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Bossa Nova para bailar

Por Julio Maria / Especial

16 de abril de 2021

Eumir Deodato em um ensaio de 2007. / Foto: Divulgação

A intelectualização da Bossa Nova cobrou um preço histórico ao existir, para muitos historiadores, com total protagonismo naquele lastro mais concentrado entre 1959 e 1964, a chamada primeira fase. Mas aos poucos, como arqueólogos em busca dos fragmentos de cidades perdidas, projetos e revisitações trazem o que também existiu no mesmo período, longe da superfície mostrada pelos jornais e louvada pelos próprios artistas.

Bem ao lado dos bossa-novistas, e mesmo dentre eles, Ed Lincoln, Durval Ferreira, Orlandivo, Miltinho, Eumir Deodato, Claudio Roditi, Emílio Santiago, Wilson das Neves, Elza Soares e mais um punhado de gente com sangue quente nas veias estavam mais dispostos a fazer as pessoas dançarem em uma boate entre 23h e 4h da manhã do que passarem dias em busca de acordes perfeitos e cantos ideais. Eles eram capazes de operar a magia da dança, cantando para pistas de boates cheias de casais em passes frenéticos, e foi ela, a dança, quem, um dia, definiu por antecipação a própria música.

Uns o chamam de “a corrente dançante da bossa nova” enquanto outros o enxergam como um contraponto a ela. O fato é que o sambalanço, um movimento catalogado assim anos depois de sua existência, nunca foi louvado enquanto representante de uma brasilidade legítima para exportação, apesar de o ser também, nem ganhou linhas de análise dos pensadores e teóricos dos movimentos musicais. Seus clássicos, talvez pagando o preço por serem erguidos sobre dois ou três acordes “quadrados”, não passaram por festivais da canção nem foram alimentados por muitas regravações. Estão ainda datados e seguem quase que na condição de materiais de pesquisa.

Por tudo isso e mais, por todas as histórias que consegue aprofundar, o documentário Sambalanço, a Bossa que Dança, baseado no livro do jornalista e pesquisador Tárik de Souza, se torna, além de diversão degustada com bom humor, um documento importante. Ele já pode ser acessado nas plataformas Now, Vivo e Oi e será exibido, no dia 19 de maio, no Canal Brasil. Além do envolvimento de Tárik também na realização do filme, a direção ficou com Fabiano Maciel.

Se fosse necessário uma gênese para a história, essas reduções que decantam muitos acontecimentos em um só ou muitos artistas em um grande pai, ela poderia ser retirada do dia em que o mais tecladista do que pianista cearense Ed Lincoln foi intimado a correr para a boate Drink a fim de assumir o baile à frente da orquestra do pianista Djalma Ferreira. Djalma havia levado um tiro, conforme conta o próprio Ed Lincoln em uma cena captada durante um raro show de reencontro de sambalancistas clássicos no Centro Cultural Banco do Brasil, em 2003.

Eu não sabia nem como ligava aquilo”, ele diz, referindo-se ao órgão eletrônico que o esperava. Mas Ed foi, e o que se viu na pista foi incrível. Mais aplaudido do que o próprio Djalma e Seus Milionários do Ritmo, Ed foi visto pelo jornalista Stanislaw Ponte Preta, que voltou para a redação de seu jornal no dia seguinte com uma frase na cabeça: “O rei do sambalanço”.