Destaques Opinião

A Sétima Arte

POR LUIZ GONZAGA FENELON NEGRINHO

21 de dezembro de 2020

Não nego a ninguém que sou apaixonado por cinema. Quando bem produzido, bom enredo, boa direção, bons atores, no descompasso do tempo, é claro, sou capaz de assistir ao mesmo filme outras vezes. Como no caso da audição de músicas, releituras de bons autores, e assim por diante. O que pode ser um clássico para uns, pode não ser para outros. Para mim, clássico ou não, se gosto, é o que basta.

Produções como “Casablanca”, “A Lista de Schindler”, “O Poderoso Chefão”, “Cantando na Chuva”, “Amor Sublime Amor”, “Lawrence da Arábia”, “Ben-Hur”, “Os Miseráveis”, “Os Dez Mandamentos” são considerados clássicos pela crítica. O clássico Gandhi (1983), como estrela Ben Kingsley e direção de Richard Attenborough é um fenômeno de crítica e bilheteria. No que diz respeito a “Perfume de Mulher”, “O Irlandês”, “Uma Linda Mulher”, “Por Lugares Incríveis”, “Um Sonho de Liberdade” e “Sempre ao Seu Lado” (para quem se propõe a cachoeira de prantos), por amostragem, são filmes recomendáveis.

Sei que não estou sozinho nessa. Um bom filme é o meu neon. Na química da explicação, neon pertence à categoria de gases nobres. Quando se admite o estado de incandescência. Emissão de radiação eletromagnética, corpo em alta temperatura. Faz sentido e com posição de comando.

Na verdade o cinema tem muito disso e até um pouco mais. Magia de que não abro mão nas horas de folga. Momentos em que preciso fugir para outro lugar. Pasárgada fica mais longe. Não por sonhos criativos de Manuel Bandeira. Antiga capital do Império Aquemênida, hoje situada na Republica Islâmica do Irã. Lá não há como tomar banhos de mar. Não há acesso ao Oceano.

Quando me ligo e me estaciono em obra cinematográfica de apreciável tempero, esqueço de mim mesmo e das coisas do mundo. Não sou preso a clássicos, os merecedores de críticas de angustiantes e exigentes paladares do fino que satisfaz. Sou assim: começo a assistir, agradou, toco adiante, e pronto.

Também tenho o hábito – quando a situação permite – voltar a ver parte ou o todo daquilo a que assisto. Não sei se por mania ou se por aprimoramento artístico. Comum de dois, no gênero imposto, o canal de que faço uso. Por que digo isso. Anda acontecendo tanta coisa desagradável no mundo real. Perceptível a olhos tristes e miúdos. Seja no noticiário geral, seja em volta da gente. Muita gente perdida. Sem saber o que fazer e como fazer. Há quem pense passar-se dessa para outra dimensão, seja a rogo ou a fórceps. Deus dê o livramento.

Nessa semana, três casos de convulsão psicológica aguda. Crueza do cotidiano. Pessoas descrentes, desiludidas, angustiadas, objetivando novos rumos pelos descaminhos do desencanto existencial. Eu me desmancho em apelo à vida, pelo bom convívio com o mestre Arlindo Gomes Ribeiro, analista de proa. E a tais lanço temperança.

Não sei se certo ou errado, faço por refugiar-me em algum filme. Em histórias nem sempre eloquentes. Bem sei, situações fictícias. Fazem-me parecer mais importante do que julgo ser ou menos babaca e sacana que imaginam que eu seja. Enfim, ofertam-me oportunidade a que chegue a um patamar razoável. No fim das contas, e pensando bem, as tribulações não são tão perversas assim.

E acontece, na frequência. Em dias cansativos, desses em que a gente pensa encher a cara em estupidificantes porres ou mandar tudo às favas, um cineminha pega bem. A finalidade do filme na verdade é essa: entretenimento. Longe de permitir que escaneiem meu cérebro em tempo real, como fizera o professor de psicologia na universidade de Princeton, Uri Hasson. Durante a exibição de um filme, avaliou duas pessoas. Queria saber o que uma pessoa sente em relação à outra em determinadas cenas. Para cada tipo de trama, uma reação diferente. Filmes de romance, ação, comédia ou terror. A técnica utilizada chama-se “Neurocinematics”.

Quando sou mais pela técnica da psicóloga Birgit Wolz. Seu trabalho consiste na catalogação de sentimentos para cada tipo de enredo. O objetivo é “avaliar a transmissão de ideias pelas emoções, a fim de neutralizar o instinto de repressão e desencadear uma liberação emocional no corpo do espectador”. (Wolz é autora do livro “Emotion Picture Magic”). No que até certo ponto faz sentido. Segundo ela, “ao provocar emoções, assistir filmes pode abrir portas que, de outra forma, poderiam permanecer fechadas”.

Bem verdade, existem filmes e filmes. Às vezes nem tão bons assim. Teimoso para uns, turrão para outros, começo a ver um filme, de repente, vou adiante. Quero ver o fim da trama. Dizem que sou cineclubista. Para outros, sou cinéfilo. O cineclubismo surgiu no ano de 1920, na França. Já no Brasil fez dublê com o Fordinho de Bigode, em 1929. Talvez cinéfilo fique melhor.

Comum é balançar-me em sonhos. Ora para acordar-me para a realidade de que existem situações piores que a minha. Desta forma me encerro de tal ordem na temática, que me esqueço das agruras de um tempo que continua produzindo cenas tão ou mais fortes e picantes como as exibidas em tela, na tela.

Querem chamar a isso de fuga, não passem vontade. Penso que não. Uma estreita ligação com a arte cinematográfica. Como tão bem faz Itamar Bonfim, em Passos. Absoluto na área, porquanto detém o maior acervo videográfico da história de Passos e de outros rincões. No considerável, de todos os tempos. A ele os merecidos e homenageados respeitos.

O termo “sétima arte” é muito usado para designar o cinema. Estabelecido por Ricciotto Canudo, quando do “Manifesto das Setes Artes”, em 1912 e publicado em 1923. São pontos controvertidos e as explicações se concentram no mistério de espetáculos. E a vida, silenciosa e estreitamente, sem que nos apercebamos, se mistura na magia do inefável. Do indizível. Do extraordinário. O encantamento por si só.

O cinema se desenvolveu em meio a crises. Profundas crises. Em tudo, por tudo, costuma ser assim. Crises fazem crescer. Normal é o público ver, notar, anotar e sentir os personagens na cinegrafia. O ideal – no sentir de muitos – é que o público se veja e se aglutine no centro das atenções, como partícipes das tramas a ele – público, – impostas e condicionadas. “Vivre le cinéma!

PS: “In memoriam”, para Umberto Campos Filho (Beto Campos), personagem real de um filme, bem poderia ser regiamente aceito e condecorado, caso ele próprio o permitisse. Ainda assim, muitas saudades.

Luiz Gonzaga Fenelon Negrinho, advogado trabalhista e previdenciário, com escritório em Formiga, escreve os
domingos nesta coluna.