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Associação Espírita Pai Kachambi trabalha com a linha da Umbanda

Por Adriana Dias / Redação

20 de fevereiro de 2021

Foto: Douglas Arouca

PASSOS – Existem diversos centros espíritas em Passos que atuam com a linha da Umbanda. O Roteiros da Fé desta semana vai homenagear a todos estes contando parte da história da Associação Espírita Pai Kachambi, que tem seus trabalhos realizados desde 1945, mas de forma oficial, com a fundação da entidade em 15 de março de 1970, funcionando na rua Tupiniquins, no Bairro Nossa Senhora Aparecida. E também trazemos um pouco sobre o novo espaço espiritual Chácara Tia Joana, na zona rural. Para este vídeo a música escolhida excepcionalmente foi Stairway, de Patrick Patrikios.

Conforme explicou o presidente da Associação Espírita Pai Kachambi, Ubiratan Bernardes Costa, filho de Antonio Rosário da Costa, médium responsável pela criação da associação, o local é o maior centro de Umbanda da região Sul e Sudoeste de Minas Gerais. Isso por causa do número de médiuns.

Trabalham conosco atualmente 289 médiuns. A Associação Espírita Santo Agostinho, por exemplo, conta com algo em torno de seis médiuns, o Centro Espírita Cáritas, menos de 10. Nossa casa tem exatos 289 médiuns, mas isso tudo tem uma explicação. E tem uma fila de espera para nova entrada, que chamamos de nova corrente. Na verdade, é o desenvolvimento mediúnico de 95 pessoas esperando. Só não começamos por causa da pandemia. A diferença que nós temos é a seguinte: nós somos uma instituição Espírita que tratamos exclusivamente da mediunidade. Ou seja, da comunicação com os espíritos. Nós não fazemos trabalho assistencialista. Ou seja, nós não temos creche, nós não damos cesta básica, nós não fazemos sopa, nós não fazemos bazar, nada disso”, explicou Costa.

O trabalho realizado no Pai Kachambi é exclusivamente o controle de quem tem mediunidade.

Nós fazemos o trabalho de comunicação com os espíritos. É isso que nós lidamos aqui. Ensinamos as pessoas através da teoria e da prática, sobre como lidar com os espíritos. É muito sofrimento para as pessoas quando vêem espírito, sentem espírito, sentem isso no seu corpo e explicam para os outros e ninguém entende ou acredita nelas. E tem quem tenha vontade de jogar estas pessoas dentro de um hospício, e ela não tem mais nada do que simplesmente um dom, que é a mediunidade. E é isso que nós lidamos aqui, exclusivamente com isso”, afirmou o presidente.

Com relação a recursos arrecadados, o médium informou que todo o dinheiro é oriundo dos próprios médiuns.

Aqui o médium doa seu tempo, a sua energia, o seu conhecimento e ainda paga para trabalhar. Paga no sentido que tudo aqui é mantido pelos próprios médiuns. Não há nada de dinheiro público e, além disso, a nossa despesa aqui passa de R$7.500,00 por mês. O nosso mentor nos obriga, no caso hoje eu que sou presidente, para que tudo que arrecadamos 10% a gente devolva para o universo. Fazendo um paralelo ao que a Igreja Católica denomina dízimo. Nós doamos esta parte para a comunidade. E, com isso, tenho a incumbência de levar para uma instituição – temos uma lista das quais tenho preferência de ajudar -, ou pessoas em situações críticas de uma comunidade”, informou o operador do recurso, pois o mentor é Pai Kachambi.

Com relação aos atendimentos, Bira, como é conhecido, contou que são entre 1500 a 2 mil atendimentos mensais.

Nossos dogmas são fundamentados na espiritualidade. Estes cerca de 2 mil atendimentos são distribuídos da seguinte maneira: na terça-feira temos um trabalho de desenvolvimento mediúnico. É como se fosse um curso. Há uma fila de espera de 95 pessoas de Passos e de toda a região do Sudoeste que têm mediunidade latente. Já na quarta-feira, o atendimento é ao público que é sem incorporação de espírito. Na terça-feira é com os médiuns incorporados, na quarta-feira sem incorporação de espíritos, somente passe magnético, transferência magnética energética. Em cada sala ficam dois médios, um homem e uma mulher, com a porta aberta. Na quinta-feira são atendidos crianças e adolescentes até 14 anos e mulheres grávidas. “Temos a escolinha de evangelização cristã atendendo em média 100 crianças. O salão, em época não pandêmica fica lotado, pois participam os pais, os médiuns e os estudantes. E, na sexta-feira é a triagem com médiuns incorporados e atendemos todo tipo de problema e todo tipo de pessoa acima de 14 anos”, explicou.

História

Segundo Ubiratan Costa, seu pai, Antônio Rosário Costa é um dos grandes responsáveis pela história do Espiritismo em Passos.

Ele era um dos médiuns com um dos maiores potenciais mediúnicos em comunicação com os espíritos que já passaram por esta cidade. Ele chegou em Passos por volta de 1945 ainda jovem, mas já com a mediunidade desenvolvida. Veio da região da Serra da Canastra, onde sua família morava. Tinha 17 irmãos, mas quem descobriu a mediunidade dele foi um engenheiro de Uberaba, chamado Benedito Lasmar, que já era espírita umbandista e viu o tamanho da mediunidade que ele tinha”, lembrou Bira.

Já em Passos, Antônio Rosário se juntou ao grupo espírita que fazia assistencialismo, organizado por Marieta Cintra – que dá nome ao Atelier na Casa da Cultura, do também espírita, o professor Wagner de Castro -, que praticamente adotou a família de Rosário.

Nós a chamávamos de Tia Eta. O espaço que ela atendia de forma assistencialista fornecendo sopa era onde é atualmente o prédio do Hilton Figueiredo – Cine Roxy. Por volta de 1946 meu pai já exercia sua mediunidade e um grupo de estudiosos espíritas da época se juntou e se encantaram com a mediunidade dele que era uma coisa incomum. Ele recebia todo tipo de espírito e fazia psicografia. Ele é autor psicográfico do livro ‘A voz de Guatabi’, uma de suas várias obras. Daria para ficar dias falando sobre ele”, disse Bira.

Também participavam das reuniões mediúnicas com o senhor Rosário, o fazendeiro Joaquim Lemos, o Quinzote, o médico Manoel Patti, Wilfredo Guillhermino e o jovem Wagner de Castro, além de Carlos Parada, entre outros. O projeto Roteiros da Fé foi idealizado e produzido pela jornalista Adriana Dias, conta com as imagens e filmagens de Douglas Arouca, músicas ao violão de Celso Faria, gravação e mixagem de Denilson César dos Reis e criação do logo de Armando Vidigal. Este é o 28º vídeo da série e contou com a música de Patrick Patrikios e pode ser visto em https://clicfolha.com.br/folhaplay/roteiros-da-fe-centro-espirita-pai-kachambi/.


Espaço Espiritual é criado na zona rural

PASSOS – A Chácara Tia Joana é um espaço para atividades do grupo umbandista Associação Espírita Pai Kachambi. A área foi doada pelos médiuns da associação Randolfo Chagas e Nélida, em 2007, e está localizada no Km 2 da BR 146 sentido Passos – Bom Jesus da Penha. O nome Tia Joana é uma homenagem dos doadores à sua tia Joana Vasconcelos Chagas Pedrosa. É uma área de preservação ambiental toda regulamentada, respeitando as leis ambientais para preservação do Ribeirão Bocaina.

De acordo com Maria José Lemos, a Zezé Lemos, quando começaram os trabalhos, em 23 de outubro de 2011, tiveram uma orientação da espiritualidade. Foi um momento calculado pela Astrologia como adequado à iniciativa da busca do conhecimento, sob a vibração conjunta de duas Estrelas Fixas do Universo, representando o Guia e a Sentinela.

Então, nos abrimos para receber o que seria a organização espiritual deste Espaço. Aqui estão as sete energias da Umbanda: Oxalá, Yemanjá, Yori, Xangô, Ogum, Oxossi e Yorimá. Fizemos a organização dos espaços dentro da vibração de cada energia. Tudo que é construído tem a inspiração das entidades e nós cumprimos as instruções. O médium tem a conexão e assim nós fazemos a canalização para o resultado final. Tudo passa pela supervisão da nossa babalaô, Guaraciaba Bernardes Costa Abreu, para em seguida ser executado”, informou Zezé Lemos.

A chácara tem um funcionário, Ronei Moreira Campos, que cuida da manutenção e limpeza. Recebe doações de materiais e mão de obra.

Aqui tudo é feito conforme nossas habilidades e a palavra de ordem é criatividade: tintas feitas com a própria terra, chão batido”, salientou.

Na casa dos Pretos Velhos, usada de forma iconográfica, está a canalização da energia de Pai Kachambi, Yorimá, que é a energia da transformação. A casa de pau-a-pique com fogão à lenha, mesa, cama é uma reverência aos Pretos Velhos. Tem um forno feito de cupim, para as defumações nos dias de atividade grupal. A bica d’água e o cocho com suas flores harmonizam, giram e geram a energia da tranquilidade dos Pretos Velhos da equipe.

A Casa da Águia nos traz a capacidade de viver na esfera espiritual. A Águia, na sua representação de força, nos leva à conexão direta com o Divino. É um espaço preparado para a meditação e a tranquilidade da mente”.

E dentro da mata, em construção, está o Congá de Jurema. Seu formato de pirâmide tecida em esteira guarda, no seu interior, uma mandala de cristal protegida por duas cruzes de Caravaca. Troncos, cipós e flores compõem o espaço. Seguindo as Linhas da Umbanda, o primeiro espaço energético que surgiu representa Yorimá, energia dos Pretos Velhos. Este portal conta com quatro ícones representando os Elementos Terra, Água, Fogo e Ar, além de uma Estrela-de-Davi que mostra que “assim como o que está em cima, assim é o que está embaixo”.

Este é o portal de passagem para a energia de Yorimá, trabalhada por Pai Kachambi, e que forma a fundamentação do Centro. A área de Yemanjá faz o portal de conexão com a energia do mar e com suas conchas movimenta a geração da energia que é necessária no ambiente. Ligada à energia feminina tem as formas da Lua como seus adornos. A mandala das seis Luas é um crop circle que foi desenhado na Inglaterra e dá ideia de movimento para compor o ambiente. Esta área tem também flores, como rosas e lírios amarelos, e uma fonte com água natural e potável”, contou a médium.

A área da energia de Oxossi está ligada à Casa de Dona Ignez Maria Costa, esposa de Antônio Rosário Costa, fundador da Associação, hoje dirigida por seus filhos. A casa de madeira guarda as relíquias de Dona Ignez – seu tear, que era seu entretenimento para tecer colchas coloridas, e sua roca de fuso para produzir os fios. É um local de recolhimento e passagem de espíritos. Na área de Ogum os elementos de fixação são cocos, sementes e castanhas. Em um totem de 5 metros de altura gira a mandala de captação e limpeza das energias do local.

Temos aqui um cocho que está sempre cheio de sal grosso, elemento de dissipação energética para limpeza e purificação do ambiente”.

A área de Iansã forma o portal energético que retrata o nascimento, a morte e o renascimento. Os ícones são potes de barro que representam o útero. No espaço coberto por um pergolado acontecem reuniões. “Estamos querendo plantar uvas neste espaço, mas somente em agosto, e estamos abertos para receber doação de mudas”, disse Zezé.

Para entrar nos espaços de Oxalá e Yori, onde existem três lagoas, é necessário passar pelo portal da permissão.

Este espaço é do Criador, o Éter, justamente o que permite que tudo aconteça no plano físico. O elemento energético Éter é representado com espelhos. Temos também a roda mostrando o movimento. É uma área constantemente aromatizada pelas flores brancas ali plantadas”, explicou a passense.

Já a grafia de Yori representa a energia da Forma.

A energia é trabalhada pelas Crianças de Angola e pelas entidades do Oriente. Se Oxalá deu a permissão, aqui vem a forma do que foi permitido. O elemento que utilizamos são as bolinhas de gude, que trabalham com o vidro na sua forma circular de refletir e girar. É uma representação da forma refletida já com a própria forma. Trabalhamos também com muitas flores nesta área”, complementou.

A área de Xangô, composta por pedras, é o maior espaço e tem proximidade com a água natural que corre pela chácara. Ao lado está a área de fixação de Nanã Buruquê, ligada ao barro. A Calunga Pequena é o Cemitério, regido pela energia de Omulu, da falange das Almas. No local há uma grande cruz em madeira e um banco para reflexão.

Aqui trabalhamos o entendimento da morte, a transformação da vida, a passagem vida e morte que não tem um divisor. Temos aqui o cata-vento, que trabalha o Elemento Ar”, explicou Zezé. O Guardião, uma grande raiz, representa a proteção feita pela equipe de guarda do lugar, e fica justamente de frente para o portão da Chácara. A diretoria do espaço é composta por Oilda Lemos, Maísa Maia, Guatabi Bernardes, José Paiva, Águeda Barros e Maria José Lemos, a Zezé Lemos.

Fotos: Divulgação