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As emoções sob máscara

Danilo Casaletti / Especial

2 de julho de 2020

O uso da máscara poderá virar uma norma social ou um código de conduta. Mostra responsabilidade e empatia com o outro. / Foto: Divulgação

Quando, no futuro, a humanidade for relembrar imagens de 2020, a máscara estará presente em fotos de família, vídeos e arquivos de televisão. A máscara virou item obrigatório – e importante medida de prevenção contra propagação do novo coronavírus – em escritórios, shoppings, escolas, universidades, parques, equipamentos culturais. Isso mudará a maneira como iremos nos comunicar?

De acordo com o psicólogo Mateus Donia Martinez, o ser humano já usa, no sentido metafórico, máscaras sociais de acordo com os papéis que desempenha, seja na família, trabalho ou em relacionamentos com amigos – o que inclui a forma de falar, de se vestir, de se posicionar diante dos mais diferentes assuntos e até em posições corporais –, que servem para preservar a individualidade e para proteção em um ambiente desconhecido. Agora, com o acessório concreto obrigatório, haverá mais uma camada, que vai encobrir nossas expressões e poderá separar as pessoas em novos grupos.

O uso da máscara poderá virar uma norma social ou um código de conduta. Mostra responsabilidade e empatia com o outro, o cuidar de quem está ao seu redor”, diz Martinez. O psicólogo afirma que a adesão ou não da máscara e o modo como ela será usada criarão novos agrupamentos que se mostrarão quando as atividades sociais de fato voltarem ao normal. “É ela que nos tornará circulável.

Para o professor da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP Vinicius Romanini, a interferência na comunicação é inevitável, pois a máscara esconde expressões ou gestos faciais, por onde se dá boa parte da comunicação intersubjetiva, sobretudo sua dimensão emocional e afetiva.

Muitas vezes, aproximamos as mãos do rosto ou mesmo tocamos partes dele em associação com gestos faciais. Tudo isso é desaconselhado agora, o que gera frustração e um déficit comunicacional.” A solução, segundo ele, é ser mais explícito naquilo que se quer comunicar. “As pessoas com máscaras precisam usar mais a linguagem oral, falar mais abertamente o que antes era dito implicitamente. O que antes era um sorriso silencioso agora precisa ser uma risada sonora, ou então uma declaração aberta, do tipo ‘que engraçado!”, explica.

Morando há cinco anos em Montijo, cidade na área metropolitana de Lisboa, o carioca Felipe Barbosa Soares, de 33 anos, que trabalha em uma loja de telefonia celular, conta que o período de adaptação de medidas sanitárias contra o coronavírus foi complicado, com máscara, viseira, luvas.
Os clientes estranharam: queriam ultrapassar a faixa que os distanciavam do balcão, reclamavam que não podiam chegar mais perto.

“Você sai do seu normal, precisa falar mais alto para ser compreendido. O atendimento passou a ser mais demorado.”

Para o psicólogo Mateus Donia Martinez essa fase de adaptação requer paciência, seja nos relacionamentos pessoais ou profissionais.

“A boca, nosso contato do mundo interno com o externo, terá uma barreira. Por isso, as pessoas precisarão fazer um esforço extra para se expressar de forma mais clara, tornar a comunicação mais acessível ao outro e ser mais receptivo.

Tecnologia

Já a antropóloga Ana Laura Gamboggi acredita que a relação das pessoas no póspandemia será muito mais calcada na tecnologia.

As plataformas digitais de comunicação permitiram que reuniões de organizações e corporações diversas seguissem ocorrendo. Provavelmente, boa parte das reuniões não voltará a ser presencial, o que irá afetar a forma como as organizações existem espacialmente e se relacionam com seus colaboradores.

A mesma análise é feita pelo professor Vinicius Romanini: se o distanciamento se prolongar por muito mais tempo, a internet será o lugar de socialização para muitos e isso pode acelerar um processo que já existia.

E qual a consequência disso tudo? Segundo Romanini, é o “esfriamento” das relações sociais, algo contra a natureza de países como o Brasil.

Os espaços públicos tendem a se tornar áreas cada vez mais neutras do ponto de vista da interação e comunicação social. Já não se ouve mais ‘Bom dia!’ falado de forma efusiva, os feirantes já não gritam suas ofertas nas feiras livres, os vendedores já não se aproximam das pessoas para convidá-las a entrar e conhecer sua loja. Esses comportamentos mais comedidos são mais comuns em sociedades como a da Alemanha ou a do Reino Unido, mas, em países latinos, vão contra a naturalidade da comunicação normalmente feita.

Relação das pessoas será mais calcada na tecnologia

Sorrir com os olhos. Quando viu na imprensa que um médico americano colocara uma foto em seu crachá para melhorar a comunicação com os pacientes de covid-19, Emílio Bueno, diretor do hospital e maternidade Madre Theodora, em Campinas (SP), propôs que seus colaboradores fizessem o mesmo. Cada um escolheu a própria foto do crachá, agora em tamanho bem maior do que os pequenos e burocráticos identificadores. “Essa humanização é importante para a recuperação dos pacientes”, diz Bueno.

Um dos enfermeiros do Madre Teodora, Igor Schneider, escolheu uma foto de um momento de lazer, para transmitir segurança e alegria aos pacientes, algo que os equipamentos de segurança, como máscaras, capacetes, luvas e avental podem esconder, conferindo-lhe uma aparência mais robótica.

Outro dia chegou um paciente muito mal, prestes a ser entubado. Ele segurou na minha mão, pegou no meu crachá, olhou minha foto e disse ‘como você é forte’. Isso lhe deu conforto, confiança em mim”, conta, afirmando que o caso teve um final feliz.

Quando usamos máscaras, aprendemos a sorrir com os olhos, e isso, às vezes, é melhor do que dar uma gargalhada.

A dermatologista Cibele Hasmann comunga da mesma ideia: é preciso sorrir, mesmo de máscara. Ela decidiu lançar um desafio em suas redes sociais. Com as hashtags #ismile #eyesmile, pediu que as pessoas postassem fotos usando máscaras, mas que espalhassem sorrisos com os olhos. A campanha ganhou adesão, primeiramente, dos pais de Cibele, depois, de companheiros de profissão e, agora, ela já recebe fotos de pessoas que não conhece, mas que ficaram sensibilizadas pelo apelo.

Parece que o rosto se resumiu ao terço superior, não vemos mais a boca, nariz, bochechas um dos outros. Mas olhos também sorriem. Penso que podemos continuar a distribuir simpatia com eles”, diz.

Leitura labial

Para muitos, porém, um sorriso, embora seja importante, não é o suficiente para que a comunicação seja feita de maneira satisfatória. O uso das máscaras gera contratempos para surdos e deficientes auditivos que usam a leitura labial para se comunicar. O professor de história Joelson Adonias, que leciona por meio de Libras (Língua Brasileira de Sinais) no Instituto Santa Teresinha, especializado em surdos, diz que, de fato, a boca coberta dificulta quem apenas usa a leitura dos lábios.

No caso de Libras, o foco principal está nas mãos, apesar de usarmos o rosto, por exemplo, quando queremos indicar a palavra ‘cheio’. Mas, para quem depende de ver os lábios, a comunicação fica prejudicada”, afirma.

A professora de Libras Daniela Cury, de 42 anos, que é surda, diz que, neste novo normal, tarefas básicas como ir à farmácia ou ao supermercado se tornaram uma “agonia” e acentuam um problema já existente: a limitada comunicação entre os ouvintes com os surdos. “Normalmente, eu já tenho de pensar em todas as possibilidades para tentar me comunicar. Plano A, Libras; Plano B, leitura labial, Plano C, escrever em um papel”, lembra.

Para Daniela, o ideal seria que profissionais do comércio e da área da saúde adotassem o uso de máscaras com material transparente na região da boca. “É uma ótima solução. Aliás, é bom deixar claro: nós (surdos) não somos limitados, é a sociedade que nos limita”, diz.