Destaques Dia a Dia

A pandemia e a fênix

POR ADELMO SOARES

23 de janeiro de 2021

Quem não se lembra dosserviços de alto-falantes, que enchiam nossas praças na hora de andar atrás dos olhares das meinas? Os sucessos dos discos desfilavam, anunciados por locutores garbosos e formais, em meio a um oferecimento “com muito amor e carinho, alguém vestido de verde oferece a alguém de calças listradas boca-de-sino e camisa vermelha!”, “alguém, que você sabe quem, lhe dedica esta música, esperando-a na porta da estação às onze e meia!”, “pelo seu aniversário transcorrido nesta data!”, “para seu próprio deleite!”, etc. etc.

De vez em quando, ali pelo início da noitinha, vou matar saudades dos bons tempos de rapaz, na praça do São Benedito, com um algodão doce ou uma pipoquinha pro caçula, embalado por um alto-falante ranheta, meio fanhoso (exatamente igual às cornetas de antigamente). Lindo, lindo!

Mais supimpa ainda são os discos rodados. Os mais recentes, provavelmente, um long-play hi-fi ou uma bolacha de 78 rotações rodam com alguma dificuldade, tal o seu pêso, dando esporádicas desafinadas chegando, às vezes, até engrossar a voz da Linda Batista. O chiado natural se deve aos riscos pelo excesso de uso e ao manuseio brusco de algum operador de som indelicado, mas caracteriza bem os equipamentos que nos faziam apaixonar nos pores-de-sol calientes e coloridos da adolescência.

Pode-se ouvir ainda uma programação autêntica da velha Mayrink Veiga ou Nacional em recentes lançamentos (de então): Volta do Boêmio, nos graves do Nelsão Gonçalves, a potência do Vicente Celestino tenorando a Patativa ou O Ébrio, os gorjeios escabujantes da Ângela Maria na Ave Maria do Morro, até raridades de Francisco Alves, Ciro Monteiro e Carmem Miranda.

Diferentemente dos vizinhos que fecham os vitrôs para o barulho não atrapalhar as novelas, adoro me refestelar nos bancos duros de “marmore”, cerrar os olhos, espichar as pernas e viajar ao som do Valdick Soriano tentando cantar Eu Não Sou Cachorro Não, o Amado Batista assistindo a morte da amada pelas vidraças da sala de cirurgia “sofrendo a sorrir” (ê mundão!!!) e outros menos cotados, mas de Ibope garantido… na zona.

Na minha querida Capitólio, havia (tinha que haver, é claro) também o seu serviço de alto-falante capitaneado pelo saudoso Zé Límirio, capaz de estourar qualquer esquistômetro num exame de cordas vocais ou nossos tímpanos. Se constituia no elo de ligação entre o mundo e as plagas capitolinas, transmitindo as últimas internacionais, os nascimentos e óbitos locais além de um repertório musical altamente versátil, agradando em cheio o espírito roceiro do nosso povo e os seresteiros de plantão. O Luiz do Zé Limírio herdou do pai o serviço e o gosto pela coisa, fundando o LunoSom. Poeta do microfone, ele empostava a voz e desfolhava sonetos de amor, provocando suspiros nas moçoilas e esperança das encalhadas, emoldurados pelo cicio dos violinos chorosos.

O romantismo transbordava, o coração apertadinho pela timidez de quem não conseguia expor os sentimentos, revelados nas lágrimas furtivas, mal disfarçadas, enxugadas, entre fungares de nariz, pelas costas da mão. A serra da Mata-Égua se encarregava de repetir os ecos das cantigas nostálgicas. Sua secção de Achados e Perdidos era uma delícia e a causa de manter atentos os ouvintes, na solidariedade típica do caráter mineiro.

– Encontra-se em nossos estúdios um par de dentaduras um pouco gastas mas em bom estado de conservação, portando uma listra de ouro na parte anterior das presas.

E o lerdo banguela deveria procurá-la (se tivesse dado falta) para devolução pois, do contrário, ela seria doada a algum carente idoso da Vila Vicentina.  Certa ocasião, o Luiz empolou a voz atilada e soltou:

– Perrrdeu-se (naquela erre paulista onde a língua vibra no céu da boca que nem chocalho de cascavel) às margens da ensecadeira a senhorita Gilda Teodoro…

Houve uma pausa profunda, causando mal estar em todo mundo e o Levi, assustado, já procurava ajuntar os filhos machos e a garrucha para acertar as contas e os cornos do tarado e do locutor, quando o rebento do Zé Limírio conseguiu finalmente completar o texto que se embaralhara no meio da papelada:

-… um par de brincos, com detalhes em brilhantes.

Pede-se a quem o encontrou que o devolva e será bem gratificado. Ufa!

Nervoso com a rateada, perdeu-se também ele:

– Programação cinematográfica……

Cadê o papel?……

Hoje não haverá sessão pois o ônibus de Piumhi enguiçou na estrada, impossibilitando a chegada do filme.