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A morte inimaginável

POR ALEXANDRE MARINO

11 de dezembro de 2020

Eu estava na porta do restaurante da Faculdade de Direito da Universidade Federal, em Belo Horizonte, quando recebi uma das notícias mais impactantes de minha vida. Era 9 de dezembro de 1980, por volta de meio-dia, e esperava minha namorada para almoçar. O restaurante ficava na Praça Rio Branco, pertinho da Rua Goiás, onde funcionavam a redação e as oficinas dos jornais Estado de Minas e Diário da Tarde. Este, que acabava de sair das rotativas, trazia a informação que seria assunto dominante nas próximas horas e próximos dias.

Internet, telefone celular e redes sociais eram coisas inimagináveis naqueles tempos. A notícia veio na voz de um jornaleiro que atravessava a praça gritando a manchete impressa em letras garrafais: “Mataram John Lennon”.
O impacto daquelas palavras me fez memorizar a cena para sempre. Incrédulo, comprei o jornal e li a notícia que começava a circular com estardalhaço.

John Lennon fora assassinado com cinco tiros, em Nova York, na porta do Edifício Dakota, onde morava, por volta de 11 horas da noite do dia 8. No Brasil, era uma hora da manhã, quando os jornais matutinos que circulariam no dia seguinte já começavam a ser impressos. Só os vespertinos noticiariam. É bem possível que os jovens daquela época, fãs dos Beatles, se lembrem do que faziam ao receber a notícia, por jornal, rádio, televisão, telefone, uma conversa com um amigo ou simplesmente ouvida por acaso em lugar público. O assassinato de uma celebridade era motivo de comoção. Mas John Lennon? Quem imaginaria que um dos Beatles seria assassinado?

Artista revolucionário, gênio da música, pacifista, Lennon passou os últimos anos de sua vida pregando a paz, o amor, o fim de todas as guerras, e foi morto pela irracionalidade que tanto combateu. O autor dos tiros tinha 25 anos, era fã de Lennon, e pediu-lhe um autógrafo pouco antes de fazer os disparos. Queria ser famoso como ele.
Eu não estaria exagerando se dissesse que ali, na porta do restaurante da Faculdade de Direito, comecei a perder a fé na humanidade.

Foi a sensação que tive ao ler a reportagem. A música de Lennon, durante e depois dos Beatles, refletia as transformações pelas quais o mundo passou nos anos 1960 e 1970, e aquelas que os jovens, os revolucionários, os rebeldes com ou sem causa esperavam e pelas quais lutavam. O rock, naquele tempo, era um manifesto, para quem criava e para quem ouvia; veiculava a insatisfação da juventude com um mundo que não era o seu.

Cerca de oito anos antes do assassinato, eu morava em Passos e conversava muito sobre música, fosse MPB ou rock, com minha turma, e estávamos sempre correndo atrás das novidades. Um dia, o Iran Machado me perguntou: “Você sabia que o John Lennon vai lançar uma música chamada ‘Imagine’?” Ele pronunciou o nome assim como lemos, em bom português. Fiquei tentando imaginar o que John Lennon propunha que imaginássemos.

É, ainda hoje, uma canção revolucionária. Além de imaginar “toda a gente vivendo em paz” e dizer que “não sou o único sonhador”, Lennon propõe o fim da propriedade, das religiões, das fronteiras. Tudo isso que aliena os homens, os impede de refletir com liberdade e os atira uns contra os outros, tornando a paz um conceito utópico e um objetivo inatingível.

John Lennon tinha 40 anos quando morreu. Hoje, 40 anos depois, é lembrado como se estivesse vivo. Mas que lições a humanidade aprendeu com ele? O mundo está cada vez mais injusto e desigual, a insensibilidade dos governantes faz crescer a miséria, os conflitos se aprofundam, o terrorismo dispara, os países ricos fecham suas portas para fugitivos das guerras que se alastram.

No Brasil, país à margem do mundo, a desigualdade se acentua, a polícia mata crianças e adolescentes, grupos minoritários, como os indígenas e quilombolas, são oprimidos por uma política genocida, o presidente da República faz apologia das armas e da violência, cresce o ódio, a discriminação e o racismo. No mesmo dia em que se completaram 40 anos da morte de Lennon, completaram-se 1.000 dias do assassinato, ainda impune, da ex-vereadora Marielle Franco, que também lutava por justiça. A humanidade será um dia aquela que John Lennon sonhou? Difícil imaginar.

ALEXANDRE MARINO, escritor e jornalista em Brasília/DF, escreve quinzenalmente às sextas nesta coluna