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Biólogo da Uemg fala sobre aparição de animais selvagens durante a pandemia

25 de abril de 2020

Hipólito Ferreira Paulino Neto é biólogo e professor de Ecologia do Curso de Ciências Biológicas da Universidade do Estado de Minas Gerais (Uemg) Unidade Passos e falou à reportagem da Folha sobre o aparecimento de uma onça no bairro Muarama, próximo a um dos blocos da universidade. De acordo com o professor, a aparição de vários animais em cidades mundo afora tem sido grande durante esta pandemia do coronavírus.

De acordo com Paulino Neto, não é novidade para ninguém que os animais humanos vêm destruindo e degradando habitats naturais para expansão das cidades, das áreas agrícolas ou de pecuária. E o ritmo com que estamos destruindo ambientes naturais aumentou enormemente desde a revolução industrial (1750), mas se tornou ainda mais intensa desde o final do século passado.

“Entretanto, em meio ao caos social e econômico, e consequências gravíssimas para a saúde da população mundial, a pandemia da covid-19 (Corona Virus Disease 2019, em inglês) nos trouxe relatos inusitados, não imagináveis se estivéssemos em nossa rotina “normal”. O fato de nós, humanos, estarmos predominantemente em nossas casas durante a quarentena, resultou em cidades com pouco ou quase nenhum movimento de carros e pedestres. Animais silvestres, ariscos por natureza, evitam ao máximo as cidades barulhentas e agitadas com idas e vindas das pessoas”, explicou o professor.

Ainda conforme informou o biólogo, no entanto, a quarentena fez com que cidades se tornassem bem mais silenciosas, quase nenhum carro nas ruas, poucos transeuntes pelas calçadas. Essa aparente calmaria e pouco movimento de humanos está fazendo com que animais silvestres se aventurem a caminhar e explorar nossas cidades.

“Animais selvagens estão sendo vistos em áreas urbanas em inúmeras cidades do mundo desde que iniciamos a quarentena”(isolamento social visando frear a disseminação do novo coronavírus (covid-19), inclusive em capitais e cidades de grande porte. E exemplos não faltam: bando enorme com mais de 500 macacos na Tailândia; grupos de 10 a 15 cervos são frequentemente observados na cidade de Nara (Japão); ovelhas, cavalos e javalis ocupam tranquilamente as ruas de várias cidades da Itália; coiotes estão sendo frequentemente avistados nas ruas de São Francisco (Califórnia, EUA); cisnes depois de muitos anos, estão repovoando os canais de Veneza, agora com águas mais claras e menos poluídas; guaxinins registrados nas praias agora vazias de San Felipe (Panamá); perus passeando as ruas de Oakland(Califórnia,EUA), dentre inúmeros outros casos, que não param de acontecer em todo o mundo”, salientou o profissional.

Em Passos, não foi diferente. Na madrugada da última segunda-feira, 20, uma onça-parda (Pumaconcolor) se aventurou a percorrer uma pequena região da cidade chegando até à rua Cambuquira, no bairro Muarama, onde se abrigou num pequeno jardim ainda sem terra, na parte externa da residência.

Pelo que foi observado pelas câmeras de segurança, o felino muito provavelmente veio da área verde (entende-se como pasto ou mata) muito próxima, localizada entre a Avenida Sabiá e a Mata do Parque Municipal Emílio Piantino (fundos da Uemg, bloco Cire). A onça deve ter caminhado por estas poucas centenas de metros partindo da área verde até o local onde foi capturada.

“Pumaconcolor consiste no segundo maior felino do Brasil ou mesmo da América do Sul, só sendo menor que a onça-pintada (Pantheraonca). A onça-parda é amplamente distribuída pelas Américas (ocorrendo desde o Canadá até a região mais ao sul da cordilheira do Andes), e ocorre em uma enormediversidade de hábitats (florestas fechadasaté formações de cerrado). Também podem ocorrer, com menor frequência, em áreas utilizadas para atividades agropecuárias (plantações e pastagens). No Brasil, está presente em todos os biomas”, informou.

Brasil

No Brasil, esta espécie de felino é conhecida popularmente por “onça-parda” ou “suçuarana”, já nos Estados Unidos é chamada de “leão-da-montanha”, “puma”, “pantera da Flórida” ou “cougar”, e nos demais países da América do Sul é conhecido como “leão-dos-Andes”.

“A onça-parda é capaz de pular a uma distância de até 6 m e é capaz de saltar de alturas superiores a 15 m. Trata-se de um animal de hábito noturno e que dificilmente é visualizado. Sua dieta compreende uma vasta gama de presas, variando de pequenos roedores até mamíferos de grande porte, como antas, capivaras, catetos, cervos, veados etc.

Ela, bem como outros grandes felinos, e lobos, são predadores de topo de cadeia alimentar na natureza, e são os grandes responsáveis por predarem inúmeras espécies de presas. Engana-se quem acha que eles são os vilões da história, pois graças a estes grandes predadores é que incontáveis outras espécies de animais não se tornam pragas seríssimas”, avaliou.

Predadores de topo são os responsáveis pela manutenção do tamanho populacional de inúmeras espécies sob controle e devemos agradecer muito a estes animais pela imensa diversidade de fauna e flora que temos. Estes predados são ecologicamente denominados de espécies-chave e são fundamentais para que haja uma conservação ambiental eficiente.

O crescimento rápido e desordenado das cidades, e a intensificação das atividades antrópicas (agricultura e pecuária em especial) tem resultado em severa redução da disponibilidade de habitats adequados e também na diminuição da oferta de presas para este grande felino. Então, a onça-parda tem sido forçada a procurar alimento em áreas urbanizadas e algumas vezes até mesmo dentro das cidades, entrando em casas e atacando e se alimentando de animais domésticos.

Questionado sobre as causas, o professor disse que a destruição e/ou degradação de habitats constituem nas principais causas do acentuado declínio populacional que esta espécie de felino vem sofrendo ao longo de toda sua ampla distribuição geográfica, inclusive sendo cruelmente caçada e frequentemente vitimadas por atropelamentos em rodovias.Infelizmente, os grandes felinos estão seriamente ameaçados de extinção.

De acordo com o Livro Vermelho da Fauna Brasileira Ameaçada de Extinção, a onça-pintada, a “onça-parda” e o jaguarundi (conhecido também por “gato-mourisco”) são classificados como espécies “vulneráveis”, ou seja, correm risco de extinção na natureza!