Destaques Dia a Dia

Aprender a Ler e Escrever

POR SEBASTIÃO WENCESLAU BORGES

19 de agosto de 2020

E num certo período surgiu no Brasil o Movimento Brasileiro de Alfabetização (Mobral), criado em 1967, e mantido pelo Governo Brasileiro no Regime Militar que durou 15 anos. Propunha às pessoas acima da idade escolar convencional que não puderam freqüentar a escola na idade adequada, adquirir a leitura e o conhecimento do letramento, permitindo assim melhores condições de vida. Seu objetivo era levar um pouco de dignidade às pessoas por meio da educação, ensinar o cidadão analfabeto aprender a ler e escrever, criando assim uma melhor qualificação para o trabalho.

No início houve uma grande mobilização, principalmente das poucas entidades existentes nesta época em Passos, buscando aqueles adultos analfabetos para frequentar as salas de aulas que as escolas no período da noite disponibilizaram para a realização do programa. Era uma campanha que conclamava a população a dar sua contribuição. Cartazes eram colocados em estabelecimentos com o slogan: “Brasil: Ame-o, ou deixe-o!” Depois de lançar a música “Eu Te Amo Meu Brasil “que ficou conhecida como o hino do Regime Militar a dupla Dom e Ravel, muito conhecida dos Passenses daqueles áureos tempos dos Festivais da Canção em Passos, deram sua contribuição ao Mobral com a música “Você também é responsável, então me ensine a escrever, eu tenho a minha mão domável, eu sinto a sede do saber”.

Com essa música sendo tocada em todas as rádios do Brasil, as cidades se mobilizaram, criaram suas associações de apoio a essa causa de acabar com o analfabetismo, e as Conferências da SSVP em Passos juntaram- se à campanha para fazer as matrículas das pessoas. Juntamente com os Vicentinos da Conferência de São Francisco, pelo bairro São Francisco, fizemos o levantamento de quais os socorridos precisavam frequentar esse programa.

Das pessoas que fiquei com a responsabilidade em fazer a matrícula, duas me deixaram boas recordações: Uma foi Dona Helena, uma senhora solteirona que tinha um problema na perna, andava escorando em sua bengala. E lá num certo dia, ela me mostrou seu caderno com várias escritas com seu nome, e me disse: “Aprendi a escrever meu nome, agora não preciso colocar meu dedo como assinatura!” e ao lhe dar os parabéns, pude ver lágrimas marejando em seus olhos pela sua grande satisfação em ter aprendido a assinar seu nome.

O outro foi o Vitor, filho da Dolores, eles muitos conhecidos no bairro, ele ainda jovem teve que amputar uma de suas pernas. Sua mãe Dolores era muito severa na criação do Vitor, e foi uma luta convencê-la a deixar levar os documentos dele até o grupo Starling Soares e fazer sua matrícula. Sempre que o encontrava ele me falava: “Te devo uma grande obrigação!” Motivo: por ter feito sua matrícula, ter dado a ele um caderno, lápis e borracha, e a chance dele, depois de adulto, poder frequentar uma sala de aula.

Lá num certo dia, assim que cheguei à sua casa, sua mãe Dolores passou um pano na cadeira que já estava bem limpa, assentei, ela se ajeitou num banco de caixote, e o Vitor escorado pela muleta, veio de seu quarto com um embornal alvejado todo branco no ombro. Tirou do embornal o material didático que o Mobral fornecia, e com uma grande satisfação me mostrou seu caderno com escritas feitas por ele. Pegou o livro e sob os olhares orgulhosos de sua mãe, abriu a primeira página que tinha as letras grandes do alfabeto e começou a soletrar!

Para cenas como essas de pessoas como Dona Helena e Vitor sempre há espaço em minha memória para uma gostosa lembrança. E o Mobral para eles foi um fato histórico pela oportunidade que tiveram em frequentar pela primeira vez uma sala de aula, aprender e saber o que é ler e escrever. Muitos foram os alunos que após terminarem o curso do Mobral, trocaram a enxada pela caneta, livros e cadernos, foram atrás de mais estudos e chegaram a concluir curso superior. Enfim, o Mobral foi importante, e muitos tiveram a oportunidade de conviver com pessoas que a seu modo conseguiram vencer essa etapa em sua vida, num período carregado de boa energia e muitos sonhos!
É o tempo passando e a gente “Memoriando”!