Destaques Opinião

Bons exemplos não faltam

POR GILBERTO BATISTA DE ALMEIDA

10 de setembro de 2020

“Confesso que o gênero humano não é tão mau como certas pessoas o apregoam na esperança de o governar.” – Voltaire Como seria uma campanha política verdadeiramente civilizada? Esta pergunta nos remete a remete à utopia de que os homens podem se dividir por diversos motivos, mas a união precisa ocorrer após encerradas as contendas e que estas aconteçam com ética e respeito.

Vivo a política há mais de 50 anos quando ajudava a preencher as cédulas de propaganda do deputado então estadual Joaquim de Melo Freire e o federal Manoel Taveira, a quem meu pai apoiava. Me sentia emocionado quando recebíamos a visita de um deputado em nossa casa. Ainda criança, tinha a sensação de que algo importante ali acontecia e ficava entre as frestas das portas observando aqueles homens de voz forte e de postura firme conversarem e me sentia orgulhoso de poder presenciar, mesmo furtivamente, aquelas reuniões.

Esses dois deputados sempre foram exemplo para mim e em especial Joaquim de Melo Freire que sempre foi considerado um emblema de moralidade e dignidade na vida pública. Foi Melo Freire que teve a sensibilidade de lançar o jovem vereador de Cássia como seu companheiro de chapa, Humberto de Almeida, em 1973, sofrendo oposição de alguns, mas conseguindo lograr êxito em seus planos.

No ano passado encontrei Joaquim de Melo Freire na feira de flores da Avenida Carandaí em Belo Horizonte, e naquele momento vivi a emoção do reencontro com um homem que além de admiração e respeito, sempre mereceu o “bem querer” e a gratidão de minha família. Passos é celeiro de grandes políticos para Minas e para o Brasil, mas ninguém que representa mais a saudade que vivemos de poder contar com políticos notáveis da extirpe do querido Melo Freire.

Estas considerações iniciais, de certa forma respondem à pergunta inicial da coluna de hoje. Nossa família era neófita na política e meu pai e todos nós, pudemos aprender lições com Melo Freire de que a política não pode maltratar a ética e os debates jamais devem afrontar a fraternidade que sempre deve prevalecer entre os Homens.
Na véspera da partida à corrida eleitoral das eleições municipais, nunca será tarde ou repetitivo reafirmar que o cuidado com o nível das campanhas eleitorais está nas mãos dos candidatos e por suas atitudes haverão de ser avaliados.

A nação brasileira se encontra em momento de uma repugnante polarização, impulsionada pelas sandices das redes sociais e suas “fake news”, mas em nossa cidade, convivemos diariamente, vivenciamos os mesmos problemas e emoções similares e por isso, não vejo como aceitável que a plataforma de certas candidaturas se prestem a desmerecer, diminuir ou enlamear o nome de seus oponentes. Se ninguém é melhor que ninguém, a utopia reside em esperar dos candidatos que foquem na visão que têm de como administrar uma cidade e enfrentar os desafios que estão à espera de verdadeiros gestores. Ninguém aguenta mais assistir o festival de agressões, por vezes mais robusto quando as discussões se limitam ao município.

Que tomem cuidado também com o ilusionismo das propostas mirabolantes e novamente recorro ao exemplo de Joaquim de Melo Freire, desta vez em conjunto com Humberto de Almeida. Campanha eleitoral de 1978, Itaú de Minas lutando pela sua emancipação e em praça pública na cidade de Pratápolis que não queria perder seu valioso distrito, foram capazes de confirmar e explicar suas posições de emancipacionistas. Evidente que naquela cidade suas campanhas não obtiveram o êxito desejado, mas a coerência com suas posições e a coragem de não esconder suas verdadeiras convicções, fizeram deles políticos respeitados e vencedores.

Nas eleições que se avizinham, certamente ouviremos as mesmas cantilenas dos candidatos a vereador prometendo ações típicas do Executivo e candidatos a Prefeito acenando com o infactível agora bem envelopados com a maquiagem do “marketing” digital. O Brasil a cada eleição a política dos coronéis vem se tornando habitante de nossa história, de nosso passado e o desafio e minha esperança neste momento é de não nos deixarmos contaminar tanto pelo artificialismo enganoso dos discursos midiáticos intangíveis presentes nas promessas eleitoreiras.
Estamos próximos a ter a oportunidade de condenarmos ao mais completo ostracismo todos aqueles que fazem campanhas com maledicências, ataques pessoas desmedidos e odiosos, bem como dos que apresentam as repugnantes caraminholas políticas.

GILBERTO BATISTA DE ALMEIDA, é engenheiro eletricista e ex-político, escreve quinzenalmente, às quintas, nesta coluna