Destaques Dia a Dia

Boas prosas, gostosas gargalhadas

POR SEBASTIÃO W. BORGES

5 de agosto de 2020

As lembranças fazem parte de nossas vidas! Dezenas de Confrades se reuniam na praça, em frente à Igreja Matriz, para juntos saírem para rezar o tradicional “Terço da Segunda-feira”, terço este que percorria as casas dos Vicentinos, e era rezado às 20 horas. Saíam com antecedência e, ao longo do caminho iam conversando sobre assuntos referentes à SSVP, fatos que aconteciam na cidade, e contar as boas piadas para ver o Joaquim “Risadinha” dar suas gostosas gargalhadas e fazer todos rirem. E lá estavam: João de Melo Freire, Aires de Melo Vasconcelos, Homero Gomes, Waldomiro Caetano, João Coutinho, Ângelo Jabace, Tiloca Grillo, Jeso Abreu, João Serafim, Jose Augusto de Queiroz.

Mas, antes de saírem, conversavam com Monsenhor Messias, falavam a ele as boas e as dificuldades que a SSVP enfrentava no dia a dia. Estou narrando costumes dos finais dos anos 50 e início dos anos 60 e, eu, com meus 15 anos, já proclamado Vicentino, acompanhava esses “homens da caridade”, ouvindo e sempre atento as suas boas prosas. Também sempre fazendo presença: Quinzinho Alfaiate, Arnulfo Nogueira, Diogênes Parreira, Antonino Acácio Abreu (Sô Nego) Antonio Caetano (Cueção) Salim Salomão, Jair Curi, Carlindo Ferreira, Vicente Pereira Reis, Sebastião Sabino, Otto Andrade, e tantos outros que nos deixaram saudades.

Quando o terço era na região do bairro Coimbras, desciam pela praça onde se via todo o jardim bem cuidado, todo florido, com várias pequenas árvores recortadas num bonito visual. Pela Rua Santo Antonio, na esquina do Passos Clube, o velho casarão do Dragão dos Móveis, no porão a Sapataria, Escritório do João Granero, Alfaiataria Mendonça, o gráfico São José, Bazar Americano, e na esquina o armazém do Tenentinho. Ainda em pé, a bonita Igreja de Santo Antonio, (demolida no ano de 1975). Víamos na porta da Casa Paroquial, Monsenhor Matias com sua batina preta, cheia de botões roxos, todos o cumprimentavam e seguiam descendo. Ao lado da Casa Paroquial, a farmácia Vasconcelos com seu bonito desenho na parede de um cálice e uma cobra.

Um pouco abaixo, o Salão de Barbeiro do Juquinha, e de frente, a casa do Jose Boticário que vendia “Botica”, a melhor pinga de Passos. Na esquina, a Alfaiataria Simone e, ao lado, a tinturaria do também leiloeiro Reinado.

Descendo: a gráfica do José Magalhães, o atelier da Eva Maia, açougue do Benício, uma leiteria que não recordo o nome e o mercadinho de verdura do Toinzinho e, quase na esquina, a venda do José Calixto e o Escritório do José de Melo. Seguindo à esquerda, a casa de Dona Elza de Barros que do alpendre cumprimentava os Vicentinos com “Louvado seja nosso senhor Jesus Cristo!” e num coro, todos respondiam: “Para sempre seja louvado”! Atravessavam uma pequena ponte sobre o córrego que ainda não tinha sido canalizado, subiam até a grande ponte de madeira (topogâ) pela longa escadaria de 36 degraus, e ali, cada Vicentino no seu íntimo rezava para os doentes na Santa Casa.

Evitava-se passar pela cava (hoje a Câmara Municipal) que era um atalho, mas escuro, com ruas de terra batida. Preferia-se seguir pelo posto Tupi, estando sempre à frente de sua casa, Otto Krakauer com seus cachorros Dálmatas. Na esquina, a oficina do Mané Catanha, e no final da avenida Progresso (hoje Av. Otto Krakauer), vizinhando com os barracões da Casemg, a fábrica de manteiga Aviação.

Lá numa dessas segunda-feira, o terço foi rezado na casa do Confrade João Alves, que morava numa das casas do pátio da Estação Mogiana, numa parte alta de onde se via todo movimento na estação, e na parte de cima via–se no largo São José com poucas casas a sua volta, a bonita Igreja (antiga) de N.Sra. de Fátima. Já chegando à casa para a reza do terço, o Confrade Noé André fez uma pergunta:

“Alguém sabe por que São Pedro negou Cristo por três vezes?” Muitos pensaram, mas nenhuma resposta, até que o terço começou. Após rezarem o terço, na volta, todos na curiosidade, queriam saber a resposta da pergunta sobre por que São Pedro negou Cristo três vezes. Todos, em silêncio, na expectativa, e veio a resposta do Confrade Noé: “É porque Cristo curou a sogra de São Pedro!” Disse em tom de brincadeira, referindo- se a uma passagem da Bíblia!

Enfim, para mim, com meus 15 anos, o melhor dessas caminhadas, além de ouvir dezenas de causos e piadas, foram os exemplos de vida deixados por esses saudosos “homens da caridade”. É o tempo passando e a gente “Memoriando”!