Destaques Dia a Dia

Bala de prata

POR THIAGO DA COSTA PEREIRA

25 de setembro de 2020

Subitamente, todos os músculos do meu corpo se contraíram. Senti uma dor intensa e aguda quando todos os meus ossos se expandiram. Meus dedos viraram garras, meu nariz um focinho, minhas orelhas se alongaram. Uma enorme onda de raiva tomou conta de mim. Rasguei meu colchão em pedaços. Dirigi-me ao banheiro, não tinha nenhum controle sobre meu corpo. Olhei-me no espelho, vi meu rosto deformado e cheio de pelos, minha íris aumentava e aumentava até que tomou todo o branco dos meus olhos.

Acordei, estava em uma clareira, olhei para os lados e vi galhos quebrados e um animal todo ensanguentado. Estava tão estraçalhado que não reconheci que bicho era… Custei a me levantar, pois minhas pernas estavam bambas. Havia um gosto estranho na minha boca, todos os meus músculos doíam. Voltei, seguindo a trilha de sangue e galhos quebrados e arrancados das árvores. Mancando e me apoiando em qualquer coisa, demorei uma hora para chegar em casa. Lá, eu vi as janelas quebradas da parede de trás. Dei a volta na casa e tive a pior visão da minha vida: minha linda esposa, com seu vestido ensanguentado e um corte que abria sua garganta. Ajoelhei-me ao seu lado, minhas lágrimas escorreram por meu rosto, misturando-se com o sangue dela. 231

Levantei-me, já sabia o que fazer! Entrei em casa, visualizei toda a vida que tivemos juntos… Nossas memórias, felicidade, planos para o futuro. Tudo destruído. Destruído por mim! Não podia fazer isso com mais ninguém! Peguei a pistola e uma velha bala de prata. Carreguei o corpo de minha amada esposa para o pico mais alto, onde a lua reluzia sempre que estava cheia. Deitei-me ao seu lado, coloquei a pistola apontada para minha testa e disparei. De algum lugar, não sei ao certo onde, eu e ela observamos nossos corpos sob a luz da lua à mercê de vermes, mas não importava. Estávamos em um lugar melhor…