Destaques Entrevista de Domingo

Alexandre Lemos Maia, comerciante e produtor rural

"A dose do remédio para esta pandemia foi estupidamente exagerada"

27 de abril de 2020

O empresário do ramo de panificação há 10 anos e produtor rural com ênfase na criação e venda de gado de corte, Alexandre Lemos Maia, 60 anos, natural de Passos, formado em Medicina Veterinária pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), com pós-graduação em Gestão Empresarial pela Fundação Getúlio Vargas (FGV), é um crítico ao isolamento social horizontal frente à pandemia do coronavírus. O filho de Sebastião de Souza Lemos e Aleida Maia Lemos herdou o DNA político de seu avô materno, Geraldo da Silva Maia. Maia ainda tem este caminho de prefeito a trilhar, embora tenha ido mais longe que o avô, quando foi eleito suplente de deputado federal em 2003, como a maior votação obtida por um político na história de Passos – com 78% dos votos válidos. Ficou entre os 30 mais votados dos 53 deputados da bancada mineira e com a saída do então parlamentar, Saraiva Felipe, para o Ministério da Saúde, tomou posse em 11 de julho de 2005. Ficou 8 meses e meio no cargo, tempo suficiente para fazer muito por Passos e região, principalmente na área da Saúde. É pai de Henrique e Fernanda e hoje casado com Sheila Kirchner Mattar Maia, esta mãe de Isabela. Para falar um pouco sobre sua trajetória e a da pandemia da covid-19, a Folha da Manhã ouviu Alexandre Maia.

Folha da Manhã – Seus dois tipos de negócios foram diretamente afetados pela crise advinda da pandemia do coronavírus?

Alexandre – De algum modo afetou sim, principalmente, no empreendimento que temos na Avenida da Moda, em Passos, pois a Panetutti trabalha com panificação, conveniência, bar e churrasquinho, e tivemos uma queda de aproximadamente 60% nas vendas, assim como as outras padarias da cidade. Então, mesmo não tendo ficado fechada, tivemos perdas significativas. No meu outro ramo de negócio, sou agropecuarista no comércio de recria de gado de leite (compra e venda). Ao todo, temos a geração de 20 empregos diretos e não tem sido fácil manter este quadro com a pandemia. No agronegócio, as produções também não pararam. O trabalho no campo é pulverizado e os profissionais ficam distantes uns dos outros, facilitando a não proliferação do vírus. Se o agronegócio parar, a população morre de fome. O agro tem função primordial, leva o alimento à mesa dos brasileiros, que leva a vida. Se o agronegócio parasse por conta desta pandemia, a convulsão seria tamanha que a vida não se sustentaria.

FM – O fechamento do comércio em Passos, como uma das medidas da administração municipal, foi precipitada, no seu entendimento?

Alexandre – Durante a pandemia, os dias têm sido tristes, agonizantes e deprimentes. A pandemia trouxe um estado de doença e de espírito negativo em função da própria doença e porque alguns meios de comunicação insistem em levar uma síndrome para assustar a população, criando assuntos assustadores diários, que nem sempre retratam a realidade. Dentro da pandemia, o que me causa espécie é que a mesma mão pesada que foi usada pelos governadores fechando escolas, não foi a mão leve para em fevereiro cancelar o Carnaval. Governadores, prefeitos, de todos os lugares juntaram milhares de blocos, trazendo e levando turistas de uns lugares para outros, patrocinando uma contaminação em massa, mas depois de tudo instalado, montaram gabinetes midiáticos e, com isso, estão se lançando para novos cargos políticos. Não se sabe ao certo que isolamento é mais ou menos apropriado, mas apesar de não ser médico, entendo que deveria ter sido feito no Brasil o isolamento vertical, ou seja, deixar as pessoas dos grupos de riscos em confinamento, preservando a vida e ainda a vida econômica do país. Boa parte da população esta com problemas é no campo do emprego, que é uma das coisas mais sagradas.

FM – O senhor está na Avenida da Moda, onde a maioria das empresas é de confecção. Como tem percebido a reação destes comerciantes frente às decisões da administração?

Alexandre – Sinto que aqueles que estão fechados, a queda para eles é gigante. Vejo dos confeccionistas e de outros parados ou com restrição, mesmo abertos agora, estão com muito medo de tudo, pois a desinformação foi a tônica desta pandemia. Foi aterrorizante, de tirar a paz da população com ações totalmente diferentes de pontos de vista heterogênea em nível estadual e federal, e dados de locais diferentes para o geral. O principal trabalho do novo Ministro da Saúde é construir nova ponte e uma palavra só. Mais grave ou tão grave é a crise da doença e a psicose, o medo que foi trazido para a população. Apesar da parte política, a doença trouxe uma sensação de aproximação e valorização da vida. Nada mais será como antes. Vamos criar novos conceitos, novos tipos de negócios, a valorização da pessoa, da política, dos que trabalharam de forma diferente.

FM – A Avenida da Moda tem deixado de ser exclusivamente da Moda?

Alexandre – Tem se mesclado a cada ano. Temo muito que após esta liberação do comércio em geral, várias empresas não consigam se manter. Mas torço para que continue mesclada e volte a ter a alegria e a beleza que sempre teve. É uma das partes mais bonitas da nossa cidade. Um grande orgulho para Passos, que traz turistas à nossa cidade.

FM – Seu negócio de panificação não foi alvo da ordem de fechamento da prefeitura, por se tratar de atividade essencial, porém, seu estabelecimento também funcionava como bar, o que ainda está proibido pelo decreto mais recente assinado pelo prefeito Carlos Renato Lima Reis, o Renatinho Ourives. Qual sua opinião sobre a abertura destes locais?

Alexandre – Vou dizer novamente: sou favorável ao isolamento vertical. Preserva a população e os empregos. Claro que os devidos cuidados devem ser tomados, mas até onde vimos não teve nenhum caso ainda em Passos, o que deveria levar ao relaxamento. Os casos registrados pela Santa Casa de Passos foram da região. Percebo que desde o começo era a necessidade do vertical. Pelo erro de governos que deixaram o Carnaval acontecer, os prefeitos do interior ficaram à reboque. Deveriam ter feito como no Espírito Santo, com A, B e C, para cada nível de risco. Não parando a vida e levando a população ao caos. Não se pode tratar de forma igual populações diferentes. Passos tratada com o mesmo rigor que Belo Horizonte, ou que São Paulo e Rio de Janeiro. São situações muito diferentes. A dose do remédio para esta pandemia foi estupidamente exagerada.

FM – Então, o senhor entende que a prefeitura já deveria ter aberto todos os empreendimentos?

Alexandre – Claro, desde que de maneira responsável. E, ainda sobre o isolamento horizontal, acompanho a opinião de renomados infectologistas. Acabei de ver um deles dizendo que o horizontal em determinados casos ou na maioria deles traz mais problemas do que solução. Segundo ele, a Itália, após o horizontal, aumentou 3 vezes o número de contaminados. Acredito que não era a medida correta para Passos pelo perfil epidemiológico. Se o prefeito, por ter o peso da caneta e a responsabilidade junto aos membros de sua equipe e de membros do Comitê da Pandemia, tomou as mesmas medidas da capital para o interior, foi muito exagerado em função dos bons números que a cidade apresenta. Penso que não há condição de continuar assim. O caos vai se estabelecer, vai ficar inviável até para a administração municipal o fechamento do comércio em geral, no mais até o final de semana o prefeito deve flexibilizar, dando condição à população de voltar ao normal.

FM – Renatinho Ourives foi conservador?

Alexandre – A OMS tomou uma atitude, parte dos governos e os prefeitos tomaram posição conservadora. Mesmo já tendo aberto boa parte do comércio, entendo que enquanto não contaminar 50% da população essa virose não vai acabar. 90% não vai sequer saber que o coronavírus passou por ela. Temos que tomar cuidado é com a abertura, que já deveria ter acontecido há 15 dias. E não abrir só no inverno, época propícia a este e a todos os tipos de vírus. Tenho certeza que o isolamento não se sustenta mais.

FM – O que se tira desta pandemia?

Alexandre – Abrindo agora o apelo é para que todos os brasileiros comecem a valorizar os produtos regionais, nacionais e locais. Que comecem a freqüentar os comércios ligados ao nosso. Confecções, mercados. O desemprego vai ser muito alto, temos que gerar trabalho para recolocar aquelas pessoas que serão demitidas ou que já foram. Torço que a epidemia esteja no fim. Na nossa cidade, percebemos claramente que ela nem existiu, ao menos não tem nenhum caso confirmado (os dois são de outras cidades). É hora de prestigiar o nosso comércio. Aliás é nesse sentido a campanha do SEBRAE Nacional, a qual aplaudo na pessoa de nosso líder regional, Carlos Melles.

FM – Em São Sebastião do Paraíso, o prefeito Walker Américo Oliveira tem sido mais flexível: abriu o comércio de forma total já há alguns dias e nesta quinta-feira, 23, liberou bares e restaurantes. O senhor acha que eles estão à frente de Passos?

Alexandre – Tanto Guapé como também São Sebastião do Paraíso tiveram atitude mais adequadas, porque, se não tivemos nenhum caso, e em Passos não tivemos, muito graças aos comércios necessários que não pararam. A responsabilidade e o respeito é que vão dar o tom daqui pra frente. Não podemos tratar de maneira igual situações absolutamente desiguais.

FM – O que o senhor acha do uso da cloroquina?

Alexandre – O Conselho Federal de Medicina liberou o uso da cloroquina desde os primeiros sintomas da doença. Estamos saindo desta pandemia e a cloroquina pode ser uma a solução ou parte importante da situação. O fato de uma fala confusa entre o ministro Luiz Henrique Mandetta e o presidente Jair Bolsonaro foi ruim. Bolsonaro, a quem admiro e respeito, não teve entrosamento e discurso único a respeito da pandemia, ele não soube junto com o Mandetta fazer um discurso único. Mandetta tomou todas as medidas necessárias com muita antecedência, o que tem que ser elogiado. O modelo SUS só tem aqui e funciona com muita precisão. Mas Mandetta errou na parafernália de falar toda hora e com a entrevista que concedeu à Rede Globo, arruinou a confiança com Bolsonaro, assim como os Dórias (governador de São Paulo, João Dória) e Witzels (Wilson Witzel, governador do Rio de Janeiro) da vida. A falta de pulso destes políticos foi responsável pela pandemia. Eles todos deveriam ser responsabilizados e penalizados por isso. Juntaram o inferno no Carnaval e depois querem levar o céu para a população.

FM – O senhor foi responsável pela criação do Procon em Passos, que à época era ligado à Secretaria de Agricultura e ainda é ligado a esta pasta. Qual o papel do Procon durante a pandemia?

Alexandre – Sim, fui responsável pela criação do primeiro Procon do Sul de Minas e participei também da criação da Vigilância Sanitária e trabalhei efetivamente para a vinda do Instituto de Peso e Medidas (IPEM), do Serviço de Inspeção do Frigorífico Municipal. Dentro dos mais de 30 projetos, um foi sobre o Serviço de Inspeção Federal, que dava condição de todos os produtores que usavam o Frigorífico municipal de exportar carne para o mundo. Favoreceu abate de gado de corte e a Coperpassos era bastante ativa. Bom, com relação à função do Procon, é de vital importância, tanto o municipal, como o legislativo, como órgãos fiscalizadores das ações.

FM – O Samu, que tanto é útil à população regional, também foi resultado de seu trabalho quando deputado federal?

Alexandre – Como deputado federal, consegui talvez o maior volume de recursos que uma cidade poderia ter na área da saúde, assim como pude trazer o Samu, que acabou não sendo implantado na época, mas foi iniciado e deixei tudo pronto. Considero que o maior legado que deixei foi para o Hospital Regional do Câncer, tendo conseguido todos os recursos para a sua concretização. Tive a felicidade de estar no lugar certo, na hora certa para conseguir a construção completa do primeiro andar, da casamata e do equipamento com recursos de R$1,8 milhão e deixei ainda alinhavado o convênio com o governo federal. Conseguimos $3 milhões de dólares, que permitiu a construção do 1º andar, graças ao recurso junto ao Ministério da Saúde. Após este período, ganhou uma legião de abnegados. Passos se consagrou neste setor de cuidar de pacientes com câncer e o HRC é um dos grandes responsáveis também pela geração de empregos.

FM – O senhor é um dos grandes nomes do Democratas, seu partido. É pré-candidato a prefeito?

Alexandre – O DEM tem trabalhado com nomes importantes. Em Passos, somos quatro possíveis pré- candidatos. Graças à vinda do grupo antes abrigado no PSDB, partido que se extinguiu em Passos, esta união constituiu uma estrutura interessante, colocando nosso partido como um dos favoritos para a sucessão municipal. E com chances de fazer a maior bancada de vereadores neste ano. Coloco meu nome para apreciação da Executiva, que através de uma composição interna escolherá o melhor nome para atender às demandas da população. Deve ser feita pesquisa e muitas conversas nos próximos meses para preparar a pré-campanha com bastante tranquilidade, que culmine com a eleição do novo prefeito e uma bela bancada na Câmara Municipal de Passos.