Destaques Dia a Dia

Assim o Tempo Passou

POR SEBASTIÃO WENCESLAU BORGES

20 de janeiro de 2021

Rapazes com blusão de couro, camisetas estampadas ou brancas, o badalado jeans, moda americana, ao som da música do rock and roll dos Beatles e dos Rolling Stones: a juventude buscava sua própria moda! Era a mudança fazendo parte da vida cotidiana de minha época de juventude, que foi um período que correspondia entre o início até o final dos anos 60.

Com a chegada televisão como veículo de comunicação, principalmente com a introdução das telenovelas, era destaque os programas de auditórios transmitidos por Flavio Cavalcanti, Chacrinha, Sílvio Santos e Hebe Camargo, e o de maior audiência “Almoço com as Estrelas” com o casal Airton e Lolita Rodrigues. Cada um com seu estilo próprio obtinha enorme audiência com apresentações populares: calouros, gincana, distribuição de brindes, concursos, desfiles de modas, entrevistas, premiação e outros, com júris compostos por pessoas famosas.

E a televisão se consolidava como o mais importante veículo de comunicação para a juventude com esses programas de auditório. E nesta onda surgiu o rock iê- iê- iê da Jovem Guarda que embalou a juventude nessa década, programa exibido na TV Record apresentado por Roberto Carlos e Erasmo, ditando a moda com suas roupas coloridas e cabelos compridos, a Wanderléa atacando de minissaia, brincos e anéis grandes, umbigo de fora e com isso as minissaias ganhavam as ruas. Era uma explosão da juventude em todos os aspectos, eram os jovens levantando a voz, defendendo não apenas o seu estilo de vida, mas também a forma de se vestir.

Nesta época surgiu o estilo e filosofia “Hippie” com suas roupas e calçados artesanais, enfatizando mais liberdade. Um pouco antes destas tantas transformações, vivi no início de adolescência um período completamente diferente desse, conhecido como “Anos Dourados”. Um período mais sossegado em que pela madrugada, passavam padeiros com grandes cestos no ombro, indo de casa em casa, colocando os pães ainda quentinhos em bonitas sacolas com o nome bordado e escrito “pães” com a figura de um padeiro, que ficavam a noite toda nas janelas, ou maçanetas das portas, sem perigo algum de roubo.

Pela manhã lenheiro vendendo sua carroça cheia de lenha, carreiros carreando os carros de bois com suas rodas cantando ou gemendo com a grande carga, leiteiros com os litros de leite batendo no andar do cavalo fazendo suas entregas, caminhões leiteiros chegando e trazendo o povo da roça para fazer suas compras na cidade, e o fogão a lenha enchendo a casa de fumaça! Carregadores de malas fazendo ponto na Rodoviária da Praça do Rosário e na Estação Mogiana à espera dos passageiros. Ao cair da tarde eram colocados bancos e cadeiras nas calçadas e ali sempre acontecia um papo sadio entre vizinhos e familiares.

O tempo foi passando e em minha juventude usei calças Boca de Sino, camisa Volta ao Mundo, sapato de Plataforma. A mulher mais bonita da época era a Miss Brasil Marta Rocha, e no cinema, dei muita risada assistindo às inocentes Chanchadas, comédias musicais produzidas pela Atlântida. Curti as músicas de rock dançante com Elvis Presley e, às tardes de domingo, íamos às brincadeiras dançantes ao som da eletrolinha portátil. As moças usavam saia rodada, blusa ou vestido com anágua engomada, cabelos de coque, franjas ou rabo de cavalo, e os rapazes não dispensavam no cabelo a Brilhantina.

Namoro era namoro, dava tremedeira só de segurar na mão ou na cintura na hora de dançar. Passar o braço por cima do ombro nem pensar, e depois de semanas, muito escondido, é que acontecia o primeiro beijo! Já fui à praça namorar de terno e gravata, dei volta no “rela”, ouvi pessoas dedicarem músicas nos microfones do Cine Roxy. Muitas vezes parei de andar imediatamente ao ouvir a hora de mais respeito em Passos, a “Hora da Benção”, e assisti nas Igrejas Matriz e Santo Antonio, Monsenhor Messias e Monsenhor Matias rezando missa em Latim, de costas para os fiéis.

Enfim, só sei que, em minha adolescência e juventude vivi dois estilos de vida muito diferentes, que me deixou saudades: namoricos, brincadeiras dançantes caseiras, músicas da Jovem Guarda, “rela” da Praça da Matriz, escurinho do cinema… E assim o tempo passou! É o tempo passando e a gente “Memoriando”!