Destaques Opinião

Ajuda humanitária

POR LUIZ GONZAGA FENELON NEGRINHO

17 de agosto de 2020

Nada mais louvável que o Brasil hipoteque solidariedade ao Líbano, ofereça ajuda humanitária e preste assistência de toda ordem diante do pavoroso acidente no porto de Beirute. Terrível a destruição na capital libanesa, que vitimou mais de uma centena de mortos e deixou por volta de quatro mil feridos. Nada mais justo. Consideremos os laços afetivos entre os dois países. E vem de longe. Desde o início do século passado (um pouquinho antes até, por volta de 1880, logo após uma visita de Dom Pedro II ao Líbano).

De lá para cá, os sírios e libaneses vieram para o Brasil, na época passávamos por mudanças e transformações, período pós-Colônia, urbanização e industrialização em alta, boas perspectivas, cada um dos imigrantes que por aqui chegou, tomou espaço, assentou-se, formou prole, e como na bela canção de Jorge Ben Jor – País Tropical – fez presença neste país “abençoado por Deus e bonito por natureza”. E muito devemos ao povo que deixou sua terra em meio a conflitos e veio emprestar suor, garra e talento para ajudar na construção de um Brasil melhor em diversos setores da economia, em especial na indústria e no comércio.

Guardo no peito a saudade de amigos e conhecidos com os quais mantive ligações de amizade e compadrio, ainda que mal compreendesse a língua e o sotaque, mas sentia na fala firme e forte a têmpera da sobrevivência. Há quem sustente – números aleatórios – que a comunidade libanesa no Brasil seja da ordem de 12 milhões de pessoas, o que corresponde a quase um terço da população do Líbano. Vieram da Síria, do Líbano e de outros pontos do Oriente Médio. No entanto, há que se fazer ressalva quanto à denominação. Muitos não admitem a nominação de “turcos”, o que pode ser motivo de briga e confusão. São libaneses ou sírio-libaneses. E se está combinado. Não há quem não nutra apreço pelos irmãos libaneses, ou sírio-libaneses, seja por vínculo afetivo ou familiar.

Mas, alto lá! Não queira o presidente Bolsonaro fazer proselitismo em meio à pandemia da Covid-19 no Brasil – levando-se em conta as mais de mil mortes diárias e mandar comitiva até o Líbano para prestar apoio “moral” aos libaneses, dando ares de quem está praticando ato de pureza e bondade. Desculpem. Não é passável. Mesmo os irmãos de ascendência armênia, grega ou curda não engolem. Envie, sim, o avião cargueiro, mas na observância do sermão da planície e o argueiro. Enfim, na importância das coisas, ou seja, sem exagerar.

O ato em si não revela adequação para um governante sobre cujos ombros pesam mais de 106.000 mortes pela Pandemia do Coronavírus, muitas das quais descendentes dessa maravilhosa gente na qual estamos tratando. Quando há pouco atingimos o patamar dos cem mil mortos pela Covid-19, a indiferença em que se pautou a equipe do atual governo foi melancólica. O que se ouviu: “Fazer o quê? Têm que morrer mesmo! Ninguém fala no número de recuperados?” Eita! Foi o que se ouviu. É o que se ouve no cotidiano por parte do desgoverno cloroquiner.

Em nome da boa relação entre Brasil e o Líbano, que se ajude a comunidade libanesa nessa calamidade – envie ajuda humanitária como o fez. Fez chegar medicamentos e insumos básicos, como 100 mil máscaras cirúrgicas, 300 ventiladores pulmonares, antibióticos, corticoides, analgésicos, ataduras etc. Mas, por favor, sem proselitismo enfadonho, sem sectarismo ardiloso, medonho e despropositado. Longe de se acreditar na sensibilidade bolsonariana às questões da boa convivência internacional. Não é crível. Que Bolsonaro tenha a mesma postura em relação aos mortos e infectados brasileiros pela Covid-19. Não tem. E nem terá.

Até mesmo os libaneses hão de desconfiar e entender o falso aceno. O timoneiro não larga o timão e põe a sair por aí a ver navios em águas já dantes navegadas pelo segundo e último Imperador do Brasil. Podem outros fazê-lo. Pelo andar da carruagem – mera força de expressão – a prestação do feito é pouca para tanta ousadia. Nossos respeitos à comunidade libanesa no Brasil. A jogada é manifestamente política, clara demonstração de aproximação com o MDB e seus adeptos. Trata-se de mais uma tentativa de cooptação com as lideranças do Movimento Democrático Brasileiro para assuntos políticos futuros. Tanto que Bolsonaro convidou seu antecessor, Michel Temer (MDB) para liderar a missão junto ao Líbano, acompanhado de Paulo Skaf, também do MDB, ele que é presidente da FIESP (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo), ambos descendentes de libaneses e peso forte nos interesses do presidente Bolsonaro.

A resposta a toda essa trapalhada deve ficar para os anais da República. Farão parte de um cenário que envolve milhões de infectados e já caminhando para 150 mil mortos, sem que o Ministério da Saúde aplique verbas para fins sanitários no Brasil. Pelo conjunto de dados processados e medidos, tantas as desumanidades praticadas pelo atual governo, percebe-se que a sede de poder jamais conseguirá ser saciada com a aplicação de tanta incompetência e imbecilidade juntas. Escusas, respeito e solidariedade aos irmãos libaneses pelo triste episódio em Beirute. Salaam Aleikum! Todavia, o nefasto oportunismo político é tão indigesto quanto nefando.

LUIZ GONZAGA FENELON NEGRINHO, advogado trabalhista e previdenciário, com escritório em Formiga,
escreve aos domingos nesta coluna.