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A santa trindade do capitalismo e a pandemia

POR ESDRAS AZARIAS DE CAMPOS

12 de dezembro de 2020

Se o capitalismo fosse religião, para muitos o é, teria a sua santíssima trindade formada por Bolsa de Valores, Mercado e Bancos, ainda de quebra um deus, o Dinheiro. Não necessariamente nesta ordem. Sem dúvida, não se faz mais nada neste mundo senão ficar atento e obedecer tudo que emana destas três instituições financeiras, que regula não só a vida social de cada cidadão, mas de todos os governos e sistemas econômicos de todos os países do mundo.

Nenhum governo, nenhum sistema econômico, nenhuma empresa por menor ou maior que seja, passa um dia ou às vezes uma hora, sem consultar os índices das bolsas de valores mais importantes do mercado internacional. Hoje, as Bolsas são verdadeiras catedrais do dinheiro e dos negócios sediadas nos mais importantes centros metropolitanos do mundo. As Bolsas de New York, Nasdaq, Tokyo, Euronext, Shanghai, Shenzhen Londres, Hong Kong e Singapura têm mais importância no mundo até do que a ONU.

Ninguém dá pelota para ONU e seus diversos órgãos, haja vista a OMS – Organização Mundial da Saúde, por mais que tenta orientar o mundo sobre os cuidados para o combate à pandemia do Coronavírus, ver seus esforços baldados até por países cujos governos são negacionistas de que tal doença exista. Já as Bolsas, qualquer uma, seja lá dos confins da Ásia ou as daqui mesmo do Brasil são os oráculos de onde emanam ordenamento e diretrizes para a riqueza mundial correr como rios na mesma direção, ou seja, a dos magnatas e dos países que já são os mais ricos e mais poderosos do mundo.

O mercado é o caminho a verdade e a vida do capitalismo. O pai do liberalismo econômico, Adam Smith (1723-1790), em sua obra clássica “A riqueza das nações” (1776), nos capítulos que compõe “A mão invisível do mercado”, o autor investiga a natureza das trocas comerciais e financeiras e propõe diretrizes para estimular o desenvolvimento das nações por meio do enriquecimento individual dos cidadãos. Tal teoria já foi para o brejo, a mão nada invisível do mercado criou mesmo foram diretrizes para concentração de riquezas em poucas mãos e de resto em poucos países, não mais que uns trinta entre os quase duzentos existentes.

O panorama econômico mundial é desolador quanto se toca no tema distribuição de renda e de riquezas. Basta uma rápida observação nos cinco continentes para verificar como a lista de países desenvolvidos é restrita. Aqui mesma na América, a do Norte, Central e do Sul, temos somente duas nações desenvolvidas: o Canadá e os EUA. Do Rio Grande que faz a fronteira que separa o México dos EUA para baixo só têm países subdesenvolvidos ou emergentes como é o caso do Brasil o que não é grande coisa porque repete o pecado capital principal do capitalismo que é a concentração de rendas e riquezas. E apresenta cada vez mais um quadro social de pobreza caminhando celeremente para a extrema pobreza de milhões de brasileiros.

Todos nós sabemos que a pandemia que se alastrou pelo mundo é uma desgraça e se dependesse das nossas vontades não deveria estar acontecendo, mas enfim, não depende, então podemos “parodiar” aquela velha máxima: “há males que vêm para mais males” é o que está acontecendo aqui no Brasil e em todo mundo. Não estamos aproveitando essa tragédia pandêmica para retirar lições de solidariedade, prudência para evitar mal maior, direcionar o mundo para melhor e ensejar propostas de mudanças na ordem social e econômica de alcance universal.

Está aí a “guerra comercial das vacinas” para mostrar que no capitalismo tudo vira mercadoria visando lucro o que faz o mercado ficar acima dos valores humanistas e então cada um por si e o dinheiro em poucas mãos determinando quem tem a primazia à imunização desta praga. Os países mais ricos praticamente já compraram todas as vacinas em condições de aplicação bem como os estoques de agulhas e seringas. Só o Canadá adquiriu lotes de vacina contra Covid-19 suficiente para dar dez doses, (10 mesmo) a cada habitante da população.

Egoísmo é pouco para se dizer! E enquanto isto os países subdesenvolvidos ou em cujos governos menosprezam a questão da pandemia só resta esperar para o pior. No caso do nosso Brasil, pagará mais caro ainda do que já sofreu com as 180 mil mortes e os já quase sete milhões de infectados até o momento. E o Bolsonaro e seu bobo da corte, o general Pazuello, especializado em logística, mas não em saúde pública, ainda batendo cabeça para elaborar um plano de vacinação para o país, sem nem saber que vacina comprar. A história os julgarão e com certeza os condenarão.

ESDRAS AZARIAS DE CAMPOS é Professor de História