Destaques Opinião

A nova velha política

POR ESDRAS AZARIAS DE CAMPOS

3 de outubro de 2020

Não existe nada de novo na política, pelo menos nos últimos três séculos. De vez em quando fazem uma mexida no processo político a qual chamam de novidade, mas na verdade para continuar tudo como dantes. Explico: política é a mais antiga das atividades humanas, neste quesito não perde nem para aquela outra dita a mais antiga das profissões. Daí que fazer política é praticar algo extremamente arcaico, repetitivo e lúdico, mas tão necessária quanto respirar. É consenso histórico que o surgimento do conceito política originou-se na Grécia Antiga com a Polis (cidade-estado). Sem dúvida que o processo político tal qual vivenciamos atualmente é o mesmo que vivenciaram os gregos antigos e assim sucessivamente em todas as etapas da história humana. A velha pratica política é a mesma hoje igual ao dos tempos antigos.

Somente quando o formato social muda, aí sim tem a possibilidade de surgir algo de novo ou inédito no processo político. Só que tais mudanças são raras, geralmente acometidas em séculos ou em milênios. Só para se ter uma pálida ideia desse fenômeno, veja o caso da democracia que surgiu na Magna Grécia século V a.C. Pois então, foi uma grande mudança no comportamento social e político dos gregos e que serviu de paradigma para toda a humanidade. Isto, apesar da democracia grega se restringir à classe alta, a elite ateniense conhecida como cidadãos. Conceito ultrapassado que só veio a sofrer mudanças 2.400 anos depois, ou seja, no século XVIII com os filósofos enciclopedistas franceses. Do século XVIII até ao atual XXI, nada de novo sob o sol da política.

A política começou de forma simples nas comunas primitivas (daí a origem do termo comunismo) onde o poder era exercido em geral por conselho formado pelos membros mais velhos, os senis, dando origem do termo senado. Daí, alguns séculos depois vieram espaçadamente a teocracia, monarquia, a ditadura e a república. A finalidade precípua da política: tentar harmonizar a sociedade ou amenizar os conflitos de classes sociais e até entre os indivíduos.

A democracia em tese seria o melhor dos sistemas a alcançar tal objetivo devido ao seu significado: governo do povo! Mas infelizmente, o sistema democrático apresenta falhas ou pontos cegos que inviabilizam a plena harmonia social. Até mesmo nas nações mais desenvolvidas e democráticas se percebe claramente que os conflitos e desigualdades sociais são gritantes e mal resolvidos, até pelo contrário, não cessaram e até se aprofundaram. Daí, o perigo da distopia representada pela crença em governos autoritários ou autocráticos. Este deletério fenômeno acompanha o processo político de tempos em tempos. Lá no passado emperrava o processo do desenvolvimento político/social e no presente retorna com muita força colocando em xeque as poucas conquistas democráticas, principalmente nos países do Terceiro Mundo. Caso do Brasil.

A elite atual não faz muita questão da democracia, até porque não depende dela para manutenção de seus privilégios e riquezas. O problema da democracia está mais no povo para o qual ela existe, devido a uma deformação lastimável na consciência política coletiva porque o povo adora ser iludido. Algo bem sintomático do povo brasileiro! Daí é preciso alertar o povo brasileiro citando Platão, “O maior castigo para aqueles que não se interessam por política é que serão governados pelos que se interessam”. E no Brasil está mais que provado por toda a sua história, os que se interessam e, portanto governam, não são interessados em soluções para os problemas do povo e quando são é de forma demagógica. Portanto, só existe uma saída, aproveitar o momento democrático ainda que confuso e se politizar.

Não há em 520 anos da nossa história um período por mais curto que seja, politicamente satisfatório para o povo. A política nova pode se tornar realidade? O protagonismo histórico popular só acontece quando o povo em sua maioria adquire vontade e lucidez política para formar os seus quadros realmente representativos em todos os poderes. E quando a luta entre utopia versus distopia se perde no horizonte? Neste caso recorro a citação de Bertolt Brecht: “Que continuemos a nos omitir da política é tudo o que os malfeitores da vida pública mais querem”. E como tem malfeitores nos poderes deste país, ufa!

ESDRAS AZARIAS DE CAMPOS é Professor de História