Destaques Opinião

“Batismo de fogo”, de Mário Vargas Lhosa

POR ALBERTO CALIXTO MATTAR FILHO

29 de outubro de 2020

No meu último artigo, ‘O amparo da literatura’, cheguei a comentar de passagem alguns trechos dessa grande obra do escritor peruano Mario Vargas Lhosa. O romance foi publicado, pela primeira vez, em 1963, justo o ano em que nasci. Mas quando procurei me informar um pouco mais antes de começar a leitura, percebi outra coincidência: o protagonista se chama Alberto. Nutrimos um sentimento peculiar com os próprios nomes.

Claro que somente a publicação original em 1963 e o nome Alberto não me seriam suficientes para despertar o interesse, se Mario Vargas Lhosa não fosse um dos grandes nomes da literatura latino-americana. De fato, há tempos, eu almejava iniciar o trânsito por suas obras. Foi o que se deu com “Batismo de Fogo”, o que me permitirá partir para outras.

Lhosa nasceu em Arequipa, interior do Peru, em 1936. Escritor, jornalista e professor universitário, obteve o auge do reconhecimento em 2010, quando recebeu o Prêmio Nobel de Literatura. Pode-se conhecer um pouco de seu pensamento nos textos semanais que escreve para “O Estado de São Paulo”, no “Caderno 2”, em cujo teor nos oferece todo o seu domínio sobre literatura, artes e história. Nos artigos jornalísticos, ele se tornou um grande crítico das estruturas de poder, sobretudo na América Latina.

Seu viés crítico é notório em “Batismo de fogo” ao longo de suas 373 páginas. Por se tratar de um romance e não de ensaio sobre temas específicos, ali desfilam personagens e enredo que captam a atenção do leitor e expõem os estigmas predominantes na sociedade peruana dos anos 60. A propósito, nunca é excessivo reiterar o grande mérito da literatura: trazer à baila os dramas que nos atingem a todos, envoltos que estamos em nossos dilemas de naturezas diversas, como os morais, psicológicos, econômicos, políticos e tantos outros.

Em “Batismo de fogo”, temos uma narrativa de múltiplos focos, algo comum no estilo de narrar literário, como o fazem tantos autores. A variação se dá entre circunstâncias presentes, passadas e até futuras. O evoluir da leitura nos proporciona um revezamento de histórias, personagens e narradores que vão se interpondo até o fim, de modo a nos gerar mais expectativa ainda.

Refere-se o enredo à vida de jovens que são enviados para uma grande instituição de ensino na Lima daqueles anos, o famoso Colégio Militar Leôncio Prado, que primava, aos olhos sociedade, pela fama de transmitir a seus estudantes uma educação rígida e ideal para se formar grandes homens. Um colégio interno e exclusivo para o sexo masculino na década de 60. O sonho dos pais era enviar para lá seus filhos a fim de dar-lhes aquele rumo na vida por causa da tradição militar.

O que se pode perceber, contudo, na medida em que os episódios avançam, é que, ainda que houvesse aquela rigidez toda na instituição, o que realmente existia, intramuros, era um verdadeiro reino da indisciplina dos alunos, sob atitudes que não condiziam em absolutamente nada com a ordem propagada pelo Leôncio Prado.

Havia de tudo: a violência das brigas, uso de bebidas às ocultas, roubo de provas, uso excessivo de cigarros, sarcasmo a professores e a ânsia por aquelas saidinhas de fins de semana para viver os ares dos amores, do sexo e da liberdade, momentos em que a obra nos conduz para as dores existenciais daqueles jovens. Na superposição dos diferentes momentos, acabamos atraídos por histórias densas, uma vez repletas de sofrimentos familiares.

Vamos, assim, nos envolvendo com cada um dos adolescentes em seus dramas individuais, mas bastante comuns: pais bêbados, irresponsáveis e infiéis, primeiras paixões, paixões frustradas, rivalidades entre grupos de jovens, experiências com a prostituição e também o apogeu de um machismo voraz na época. Além disso, alguns aderem ao mundo do crime em meio a gangues de furtos e roubos.

Os focos se dirigem também para os militares que integravam o Leôncio Prado. Muitos são ridículos, preguiçosos, e os de maior calibre só pensam em manter as aparências do bom nome do colégio, nem que tenham que ocultar, de qualquer forma, os graves problemas que lá aconteciam. O único que tenta ser mais correto passa a ser visto como nocivo aos interesses do colégio e termina transferido para uma unidade bem distante de Lima.

Sobram, portanto, tensões entre a defesa da imagem da instituição e os altos níveis de indisciplina nos seus domínios. A sociedade não poderia jamais tomar conhecimento da balbúrdia, sob riscos de completa desmoralização. Defender a imagem acima de tudo era o norte dos militares. Hipocrisia.

O que se evidencia, de mais a mais, em “Batismo de fogo”, independentemente da ótima arquitetura da trama, é o talento para se contar uma boa história. Superadas as possíveis dificuldades do início, em razão da alternância de tempos, personagens e fatos, não desejamos sair da narrativa sem o deslinde de cada uma daquelas histórias de vida.
No seio da genuína literatura, comum que o final costume ficar a cargo da imaginação dos leitores. O percurso talvez seja mesmo bem mais importante do que eventuais conclusões. Embora “Batismo de fogo” expresse um panorama dos anos 60 no Peru, não há dúvidas de que o faz com a necessária criatividade para a percepção da natureza humana em seus eternos conflitos.

Posso acrescer, enfim, que obtive um excelente batismo com um romance de Mario Vargas Lhosa. Batizem-se se ainda não o fizeram. Não só com Vargas Lhosa, mas com o sempre expansivo universo da literatura.

ALBERTO CALIXTO MATTAR FILHO escreve quinzenalmente às quintas nesta coluna.