Destaques Dia a Dia

Bodão

POR ADELMO SOARES LEONEL

15 de agosto de 2020

Estas histórias que rodam por aí nos jornais, de trotes acadêmicos extremamente violentos a ponto de causar danos a saúde dos calouros e inclusive a morte, fazem parte da tradição e nem nós escapamos dela por duas faculdades.
Em Alfenas, na Federal de Odontologia, década de setenta havia um veterano que levava às últimas consequências a arte de judiar dos novatos num sadismo que chegava a repugnar até mesmo seus próprios colegas de sala. Evitava-se o Bodão a todo o custo.

No Departamento de Anatomia, assim que o anfiteatro se esvaziou num intervalo, ele escolheu a bolsa de uma aluninha delicada que torcia o nariz enojado ao se deparar com cadáveres e ali colocou um órgão sexual masculino formolizado. A garota se assentou no aguardo da aula, silenciando-se todos assim que o velho e austero professor se propunha a iniciar.

Ela preparou o caderno e a prancheta no colo, enfiando a mão na bolsa do lado em busca da caneta. Estranhou a maciez e a umidade do objeto, apalpou mais atentamente e o puxou para fora. O grito apavorado, o membro masculino atirado ao alto, seguido do desmaio provocaram um susto geral e a interrupção da aula para a apuração oficial das responsabilidades.

Ninguém foi doido de abrir a boca e dedar o Bodão. Quantas vezes ele se fazia carregar nas costas dos novatos simulando o esporeio num burro! Ou mandar lhe seguissem de joelhos! Engraxar-lhe os sapatos e acender cigarros filados! Sucediam-se as sacanagens. Mais de um que ousara rebelar contra a mínima ordem e humilhação sofrera uma perseguição cerrada e até mesmo alguns sopapos. Desde o segundo ano, o Bodão se tornara o terror da calourada no seu estado mais feroz e uns quatro do ano anterior faziam parte especial da sua lista negra para pegar no pé.

Até no cinema eles não tinham sossego, lá estava o algoz a cutucar-lhes a nuca e pregar chicletes no cabelo.
Mas quem faz tanta malvadeza tem pouco tempo de estudar e aconteceu de o Bodão repetir o quarto ano e cair na turma que jamais conseguiu lhe perdoar. O trôco veio na altura das Bodão agressões sofridas quando calouros.
Foi uma festa! Rara a aula onde não lhe sumiam instrumentos; ninguém emprestava um nadica de caderno com a matéria que perdera; era só tirar os olhos da maleta clínica odontológica e surgiam dentro das gavetinhas cocô de gato ou restos do lixo cirúrgico. Na república, então! Nós nas meias e cuecas, botões arrancados, ziperes das braguilhas despregados, etc. etc.

Nem tudo satisfazia um determinado colega – sua vítima predileta nos trotes – que preparou-lhe a suprema gozação no final do curso, vésperas da formatura. Nessa época, a turma tinha comemorações e bebemorações diárias.
Numa certa noitada coletiva na boate, o Bodão se descuidou: sua bebida foi propositalmente adulterada com químicas esquisitas e ele apagou, com o pessoal improvisando uma maca a lhe despejar na república completamente fora do ar.

O colega vingativo comandou o ritual, deixando- o peladão de poupança para cima, amarrando-lhe os tornozelos na pau da cama, pernas bem abertas. A lixa esfregada atrás do pescoço e do lado provocou os arranhões desejados, um saco de areia deixado nas costas por meia hora e meio quilo de jabuticabas espremidas caprichosamente sem os caroços sobre o traseiro do desmaiado, escorrendo pelo lençol. No outro dia, cedinho a turma da república e mesmo das vizinhas aguardavam-no para o café. Aproximou-se devagarinho, banho recente.

– E aí, Bodão? Quem era o peão barbudo que dormiu com você? Não havia argumento: o arranhado de barba no pescoço, a dor nas costas, peladão, a sujeira …. e nem como evitar a especulação, pois na faculdade o corredor polonês de calouros previamente avisados o aguardava entre risadas e deboche e na sua carteira predileta o cartaz:

“Reservada para o ex- -macho Bodão que soltou o Frangão!” Dizem que até hoje quando lhe perguntam onde se formou ele responde:

– Na Federal de Juiz de Fora!