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Brasil: do cancelamento ao fanatismo cultural

POR ESDRAS AZARIAS DE CAMPOS

8 de agosto de 2020

Relutei muito para não escrever este texto, porque tudo ou quase tudo está tão deprimente no Brasil atual, que escrever sobre algo político qualquer você vira vítima de cancelamento. E “cancelar” é a cultura do momento. Na prática se não gosta da ideia do outro, cancela a ideia e o outro também. Sei que alguns vão concordar comigo e outros mais vão tentar me cancelar! Para muitos é um jogo democrático. Mas se o cancelamento for exacerbado extrapola a prática democrática porque é mais movido pelo ódio do que pela paixão no debater simplesmente.

Daí o tal “Gabinete do ódio” lá no Planalto confirma a tese. Até porque, a cultura do cancelamento em um país com política polarizada e revanchista tem mais poder para ameaçar a democracia do que em aprimorá-la. Mas por outro lado, proibir o cancelamento, a priori, é também visto como supressão da liberdade de expressão. Parece contraditório e é mesmo. Então, como ficamos diante desta diatribe questão tão conflitante? Simplesmente aceitar e reagir ao mesmo tempo. Saber navegar em águas turbulentas até passar a tempestade e a sociedade brasileira retornar à sanidade política do debate salutar. E sobreviver, ufa! Isto de debate salutar existiu no Brasil?

De certa forma sim, foram raros os momentos e aqui podemos relembrar do movimento popular para eleições “Diretas Já” (1983/84), nos estertores da ditadura, também da Constituinte de 1988 quando resultou a nossa atual Constituição “Cidadã”, apelido este, dado pelo saudoso deputado Ulisses Guimarães. Enfim, tivemos salutares momentos em que a crença na democracia era visível e esperançosa mesmo diante dos embates e das contradições políticas entre conservadores e progressistas que precederam a ditadura de 1964/85. Vou correr o risco de não agradar aos ouvidos sensíveis ao expressar o que realmente penso da atual conjuntura governamental político-jurídico-militar brasileira, claro, com aval da democracia sem medo da lacração ou o cancelamento!

Todo esse emaranhado político e social tem causas remotas, o fio da meada da nossa excrescência política que vivenciamos no momento tem nome, principio, meio e não sabemos qual será o fim. Ainda! Começa com a nossa elitezinha perversa e podre que comanda este país que teima em não virar nação, desde quando o filho do rei de Portugal resolveu criar um Império só para chamar de seu. Daí, para os dias atuais a ex Pindorama se transformou apenas em um imenso balcão de “negócios”. E para incrementar o vale tudo por dinheiro, adotou o capitalismo mais exacerbado possível. Exacerbado e bandido? Cada vez mais bandido? De governo em governo, de ditadura em ditadura a elite capitalista e escrota não abre mão da sua ganância em possuir 60% da renda nacional. Ficam apenas 40% da renda que sobra para dividir entre o Estado, a classe média e o chamado povão. Daí que tal distribuição vira uma guerra com foices no escuro.

E para manter este deletério projeto sócio-econômico injusto tem o Estado. O Estado tem três poderes e cada um deles mais voraz que o outro a amealhar fatias cada vez mais gordas do erário para os seus apaniguados membros. Deputados, senadores, as elites do judiciário, as altas patentes militares, todos gozam de um teto salarial na faixa dos 33 mil reais. Mas não fica só nisto não! Têm os auxílios moradias, transportes, mirabolantes planos de saúde e tantos outros penduricalhos aos seus rendimentos que nunca ficam por menos de 100 mil reais cada um, mensais. O executivo com seus quadros de ministros e altos funcionários também não foge a esta regra, a começar pelo presidente cujas faturas de seu cartão de crédito/débito corporativo para suas despesas pessoais, não ficam por menos de 3,6 a 4 milhões de reais a cada três meses. Devem comer ouro com sobremesa de diamantes.

Além de tudo isto, temos ainda de conviver com a onda do “fanatismo cultural Olavista/bolsonariano” onde a honestidade virou carimbo de político incompetente e por se considerar honesto passou a abusar de um direito de propagar frases obscenas, xingamentos, palavrões, fingir que não existe a máfia miliciana, minimizar a queimada e devastação da floresta amazônica, se travestir de caixeiro-viajante da hidroxicloroquina. E o povão cada vez mais confuso e desorientado, para piorar ainda mais, usa da pirraça em desafiar a pandemia pelo simples prazer em imitar aquele que deveria dar o exemplo de como se comportar, para evitar o maldito vírus! Ironias à parte, tá passando da hora de cancelar tudo isto, não está?

ESDRAS AZARIAS DE CAMPOS é Professor de História