Destaques Entrevista de Domingo

‘A única certeza que temos é que os desafios serão grandes’

15 de junho de 2020

Foto: Divulgação

O Papa Francisco nomeou, no final do mês de maio, o cônego passense Célio da Silveira Calixto Filho como novo bispo auxiliar da arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro (RJ). O presbítero atualmente é pároco da paróquia Nossa Senhora de Fátima, na mesma arquidiocese. A nomeação de um novo auxiliar foi solicitada pelo arcebispo metropolitano do Rio de Janeiro, cardeal Orani João Tempesta, por necessidades pastorais.

Ao fazer o anúncio, o Arcebispo Metropolitano de São Sebastião do Rio de Janeiro, cardeal Orani João Tempesta, afirmou que a nomeação ocorre “em um momento de mudança de paradigma com o covid – 19. Caberá a ele como nosso novo colaborador, como Bispo Auxiliar ser uma manifestação do amor de Deus, no exercício de seu ministério, considerando que evangelização tem como ponto de partida fundamental: estar presente. É impossível semear o Evangelho, sem este primeiro elemento: estar presente, tocar a realidade.

Só tocando a realidade podemos ouvir Deus que nos fala. Por isso é significativo que um professor de Liturgia, com Doutorado em Liturgia, agora devera confrontar respostas práticas para o questionamento da realidade eclesial multifacetada em que vivemos: encontrar tempo e disposição para anunciar o Evangelho, testemunhando-o particularmente na celebração dos sacramentos e sacramentais, como dispensador dos mistérios sagrados, sendo um bispo servidor, que vá ao encontro das periferias existenciais dedicando-se ao Senhor, aqui no meio das pessoas, como dedicou-se um tempo na formação das novas gerações sacerdotais e também agora do povo de Deus, bem como como Pároco de uma realidade pastoral viva que é a sua Paróquia de Nossa Senhora de Fátima”.

Muitos valores de solidariedade e fraternidade estão sendo redescobertos, e esperamos que se mantenham em alta depois que tudo isso passar”

O segredo de uma vida episcopal madura e frutuosa é que o Monsenhor Célio foi considerado, pela observação de nossa avaliação de seu ministério presbiteral, como um homem dotado de autoridade, cultura, experiência pastoral e espiritual capaz de dialogar com várias realidades e lugares, contudo deixando sempre espaço para a multiplicidade de dons que o Espírito Santo semeou em seu frutuoso ministério presbiteral, que, esperamos com a graça de Deus o faça um bispo que vá “ao encontro das ovelhas”, conttinou Dom Tempesta em sua nota.

Padre Célio da Silveira Calixto Filho nasceu em 8 de maio de 1973, em Passos. Formou-se Engenheiro Mecânico na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), em 1996, mesmo ano que iniciou o curso de Filosofia na Faculdade Eclesiástica de Filosofia João Paulo II. Padre Célio cursou Teologia no Instituto Superior de Teologia da Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro, entre 1998 e 2001, obtendo a ordenação presbiteral em 28 de setembro de 2002.

De novembro de 2005 a dezembro de 2006, fez uma experiência como monge trapista na Abadia Nossa Senhora do Novo Mundo, em Campo do Tenente (PR). Retornando à arquidiocese do Rio de Janeiro, em janeiro de 2007, foi provisionado vigário paroquial para a paróquia de São Brás, no bairro Campo Grande. Em maio do mesmo ano, foi transferido para a paróquia de São Sebastião, em Bento Ribeiro, como pároco.

De fevereiro de 2008 até setembro de 2012, foi diretor espiritual do Seminário Arquidiocesano de São José, transferindo-se em seguida para a paróquia dos Santos Anjos, no Leblon, onde permaneceu como pároco até maio de 2017. Desde 5 de junho de 2017, é pároco da paróquia de Nossa Senhora de Fátima, em Tomás Coelho. Padre Célio também é cônego efetivo e secretário do Cabido da Catedral do arcebispado de São Sebastião do Rio de Janeiro. Ele obteve o grau de Mestre em Teologia Sistemático-Pastoral na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio), em 2014, com a dissertação “O memorial: continuação da obra redentora de Jesus Cristo”.

Nesta entrevista à Folha, dom Célio da Silveira Calixto Filho fala de suas origens familiares em Passos e do novo desafio que terá pela frente prevendo, entre outras coisas, a utilização de mídias digitais, uma ferramenta importante para diversos setores da sociedade.

P – Fale-nos de sua origem familiar na cidade de Passos. Ainda mantém contatos constantes com os familiares?

R – Sou nascido em Passos e tenho tios e primos na cidade, com os quais procuro manter contato sempre que posso. Meus avós já faleceram. São eles: Chafik Calixto e Mariinha, José Junqueira e Sônia.

P – O senhor deixou a cidade com destino ao Rio de Janeiro para se formar em Engenharia Mecânica na UFRJ, onde concluiu o curso em 1996. Chegou a exercer alguma atividade como engenheiro?

R – Meus pais, Célio e Blandina, eu e meus irmãos, Luciano, Rodrigo e Marcelo, moramos alguns anos no estado de São Paulo. Em 1988, quando eu ia completar 15 anos, fomos morar no Rio de Janeiro. Cursei Engenharia Mecânica na UFRJ, fazendo estágio na própria instituição, até entrar no Seminário São José, praticamente recém-formado, em 1996.

P– Como nasceu a decisão de ingressar num curso de Teologia e seguir o Presbitério?

R – Sempre participei de atividades na Igreja, e no decorrer do último ano do Curso de Engenharia, veio a vontade de me dedicar ainda mais ao serviço pastoral. Comecei a participar do Grupo Vocacional no Seminário, e surgiram dúvidas sobre minha vocação, se seria mesmo a profissão de Engenheiro. A única maneira de ter certeza era entrar no Seminário; foi o que eu fiz, e agora aqui estou eu, prestes a completar 18 anos de Padre, recebendo do Papa Francisco a nomeação para ser Bispo Auxiliar do Rio de Janeiro.

P – Depois de ordenado Padre o senhor atuou em que cidades? Como é a atuação nas comunidades onde atua?

R – Sou Diocesano, isto é, fui ordenado pelo Bispo do Rio de Janeiro (Dom Eusébio Scheid, naquela época), para atuar na cidade do Rio de Janeiro. Minhas atividades principais foram nas Paróquias São José Operário (Maré), Santos Anjos (Leblon), Nossa Senhora de Fátima (Tomás Coelho), além de ter trabalhado no Seminário São José, e também em outras comunidades, por períodos mais breves. Fui muito feliz em todos os lugares por onde passei, todos muito diferentes entre si, mas onde pude cooperar com pessoas maravilhosas.

P – O senhor teria interesse em voltar para sua terra natal, atuando na Diocese de Guaxupé? Isso é possível? Como vê essa possibilidade?

R – Impossível não é… Seria uma alegria, mas definitivamente não dá para prever. A vida do padre depende do Bispo, que até pode enviar para uma missão em outra Diocese. Já o Bispo é nomeado pelo Bispo de Roma (Papa Francisco) para qualquer lugar do mundo!!!

P – Ao fazer o anúncio da nomeação, o Arcebispo Orani João Tempesta informou que ela ocorre num momento de mudança de paradigma com o covid – 19. Como será essa mudança em relação ao trabalho da Igreja?

R – A situação que vivemos com a pandemia do coronavírus certamente terá consequências marcantes, não só para a Igreja, mas para o mundo inteiro. Muitos valores de solidariedade e fraternidade estão sendo redescobertos, e esperamos que se mantenham em alta depois que tudo isso passar.

P – Alguns filósofos preveem um período de grande alegria e felicidade para a humanidade logo após a pandemia do novo coronavírus. O senhor concorda com essa tese? Por que?

R – Muita coisa foi “sufocada” dentro de nós. Arrisco dizer que teremos uma certa euforia, convivendo com outros sentimentos, como a tristeza pelos que partiram e nem puderam ser sepultados com as devidas homenagens, a preocupação com os que perderam o emprego etc. A única certeza que temos é que os desafios serão grandes.

Um acontecimento não planejado nem desejado pode ter como consequência algo de positivo e duradouro

P – Ainda segundo essas inúmeras análises sobre essa pandemia e seus reflexos na sociedade, há quase uma unanimidade crítica à falta alinhamento de discursos entre as esferas governamentais e até das forças representativas da sociedade. Como a Igreja poderia participar na tarefa desse realinhamento?

R – O papel da Igreja não é fazer política partidária, mas viver e anunciar o Evangelho, e deste mesmo Evangelho encontrar luzes para propor à sociedade em cada momento. Dentre os valores evangélicos, a vida está em primeiro lugar, bem como o diálogo, o encontro, a harmonia. É uma busca constante de todos os homens e mulheres de boa vontade, que costumam ouvir e até seguir, em alguma medida, a palavra da Igreja.

P – Como a Igreja Católica está se preparando para esses novos tempos pós pandemia?

R – Este é um momento de reflexão para todos e também para a Igreja. Silenciar, meditar um pouco, olhar para dentro de si para (re)descobrir valores, tudo isso vai gerar adaptações. Um dos pontos onde tem havido um desenvolvimento interessante é com relação às mídias digitais, uma ferramenta importante para diversos setores da sociedade, que a Igreja tem empregado largamente também.

P – Temos notado nos últimos meses, manifestações intensas de solidariedade entre os povos. Como a Igreja pode atuar para que essa situação não seja passageira, criando vínculos permanentes em nossa sociedade?

R – A Igreja pode atuar na conscientização, ajudando a perceber como um acontecimento não planejado nem desejado pode ter como consequência algo de positivo e duradouro. Santo Agostinho costumava dizer: “do mal que ele permite, mas não deseja, Deus sempre pode tirar algo de bom”.

P – Qual a mensagem que o senhor deixaria para seus conterrâneos?

R – Agradeço a oportunidade de me dirigir a vocês, querido povo de Passos. Na gênese da nossa identidade está o Senhor Bom Jesus, que nos recorda esse Deus que caminha conosco, nas alegrias mas sobretudo nas tribulações. Possamos permitir que sua graça atue em nós, iluminando nossos corações, de modo que realizemos a vocação para a qual fomos chamados: a fraternidade humana aqui na terra e a bem aventurança futura nos céus. Muito obrigado!