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“Amazonas” rouba a borracha

POR LUIZ GUILHERME WINTHER DE CASTRO

5 de outubro de 2020

Este outro caso de espionagem industrial, aqui narrado, é também da 2ª edição do livro “Espionagem Industrial – O Roubo de Segredos nas Empresas Modernas”, de Jean Barral e George Langelaan, da Editora Expressão e Cultura, em fevereiro de 1971. O título original é “Les Nouveaux Parasites” – Copyright, 1969, Éditions Denoel. A 1ª edição em língua portuguesa foi em maio de 1970.

Com o título do texto, os autores narram o maior roubo de sementes de seringueiras acontecido na Amazônia, ao menos até 1876, no Brasil. O nome do barco inglês, que transportou as 70.000 sementes de forma clandestina, era “Amazonas”. Sabemos que vários países do mundo estiveram e estão preocupados com essa nossa região, não por conta da preservação, mas, sim, por conta da variedade de riquezas imensas que lá existem. Preocupação com a questão ambiental, talvez, seja de um ou outro país apenas.

Os autores dizem que o segredo da seda viajou vagarosamente do Oriente para o Ocidente. No entanto, o caso da borracha, que é produzida pela árvore seringueira (a árvore que chora), uma espécie que existia somente na América do Sul, fez o percurso no sentido contrário. Foi do Ocidente para o Oriente. Juntamos informações do livro e algumas, sobre as pessoas descritas no livro, conseguimos com mais detalhes na internet. Charles Goodyear (1800 – 1860), dos Estados Unidos da América do Norte, já havia descoberto os segredos da fabricação, da vulcanização e da transformação da borracha.

Mais tarde, Mackintosh criou a capa impermeável. Seu nome virou o nome da capa, algo muito comum na prática industrial. Charles Rennie Mackintosh (1868 – 1928), era arquiteto e designer escocês. No seu ofício, ele se baseou na tradição escocesa, juntou elementos de inspiração japonesa e de Art Nouveau. Criou uma capa do tipo da gabardina (ou: gabardine) e que foi vendida pela primeira vez em 1824. A capa era fabricada com tecido e borracha.
Thomas Hancock (1786-1865), do Reino Unido, irmão mais velho de Walter Hancock, inventou o elástico, a indústria inglesa da borracha e também criou a máquina de mastigação da borracha.

Sir Henry Alexander Wickham (1846 – 1928), botânico inglês, é a figura principal do roubo de 70.000 sementes de seringueira. A semente é conhecida como hevea brasiliensis. Na região de Santarém, no Estado do Pará, no ano de 1876, ele fretou um cargueiro inglês, de Liverpool, com o nome de “Amazonas”. O barco estava de volta para a Inglaterra e sem carga alguma para transportar. Sir Henry Alexander Wickham contratou o comandante do barco para levar as sementes para a Inglaterra, burlando a fiscalização das autoridades portuguesas. Mesmo sem autoridade, sem ter crédito suficiente, ele fretou a embarcação em nome de Sua Majestade.

O comandante não se preocupou com o exame de documentos, aceitou o frete proposto e ainda aconselhou o contratante a não declarar a natureza da carga às autoridades. Sir Henry, então, declarou que eram espécimes raros e frágeis para o Jardim Botânico de Sua Majestade, na Inglaterra, para serem plantadas no parque de Kew. Devemos lembrar que ainda era época do império no Brasil. As sementes foram para a Inglaterra e chegando em Liverpool, levaram a carga para os Reais Jardins Botânicos de Kew ou Jardins de Kew, onde já havia estufas preparadas para receber a encomenda. Sir Henry cuidou muito bem de tudo e logo as sementes germinaram.

Consta que Sir Henry já se preparava para transplantar as mudas, quando recebeu uma “recompensa” de Sua Majestade: foi despedido com os agradecimentos da Coroa Real. Depois, um grupo de mestres de jardinagem do serviço inglês levou mudas para o Ceilão. Alguns anos depois, para Cingapura. Foram terras que aceitaram as mudas. Os seringais se espalharam por todas essas regiões e com sucesso. Em menos de um século, a Inglaterra conseguiu produzir muita borracha e construíram uma reserva duas vezes maior que toda a América Latina. As sementes, no mínimo, deveriam ser vendidas e não roubadas como foram. Mas, infelizmente, até hoje, o Brasil continua sendo uma grande vítima de parte do mundo e inclusive de próprios brasileiros.

LUIZ GUILHERME WINTHER DE CASTRO é professor de oratória e de técnica vocal para fala e canto em Carmo do Rio Claro/MG. Ex-professor do ensino técnico comercial – formado no curso Normal Superior pela Unipac.