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A trajetória de vida de Tabata

23 de julho de 2020

Tabata Amaral passou a quarentena toda com a família, quando finalizou o livro. / Foto: Divulgação

A pandemia fez Tabata Amaral ‘parar’ em casa e finalizar seu livro “Nosso Lugar” – o caminho que me levou à luta por mais mulheres na política, que ela lançou virtualmente esta semana pela Companhia das Letras. Ficou com calos nos dedos de tanto autografar… dois mil livros. Entre os exemplares, um para o namorado, o também deputado federal João Campos, a sogra Renata Campos – viúva de Eduardo Campos – e Anitta e Sandy. “Sou apaixonada pelas duas cantoras. O quanto que me questionam por isso é bizarro! São mulheres inspiradoras”, afirma.

Na contracapa, Steven Levitsky, coautor de Como as Democracias Morrem, escreveu que nesses 20 anos que está em Harvard, Tabata é “a mais talentosa de todos” alunos que passaram por ele.
Aos 26 anos, a deputada federal diz que terminará seu mandato. No futuro, pensa em ser prefeita de São Paulo? “Se um dia abrir uma possibilidade, essa missão me honraria muito, mas não é decisão pessoal nem solitária”. A jovem parlamentar conta que até hoje enfrenta preconceitos diversos na Câmara. Mas canaliza suas reações no seu projeto Vamos Juntas, que estreia este ano lançando 51 mulheres a prefeita e vereadora em cinco regiões diferentes do País, nas eleições de novembro.

Elas estão sendo assediadas como eu nunca fui na minha campanha. Chegam a mandar nudes pra elas!”. A própria Tabata sofre ataques, inclusive ameaças de morte, e é vítima das fake news – “a maioria parte de apoiadores de Bolsonaro”. Embora seja também ‘atacada’ pela esquerda. Chegou ao dado a partir de monitoramentos de suas redes sociais.

Mais de cem vezes me chamaram de puta, 1,7 mil de menininha. Vimos o quanto que comentam minha aparência, tom de voz e meu batom. Tudo isso é o machismo estrutural. E aí não importa teu currículo”.

Até hoje, lembra, precisa “defender a verdade”: não é bancada pelo mega investidor George Soros (sequer o conhece). Ela estudou em Harvard com bolsa de estudos da própria universidade e na metade do curso teve empréstimo da Fundação Estudar, criada por Jorge Paulo Lemann.
Tabata passou a quarentena toda com a mãe, Reni, e o irmão Allan, na Vila Missionária, na periferia paulista, onde finalizou o livro “na laje de casa”. Para a mãe, que não gosta de ler, Tabata leu todas as páginas em voz alta. Ficou sem voz no fim do Dia das Mães. Reni fez sugestões acatadas pela filha. “É a história dela e do meu pai também… Nos emocionamos muito”.

No livro, a deputada conta que quando pequena, marcava num calendário os raros dias em que o pai, alcoólatra, estava sóbrio. E também como descobriu que ele não era seu pai biológico.

Entretanto, se identifica com ele. “Ele era brilhante, o Brasil perdeu um grande cientista ou político”. Olionaldo Pontes foi cobrador de ônibus.

“Não acredito no mito de que o Brasil é meritocrático. Como é que posso dizer que ‘quem quer consegue’ e ver um cara feito meu pai morrer por causa de drogas aos 39 anos? Tabata tinha 14 anos. E agora, 12 anos depois, registrando sua história de vida em livro – e muitas sessões de terapia – “é que entendi o quanto que o direito de sonhar é negado às pessoas”.