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Atirador brasileiro cruza fronteira alemã a pé fugindo da pandemia

24 de abril de 2020

CORONAVÍRUS – Quando chegou ao estande de tiro onde ocorreria o quarto e último dia do Grand Prix polonês de Wroclaw (também chamada de Breslávia em português), no dia 14 de março, Emerson Duarte tomou um susto. Acompanhado do treinador, o colombiano Bernardo Tovar, percebeu que o local, que deveria receber centenas de competidores e o público, estava deserto.

O motivo do cancelamento era o mesmo que tem deixado o mundo paralisado: a pandemia desencadeada pelo novo coronavírus e a doença que ele provoca, a Covid-19. A Polônia ainda tinha raros casos confirmados, mas um decreto do governo, emitido naquele momento, abortava qualquer reunião com aglomeração de pessoas.

Tinha início, ali, uma verdadeira saga protagonizada pelos dois para voltar ao Brasil em meio a fechamentos de fronteiras, tumulto por vagas em voos e desinformação. A primeira medida foi deixar o local de competição e voltar para o hotel, arrumar as coisas e partir para o aeroporto.

Assim que o atirador e o técnico desceram do táxi no aeroporto, perceberam que o saguão para o check-in estava tomado, a maior parte dele por adversários e conhecidos de Duarte, que haviam se antecipado à informação do cancelamento do torneio e trocado as passagens. Tentou, sem sucesso, trocar a própria passagem no guichê da companhia aérea – foi informado de que, como a compra fora via agência de turismo, não podia fazer alterações. Havia apenas dois voos restantes para o dia: um dali a cerca de uma hora, que estava fora de questão, e outro mais tarde, que lotou em poucos minutos.

“A maioria das companhias aéreas exige documentação das armas com antecedência, de às vezes duas semanas. Então, isso já restringia inúmeras opções, comecei a achar que ia ser muito complicado sair dali. O tiro é um esporte em que você está sempre contando com alternativas. Uma coisa seria sair da polônia sem arma e outra seria sair com arma. Seriam duas situações totalmente diferentes”, comentou.

De mãos atadas, Duarte e Tovar voltaram para o hotel e, dali em diante, sucederam-se mais ligações.
Às 5h30 do domingo, 15 de março, o treinador polonês passou no hotel, apanhou Duarte e Tovar e dirigiu mais ou menos 300km até Slubice, cidade do país que faz fronteira com a alemã Frankfurt an der Oder. Já na divisa, a dupla esperou dentro do carro enquanto o treinador europeu tentava desenrolar com os policiais. Logo veio a informação de que o cruzamento poderia ser feito.
Duarte e Tovar passaram a pé a linha imaginária que corta os dois países.

“Quando cruzamos a fronteira, deu um alívio. O Tovar tem 70 anos e um problema no joelho, então fomos com cautela. Mas as malas estavam pesadas, e essa travessia pareciam as da Ponte da Amizade em Foz do Iguaçu. Parecíamos dois sacoleiros. Logo em seguida eu entrei em contato com o adido militar do Brasil na Alemanha, que me aconselhou a ir a Berlim” disse o atirador.

A Alemanha ainda não estava trancada. Tinha voos internacionais e trânsito de trens e ônibus. Os dois correram para a estação ferroviária de Frankfurt an der Oder e chegou a Berlim algumas horas depois. Mais algumas horas, encaminharam-se para o aeroporto, onde conseguiram embarcar e despachar as armas depois de mostrar documentos a oficiais da Imigração. As passagens, compradas no Brasil com a anuência do COB, custaram R$ 13 mil cada uma.