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Árbitros recorrem a auxílio emergencial do governo

18 de Maio de 2020

Foto: Divulgação

SÃO PAULO – Longe do apito, dos cartões e das partidas de futebol, o árbitro potiguar Diêgo Leonardo Santana, de 29 anos, tem uma preocupação bem delicada desde que a pandemia do novo coronavírus paralisou o calendário de competições. Assim como ele, muitos outros árbitros que dependem exclusivamente da remuneração pelo trabalho em partidas profissionais deixaram de ganhar dinheiro e precisaram recorrer ao auxílio emergencial de R$ 600 do governo federal para poder bancar as próprias despesas.

A profissão de árbitro de futebol não é regulamentada no País, mas muitos brasileiros dependem só desse trabalho para sobreviver. Segundo a Associação Nacional dos Árbitros de Futebol (Anaf), existem no país cerca de 10 mil habilitados para apitar. A própria Anaf, federações estaduais e sindicatos de árbitros consultados pela reportagem estimam que pelo menos 5 mil árbitros não exerçam regularmente outra atividade remunerada fora do futebol.

No Campeonato Potiguar, onde Diêgo Santana atua, o árbitro costuma receber cerca de R$ 1,3 mil por jogo. A remuneração é variável de acordo com a competição e pode chegar até mesmo a mais de R$ 4 mil em partidas do Campeonato Brasileiro. “Só 15 árbitros do Brasil conseguem receber uma média de R$ 25 mil por mês. Já uns 60% do total ganha até R$ 2 mil por jogo apitado”, disse o presidente da Anaf, Salmo Valentim.

No caso de Diêgo Santana, o auxílio de R$ 600 recebido do governo amenizou ainda o problema de não conseguir alunos para as aulas como personal trainer durante a pandemia. “Eu consegui remanejar algumas contas. Tenho um filho de 3 anos e negociei a mensalidade da escola. Estava quitando as prestações de uma moto, mas tive de congelar o pagamento”, contou.

Árbitro do quadro da CBF, o pernambucano Gleydson Leite, de 43 anos, foi outro a ter recorrido ao auxílio do governo. Ele chegou até apitar uma partida com os portões fechados pouco antes da paralisação pela pandemia, mas não ficou à vontade. “Pela primeira vez em 18 anos de carreira eu entrei em campo e não tinha ninguém para me xingar. O futebol faz muita falta, porque eu gosto de estar em campo. A parte financeira ficou complicada com essa pandemia”, afirmou.

Outro pernambucano, Tiago Nascimento, de 38, passou dificuldades antes de conseguir receber o auxílio do governo federal. “Minha reserva financeira acabou logo, porque eu vivo de arbitragem e não tenho emprego formal. Eu contei a ajuda de alguns familiares”, contou. No ano passado ele atuou em mais de 20 jogos, principalmente nas Séries C e D do Brasileiro.

A ausência de jogos levou várias entidades ligadas ao futebol a organizarem doações na pandemia. A CBF repassou R$ 1,8 milhões para a Anaf distribuir entre mais de 4 mil árbitros federados. Em Estados como Amazonas, Pernambuco, Rio Grande do Norte, Ceará e Alagoas as federações e sindicatos realizaram ajudas variadas, desde o adiantamento de taxas a até doações de cestas básicas.

O presidente da Comissão de Arbitragem da Federação Cearense de Futebol, Paulo Sílvio, explicou que dos 130 árbitros do Estado, 86 estavam em situação delicada e sem fonte de renda. “Nós fizemos transferências com o valor mínimo de R$ 200. Ao todo vamos distribuir R$ 28 mil. O problema da pandemia é que os juízes não conseguem trabalhar nem mesmo em ligas amadoras e na várzea, que ajudam a completar o orçamento deles”, afirmou.

Morador de Fortaleza, Wesley Pacheco, de 26 anos, foi outro árbitro a ter recorrido ao auxílio do governo federal. “Eu costumo apitar cinco jogos por semana, seja pelo Campeonato Cearense ou jogos amadores. Com a paralisação, perdi mais da metade da minha renda”, contou.