Destaques Dia a Dia

Autoestima

POR DÉCIO MARTINS CANÇADO

24 de novembro de 2020

De acordo com Ana Paula Galli, todos nós temos um ciclo vital: “Nascer, crescer, reproduzir, morrer. Cada um desses momentos tem uma importância definida, mas, sem dúvida, a infância é o período mais representativo da formação do ser humano”. “É nessa fase que o futuro adulto se constitui. Viver uma boa infância significa passar de forma saudável, física e mentalmente, para a fase adulta”, explica a psicoterapeuta infantil Ana Olmos. Brincar, fazer amizades, divertir-se, mas também, e principalmente, ter obrigações; Até deixar o filho passar por frustrações é importante. “É esse ensinamento que faz com que ele aprenda a lidar com vitórias, mas também com derrotas”.

Conviver com os pais no dia a dia também é um importante fator de formação, mas que, por causa da falta de tempo, tem se tornado uma atividade cada vez mais rara. “Muitas vezes, os pais não conhecem os próprios filhos, que são formados principalmente pela cultura de massa”, conta Solange Jobim, da PUC-RJ. Apesar de não existir uma fórmula milagrosa, ela explica que a presença dos pais, entre outras ações, como o acesso à diversidade cultural e ao lazer, incentivam o desenvolvimento da criatividade e, consequentemente, da personalidade da criança. “A fantasia é indispensável à formação, mas ela tem que ser estimulada. Não basta ligar o celular e colocar o filho para assistir. Tem que haver um diálogo direto com a criança. E, mais importante, os pais têm de filtrar o que é bom e o que é ruim”, afirma Solange.

É inegável, também, a preocupação de pais e educadores no que se refere à autoestima de crianças e adolescentes. É um grande incômodo constatar que eles nem sempre são capazes de perceber as próprias qualidades, mesmo quando estas saltam aos olhos de todos. Além disso, o senso comum, as revistas e os sites da Internet estão constantemente abordando esse conceito, bombardeando-nos a todo o momento com testes mágicos capazes de avaliar nossa autoestima, trazendo dicas maravilhosas que prometem aumentá-la e contribuindo para a saúde psicológica de todos. É bem verdade que a autoestima, quando característica fortemente presente na vida de uma criança, é capaz de assegurar seu desenvolvimento saudável. Mas é necessário avaliar o que significa essa palavrinha rodeada por uma mágica capaz de resolver todos os males da atualidade.

A ‘autoestima’ refere-se à capacidade de acreditarmos em nossas habilidades e potencialidades. É um elemento que se desenvolve na infância e depende de como e do quanto fomos valorizados pelas pessoas que amamos. Conhecer nosso valor depende de que alguém o aponte e nos estimule. Mas como se faz isso no dia a dia? A criança pequena embasa seus comportamentos nas respostas que seus pais são capazes de lhe darem. Se ela passa horas desenhando, é muito provável que leve seu desenho aos pais para que estes aprovem seu feito com toda a satisfação e alegria. É essa aprovação, marcada pelo olhar afetivo e o interesse, que fará com que ela perceba que é capaz de realizar pequenas tarefas.

Mas, muitos pais, na ânsia de criarem filhos perfeitos e capazes de contornar as dificuldades normais da vida, costumam exigir de uma criança um padrão muito alto de perfeição, quase impossível de ser alcançado, salvo com extremo esforço e ansiedade. A criança, em sua necessidade incondicional de agradar aos pais, luta para atingir esse ideal, mas, como seria de se esperar, frustra-se com frequência, restando a ela apenas a sensação de que nada do que faz é suficientemente adequado.

É por essa razão que pais e educadores devem estar constantemente atentos às capacidades de cada criança, em suas respectivas fases de desenvolvimento. Em cada etapa de seu amadurecimento, a criança mostra-se capaz de superar determinados obstáculos, e isso deve ser obrigatoriamente estimulado por aqueles que a rodeiam. Esse estímulo não se resume à simples atitude de cumprimentá-la por seu esforço e conquista, mas envolve, principalmente, o olhar atento, o afeto demonstrado com sinceridade e o orgulho de enxergar, no filho ou no aluno, um ser humano em formação.

A vida é, naturalmente, repleta de dificuldades; e nós, adultos, sabemos que convém a uma criança aprender a superá-las, uma vez que não somos poderosos e eternos para impedir que a vida siga seu curso e que os problemas sejam maquiados ou negligenciados. A tarefa que nos cabe, então, é assegurar que crianças e adolescentes se sintam capazes de confiar em si mesmos e de proteger o que é mais importante para eles — o valor e a certeza de quem são, e do que podem superar.