Destaques Dia a Dia

Até que morte nos separe

Por ADELMO SOARES LEONEL

5 de setembro de 2020

No cruzar de olhos o mundo parou. Vários segundos e nenhum balbucio saía de qualquer das bocas inertes de susto, mãos a meio gesto, testas arregaladas. Dezoito anos de ausência e o reencontro casual entre gôndolas de xampus e desodorantes numa drogaria mais ao acaso ainda. O Miranda só se refez após o “oi” murmurado de Dalimar devolvendo outro “oi” suspirado de fundo e esfregando- se em tentativa de acordar o real ou confirma-lo, ansioso.

Ali estava um primeiro amor que se transformara em único, capaz de segurá-lo solteiro ante afeições efêmeras e rasas beirando trinta e oito, desde a rusgazinha banal coincidindo com a mudança dele para a cidade grande e, tempinho a seguir, dela a Deus sabe onde.

– Love!
– Love!

O tratamento da época de arrulhos brotou natural como se Dalimar tivesse novamente dezesseis e Miranda os vinte anos na despedida, tudo um engano bobo que agora se redimia, voltando ao que era. A mesma beleza do cabelo castanho comprido emoldurando o rosto suave limpo de pinturas, o corpo jovem de mulher feita mudara quase nada e, se tanto, para melhor. Destoava a aliança solitária na mão esquerda.

– Casou?
– Casei.

E no sopetão próprio dos homens bem sucedidos e definidos que se enricaram longe dos escrúpulos:
– Larga dele e volta prá mim. O brilho de tentação passou rápido no semblante dela:

– Não posso.

Puxou-a à vizinha lanchonete e pediu dois sucos. Soubera então que a Dalimar se casara com um sujeito de São José das Paineiras onde ainda morava. Num acidente automobilístico o marido se tornara paraplégico, adquirindo absoluta dependência da mulher, se aposentara e ela completava o pequeno salário como professora. Não tinham filhos.

– Então volta. Nada te impede.
– Você não entende. Ele precisa de mim. Como cristã não posso, jurei no casamento…
– Mas… e o amor?
– Perde para a caridade e o juramento a Deus. “Na saúde e na doença.”
A frase martelou a mente de Miranda: “Até que a morte nos separe!”

Os dedos se enlaçaram suavemente em vontade própria, vibrando no toque e pequenos apêrtos, os corações disparados, os rostos vermelhos de aflição.

– Meu marido está se tratando aqui no hospital e depois de amanhã estaremos retornando de ônibus a São José.
– Permita que os leve de carro.

A resposta firme cortou o oferecimento:

– Não. É perigoso nos tornarmos a ver.

Ele insistiu, insistiu, insistiu até o ponto em que Dalimar aceitou o favor somente com a condição de o motorista de Miranda os conduzir. Combinados os detalhes, despediram-se (ela, com a amargura do adeus; ele, urdindo uma solução). A ordem ao motorista foi de espicular sobre tudo, saber tudo, alegando mania de fotografar tudo.
2o. ato

Nico Dedo Leve atende o celular e ouve:

– Não interessa quem sou mas conheço muito bem seu trabalho e sua pontaria desde o sindicalista do norte de Minas até o político em Goiás. Na caixa que mandei pelo correio, além do celular estão retratos do fulano, a rotina da casa com a hora de encontrá- lo sozinho e cinco mil reais de entrada. Os outros cinco com o serviço terminado. Dez mil por um desconhecido numa cadeira de rodas está muito bom.
– Tá acertado. Vou prá São José das Paineiras hoje. Depois de amanhã, quando a mulher estiver à noite na escola, executo o serviço. Pode me ligar à meia noite. Desta forma, Nico Dedo Leve chegou a São José no aprazado, tomou quarto no hotel como vendedor de livro e nome falso, ocupando dois dias em estudar o local da ação, da fuga etc. Só não contava com a tempestade que despencava na noite do serviço, derrubando poste e deixando a cidade às escuras.
– Melhor assim no breu e com trovoada. Nada vê, nada escuta.

3o ato

À meia noite, Dedo Leve atende o celular e fala:

– Serviço feito, patrão. Já estou longe. Muito fácil. Entrei pela porta da frente – lá eles não trancam porta – topei o fulano na sala lendo jornal alumiado por vela, mandei ligeiro duas balas no peito e a terceira na cabeça prá ter certeza.
– E aí, pronto? Sumiu dali sem testemunha?
– Só um detalhinho de pouca monta. Apareceu outra vela na porta. Miranda estremeceu.
– Uma mulher?
– É. Alta, bonita. Ofegante:
– Cabelos castanhos, compridos?
– Ela mesma. Mas não carece preocupar. Sem testemunha e sem acréscimo no pagamento. Passei fogo nela também.