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Basta uma única coisa

8 de julho de 2020

Em seu best seller O poder do hábito, Charles Duhigg nos conta, em um de seus capítulos, a interessante história da recuperação de uma grande fabricante mundial de alumínio, a Alcoa, uma das gigantes do ramo, diante de grave crise financeira que enfrentava, com perdas que vinham aumentando e se acumulando ano após ano, sem vislumbre de solução, mesmo com as mais variadas propostas de superação daquela crise, sem sucesso.

Estavam a caminho da falência, após tentarem todas as saídas possíveis para alavancar a produção, as vendas e reduzir os custos, sem alcançar nenhum resultado positivo. Foi então que, em última tentativa, contrataram um improvável novo diretor executivo, Paul O’Neill, ex-burocrata do governo americano, pouco conhecido. O’Neill, em sua apresentação, diante de uma plateia ansiosa de investidores, acionistas e altos executivos, anuncia a sua principal proposta para o soerguimento do negócio: investir pesado na segurança do trabalho, reduzindo a zero os acidentes em todas as unidades da empresa.

Nada falou sobre lucros, dividendos, redução de impostos, vantagem de mercado… Foi então que instalou-se o pânico generalizado nos presentes, pois, naquele momento tão grave em que se encontravam, a última coisa em que pensariam seria direcionar os esforços e os já reduzidos recursos da companhia para algo que consideravam sem importância, afinal, acidentes de trabalho, com mortes e mutilações, eram comuns naquele tipo de atividade industrial. Mas, ao final, deram a ele um voto de confiança para implementar o seu projeto, porém já esperando o seu fracasso.

Para encurtar a história, O’Neill foi bem sucedido em sua empreitada, algum tempo depois de colocar em prática seus métodos de trabalho. Eis aqui alguns trechos do livro que nos contam como: “Em menos de um ano após o discurso de O’Neill, os lucros da Alcoa atingiriam uma alta recorde. Quando se aposentou no ano 2000, o faturamento líquido anual da empresa era cinco vezes maior do que antes de ele chegar, e sua capitalização de mercado crescera em 27 bilhões de dólares… Antes da chegada de O’Neill, quase todas as usinas da Alcoa tinham no mínimo um acidente por semana.

Uma vez que seu plano de segurança foi implementado, algumas unidades passaram anos sem que um único empregado perdesse um dia de trabalho devido a um acidente. O índice de acidentes no trabalho caiu para um vigésimo da média dos Estados Unidos.

Então, como O’Neill transformou uma das maiores, mais antiquadas e mais potencialmente perigosas empresas do país numa máquina de lucros e um bastião da segurança? Atacando um único hábito e então observando as mudanças se espalharem por toda a organização. “Eu sabia que precisava transformar a Alcoa”, O’Neill me disse.

Mas você não pode mandar as pessoas mudarem. Não é assim que o cérebro funciona. Por isso decidi que era melhor começar enfocando uma única coisa. Se eu pudesse começar desmanchando os hábitos relacionados a uma única coisa, isso se alastraria pela empresa toda.

E assim se sucedeu, pois, ao sinalizar que a nova administração valorizava a vida e a saúde dos seus trabalhadores, gerou uma reação positiva exponencial que contagiou a todos na empresa, abrindo caminho para outras mudanças que, anteriormente, eram impossíveis de serem
alcançadas.

Uma única coisa

Em meio à crise generalizada em que vivemos nos dias atuais, sob todos os aspectos, talvez a sua vida esteja um caos também, sem perspectiva de mudança para melhor ou de superação das dificuldades, tal como estava a companhia de alumínio acima mencionada, a caminho da falência. Mas, com certeza, algo de bom, de positivo, ainda resta em sua vida e em que valha a pena investir, valorizar. Mantenhamos o foco nisso, sem esmorecer, e outras portas certamente se abrirão. E o que era impossível, antes, pode se tornar realidade. Saúde e paz a todos!

WASHINGTON L. TOMÉ DE SOUSA, bacharel em Direito, ex-diretor da Justiça do Trabalho em Passos, escreve quinzenalmente às quartas, nesta coluna