Destaques Dia a Dia

A Rocha

POR ADELMO SOARES LEONEL

19 de setembro de 2020

Recordando. Vó Simília faria 120 anos agora em 2018. Há 18 anos escrevi este texto. A tristeza baixou de vez neste princípio de semana. Um vazio do tamanho do mundo de repente, num instantinho, tomou conta. Ela viveu 102 anos, passou por três séculos, se aquietou em sua casinha no Piumhi e a gente pensou, de tanta certeza do encontro, que era eterna. Qual rochedo fincado altivo na beira do mar, imune ao vento, desafiando a batida constante das águas, referência e guia, o mais alto e antigo de todos, testemunha do aparecer de outros e do desaparecer de muitos, se desvaneceu na madrugada de domingo para segunda. Não ruiu, não desabou, não fez vítimas nem ganhou espaço no noticiário… apenas parou de respirar e virou sereno a se espalhar no coração de quantos abençoou em vida e conquistou com sabedoria e bondade.

Morreu de que? A pergunta comum a nós comuns, de curiosos comuns não encontrava a resposta lógica e também comum, encontradiça em todos os velórios por aí. Só morreu. Pode ter sido por reconhecer a missão cumprida.
Por achar que estava incomodando. Lucidez não faltava. Ou até mesmo de felicidade colhendo o amor esparramado na existência secular, filhos e netos em volta, a filha adotiva em mil afetos e atenções. Não houve doença, distúrbio letal, falência de órgãos, trauma. Ela era diferente, acima dessas coisinhas insignificantes que podem acabar com nossas insignificâncias. Saiu de cena como no final das novelas que tanto gostava, vitoriosa, reconhecida na maior estrela.

A vovó Simília nem precisou fechar os olhos já cerrados, nem arfar o derradeiro suspiro, sem um gemido. Amparada na legião de serafins designados diretamente pelo Chefe, subiu no mérito dos justos em jorros de luz. Pediu e ganhou (quem poderia negar?) que a orquestra celestial trocasse a pompa das tubas e trompas, o harpejo das cítaras pelos acordes simples da viola mais caipira, ornada por fitas coloridas dos tocadores de Companhias dos Santos Reis.

Até o pouso de seu velho corpo foi emoldurado por um céu azulado lá em cima, o tempo refrescado por passageira chuva, a invasão de passarinhos em regresso aos ninhos, nuvens amareladas no solzinho da tarde coroando a imponência da serra da Pimenta, lá longe, as primeiras sombras invadindo o casario do Piumhi, lá em baixo.

Beleza e paz. A família, os amigos em volta do sepultamento, algumas poucas e saudáveis lágrimas mais de reconhecimento, agradecidas pelo presente que Deus levava. Acho que estranharam um sorriso, quase riso, quando me veio na imaginação a possibilidade do encontro: é que naquele túmulo, vinte anos atrás, meu sistemático, nervoso e impaciente avô Antõe Leonel fôra encerrado. Não é que eu pude antever o tamanho da bronca?
– Com efeito, Simília! Precisava demorar tanto e me fazer esperar esse tempo todo?