sentar num bar e tomar uma cerveja, ainda que casos de assédio aconteçam.

Mas, apesar da legislação, o Brasil ainda é um país machista e misógino, onde são comuns os casos de agressões, estupros e assassinatos, quase sempre praticados por alguém próximo ou de confiança. Além disso, a mulher sofre os efeitos da gigantesca desigualdade social. No entanto, cresce o poder das mulheres graças aos movimentos sociais, apesar da misoginia do próprio governo.

Talvez essa misoginia explique posições que o governo brasileiro tem adotado em votações no Conselho de Direitos Humanos da ONU, com base em dogmas religiosos. Paquistão, Afeganistão, Arábia Saudita, Egito e outros países islâmicos vêm obtendo o apoio do Brasil a suas propostas retrógradas. No ano passado, o Brasil apoiou uma proposição do Paquistão de retirar o termo “educação sexual” de projetos de combate à violência contra a mulher; rejeitou a ideia do direito à saúde sexual, do acesso à informação e a métodos contraceptivos, e votou contra o uso de termos como igualdade de gênero e “direito à saúde sexual e reprodutiva” em diversas resoluções.

A laicidade é o único caminho aceitável para um país de grande diversidade religiosa como o Brasil, onde cada um pode praticar a religião que escolher ou mesmo não ter religião alguma. Não será o fundamentalismo religioso que nos livrará do inferno.

ALEXANDRE MARINO, escritor e jornalista em Brasília/DF, escreve quinzenalmente às sextas nesta coluna