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As marcas desumanas do racismo

13 de junho de 2020

Por acaso existiu racismo desde quando apareceu a raça humana no mundo? Não. Não temos registro de racismo na era primitiva quando o homo sapiens estava começando a virar humano. O que se sabe é quando havia encontros de grupos humanos primitivos de diferentes regiões o que geralmente acontecia era uma batalha travada com paus e pedras.

E o grupo vencedor passava ao domínio da caverna ou de um local propício para habitar devido a abundância de caça, árvores frutíferas, água, enfim era uma luta pela sobrevivência e não por causa de diferenças sejam de ordem cultural, racial ou qualquer outra. No mundo antigo já iniciado o processo civilizatório e com o surgimento dos grandes impérios também não havia essa questão de um povo considerar outro povo inferior por questão racial. Dos grandes e mais antigos impérios do Egito, Babilônia, Pérsia até aos gregos e romanos, a única preocupação era dominar povos para explorá-los e não se levava em conta aspectos étnico/raciais. Na verdade os impérios tratavam os povos conquistados por bárbaros.

Para os romanos, todo povo que não se expressava em latim era bárbaro, cuja semântica tem origem do termo balbuciar. Bárbaro era o que “balbuciava” por não se expressar em latim. A Idade Média começou com queda de Roma provocada pela reação dos bárbaros ao domínio romano. E assim as invasões bárbaras foram fracionando o território do império romano em feudos e depois os transformando em reinos que deram origem às nações europeias atuais. A Idade Moderna, esta sim, uma nova era sinalizando com uma evolução extraordinária da ciência e tecnologia visando resolução de todos os problemas humanos, dali é que veio a ser o berço infame a embalar as primeiras manifestações racistas.

O racismo como concepção ideológica surge realmente nos séculos XVI e XVII, sobretudo neste último. Não há como negar que a gênese do racismo no mundo ocidental esteja fundamentalmente associada à escravidão como a forma primitiva do colonialismo. Este processo escravidão dos tempos modernos estigmatizou como inferiores os negros e os indígenas. E o fizeram de forma vil e hipócrita para justificar esta infame prática de exploração de humanos por humanos. Os primeiros ideólogos do racismo usaram até de argumentos retirados de passagens bíblicas para justificar a escravidão.

E tudo com aval dos cristãos católicos e protestantes após as reformas religiosas do século XVI. Um absurdo incompreensível, pois que, ao mesmo tempo em que os europeus pregavam o amor do evangelho, interpretavam de maneira equivocada e proposital passagens do velho testamento para justificar a afirmativa de inferioridade dos negros e dos indígenas. Sobre os negros africanos dizia-se que eram descendentes de Cã, um dos filhos de Noé, que fora amaldiçoado assim como Caim e o castigo foi a mudança da pele branca para a pele preta. E quanto aos indígenas de que eram descendentes das dez tribos perdidas do povo de Israel. Daí, que o racismo proliferou nas ex colônias inglesas através do “apartheid”, ou seja, leis para apartar, separar os negros dos brancos através práticas isolacionistas em guetos urbanos com exclusão total aos direitos civis e políticos.

O mesmo aconteceu nos EUA com a “segregação” dos negros até aos anos 1960. Somente a partir daí, depois de muitas lutas e protestos dos negros tanto na África quanto nos EUA é que alcançaram o reconhecimento aos direitos civis. Lembro aqui dois líderes importantes dos movimentos negros daquela época, Martin Luther King e Nelson Mandela. Não podemos, no entanto, descuidar, pois novas formatações racistas surgem a cada dia, como esta onda norte-americana chamada “supremacia branca”.

O que se faz imprescindível a continuação da luta anti-racista. Protestos e lutas veementes, que no momento ganharam mais fôlego e suporte com a participação de grande contingente social das camadas brancas se envolvendo nos protestos que começaram nos EUA e se espalhou pelo mundo em razão do assassinato do jovem negro George Floyd.

No Brasil a questão racista é relativizada quando se compara com o racismo norte americano ou mesmo com o da África. Ou seja, aqui tentam minimizar a questão do racismo com teses superficiais e hipócritas de que no Brasil o racismo é brando por causa da miscigenação. E vão além, ao tentar incutir que aqui nunca se praticou a segregação ou apartheid, não tem Ku Klux Klã para perseguir e matar negros.

Se no Brasil não tem ou nunca teve a segregação com aval do Estado após a abolição, no entanto não podemos negar que nosso processo social se encarregou de estruturar um modelo próprio de racismo que segrega ou condena a maioria quase absoluta dos afrodescendentes na condição de pobres, sem igualdade de oportunidade e a viverem nos guetos das favelas, nos bairros periféricos sem saneamento básico, onde o Estado só comparece através da repressão policial.

Nem vou detalhar estatísticas que hoje abundam na mídia provando preconceitos e discriminações racistas no Brasil. Basta observar como são irrisórias as participações dos afrodescentes (54% da população) nos setores políticos e institucionais do país, tais como, por exemplo, no Congresso Nacional, STF e demais instâncias do judiciário. O racismo é uma das três maiores pragas consumadas por humanos e que envergonham a humanidade. Racismo, as desigualdades e injustiças sociais e as guerras. Silenciar diante de tudo isto, jamais! Porque silenciar é também uma forma de conformismo.

ESDRAS AZARIAS DE CAMPOS é Professor de História