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A saga do Aurélio e seu dicionário

7 de janeiro de 2021

Cézar Motta relembra batalha judicial travada por Aurélio Buarque de Holanda Ferreira e seu colaborador. / Foto: Divulgação

Um caçador de borboletas, em busca de palavras que voavam – assim, de forma poética, se autodefinia Aurélio Buarque de Holanda Ferreira (1910-1989), cujo dicionário brasileiro organizado por ele tornou-se um fenômeno editorial, com mais de 15 milhões de exemplares vendidos em pouco mais de 25 anos desde que foi lançado, em 1975, pela Nova Fronteira. Um sucesso tão avassalador que “Aurélio” se tornou sinônimo popular de dicionário, ainda que tal verbete não conste em seu trabalho por puro pudor.

Tão brilhante trajetória, no entanto, encobre o turbulento período que marcou a pesquisa e a edição do dicionário, que tanto envolveu atrasos fenomenais como disputas judiciais – intrigas que o jornalista Cezar Motta conta no recém lançado Por Trás das Palavras (Máquina de Livros).

Apesar de vários personagens, a história se concentra na disputa entre dois: de um lado, o próprio Aurélio, profundo conhecedor das palavras e seus significados, por isso chamado de Mestre, mas, ao mesmo tempo, um homem desorganizado, descumpridor de prazos e um tanto desleixado; do outro, Joaquim Campelo, colaborador de Aurélio a partir dos anos 1950, imprescindível em conseguir que o dicionário fosse editado, seja no trabalho de pesquisa, seja na luta para conseguir uma editora, e que, nos últimos anos, travou uma batalha jurídica para figurar na lista de colaboradores e, com isso, fazer jus aos direitos autorais – Aurélio considerava que a experiência e os conhecimentos que passava ao auxiliar eram pagamento suficiente.

O sonho que se transformou no Novo Dicionário da Língua Portuguesa começou nos anos 1950, quando Aurélio assumiu a função de principal revisor do Pequeno Dicionário Brasileiro da Língua Portuguesa, editado pela Civilização Brasileira.

O desejo do Aurélio, desde que deu aulas na Universidade Autônoma do México, nos anos 50, era elaborar um dicionário como o norte-americano Webster e o inglês Oxford, dois monumentos”, conta Motta. “Um dicionário completo, que abarcasse do português mais erudito àquele falado nos recantos mais longínquos do País e nas favelas urbanas. Inclusive com palavrões, ou ‘calão’, como dizia, e com gírias.

O projeto era audacioso e exigiria um grande investimento de qualquer editora. Até que surgiram empresários interessados, mas o não cumprimento de prazos provocado pela desorganização de Aurélio logo os afastava.

Disciplinado, Campelo estranhava os hábitos de Aurélio, que acordava às 10 ou 11 horas, era desorganizado e caótico. O Mestre, segundo ele, era um pesquisador brilhante, leitor compulsivo, mas preguiçoso à sua maneira; fazia anotações de forma desconexa, acumulava papéis com novas palavras e definições nos bolsos, baús e gavetas”, escreve Motta.

Com isso, o trabalho da equipe sofria constantes interrupções, quando o investidor desistia – e, quando surgia um novo, Aurélio insistia em acrescentar mais vocábulos aos já inicialmente previstos. Até que Carlos Lacerda, proprietário da Nova Fronteira, aceitou o desafio e, em março de 1975, o dicionário chegou às livrarias: 18 mil exemplares com capa amarela e 1.536 páginas, com um total de 120 mil verbetes.

O dicionário teve como grande novidade a incorporação de palavras novíssimas, surgidas durante o movimento hippie do final dos anos 60, toda a terminologia usada pelos tecnocratas da economia a partir do governo Castello Branco, gírias novas, e até a definição de marcas de produto que passaram a representar o próprio produto, como gillette para lâminas de barbear”, conta Motta.