Destaques Opinião

A melhor das escolas

6 de julho de 2020

Década de sessenta, efervescência da ditadura militar no Brasil, por imposição de minha mãe, vi-me na condição de aprendiz de tipógrafo no semanário passense O Sudoeste. Ao contrário dos tempos de hoje, sem prejuízo da boa educação, moral, bons costumes etc., naquele tempo se podia trabalhar aos doze anos. E se conservavam os dentes. Transpusesse a história para os dias de hoje, podia-se mexer com coisas erradas, vender e consumir drogas, estuprar, roubar, matar – trabalhar, não.

E quem transgride normas como essas, por não se enquadrar na maioridade penal, antes de atingir dezoito anos, são aplicadas medidas socioeducativas, através de legislação do Estatuto da Criança e do Adolescente. Eca! Universidade de proa para o crime. Ou estarei enganado?

Para os não iniciados, numa boa tradução, medidas socioeducativas são aquelas aplicadas pelo Juiz com finalidade pedagógica em indivíduos infanto-juvenis (maiores de doze e menores de dezoito, os chamados inimputáveis) que praticarem crimes ou contravenção penal.

Com o perdão do anacoluto (frases quebradas), dizer que gostava do que fazia, ocupando-me de objetos que de longe não formavam meu objeto de desejo, estaria faltando com a verdade: componedores com os quais se ajustavam caracteres tipográficos, fontes e equipamentos, cheiro asqueroso da tinta, pós e poeiras insuportáveis de caixa de tipos móveis de metal… Meu Deus! Uma loucura. Visão atmosférica do reino infernal.

Tinha que obedecer minha mãe. Fazer o quê. Ali, talvez, a sanção imposta pelo pecado não cometido. E o pior: a austera pressão física e psicológica do diretor e responsável pelo noticioso, José Rodarte Pelegrino. Osso duro de roer.

Nada recebia pelos meus préstimos – no íntimo achava que algo de útil e prestável fizesse, ainda que meio cá meio lá. E assim entre o nada e alguma coisa, pensava até mesmo nas moedinhas que sobravam quando, a mando superior, ia colocar jornais e correspondência no correio. Na volta, matutava: quem sabe, no absurdo da sorte, as danadinhas não vinham parar no meu bolso como forma compensatória de proveitosa dádiva. Mas que nada.

No duro da cebolinha, mesmo com fama de milionário, não passava de um mão de vaca na inteireza vocabular. O homem era muquirana até a medula. Não abria mão sequer para breve saudação. E disso tinha conhecimento através da expressão “público e notório”. Aprendera ali, trabalhando, efeito pedagógico das oficinas gráficas.

Intolerável ouvir desaforos daquele que se me apresentava como lente e me punha a ler textos tipográficos de cabeça para baixo. E o fazia na frequência. Tormento de fazer dó a um rapazola com a cabeça voltada para sérios compromissos como o ter de bancar o ingresso da primeira sessão no Cine Alvorada aos sábados. Na época, os faroestes macarrônicos (westerns italianos) eram a coqueluche. Também a vaca preta na Sorveteria do Normélio – em frente ao cinema –, com namorada com quem mal conversava, longe de aventurar tocar-lhe a mão.

No comum de dias e vias da sorte, Pelegrino me lascava, na maior: “Você é pixote. Não tem que ganhar nada de mim. Pelo contrário, seus pais é que têm que me pagar”. Em lamúrias, repassadas as reprimendas em casa, minha mãe nada falava.

Do meu lado a reação não passava de paralisia catatônica. Sabia xingar – porém, não me cabia fazê-lo. Respeito falava alto. Formação rígida de lar de pais católicos e conduta irrepreensível por honra e graça da Escola Senhor Bom Jesus dos Passos (Educandário). Não se podia jamais faltar ao respeito por ação afrontosa sequer na linha do pensamento.

Depois de tanto tempo passado, percebo que dos cursos acadêmicos – do primário aos de nível superior –, a modesta passagem nas oficinas de José Pelegrino transformou-se no mais importante conjunto de aulas magnas e o melhor curso preparatório para a vida de que utilizei para vislumbrar melhor oportunidade e garantia de sobrevivência. Serviu-me muito para a idade das paixões, pelo que, em momento algum, faço por olvidar lições tão importantes ministradas por aparente algoz, dadas as preciosidades incutidas em proveitosos e amargos ensinamentos.

Lembrei-me de José Rodarte Pelegrino nesses dias. Talvez pela maneira austera de agir e se conduzir como homem que fazia de um singelo jornal, não levando ao pé da letra o significado da palavra – já que jornal designa “folha diária, meio de comunicação diário etc.”. Talvez pelo que disse, bem mais adiante, quando do fechamento de O Sudoeste. Sem a devida atenção, Pelegrino prognosticou que o jornalista Carlos Antônio Alonso Parreira, recém chegado de Brasília – no seu ideário jornalístico, em parceria com Maria das Graças Lemos, iria bem mais longe do que se podia imaginar. Foi o que estabeleceu em prognóstico o homem que conservou ao longo da vida rígidos princípios e valores éticos e morais.

Em verdade, acertou em cheio o jornalista Pelegrino. Não virou nome de rua à toa. Não me endereçou as moedinhas de troco para agradar um coração infante. Disso não cuidou. Coroou-me com boa educação profissional. Fez de sua rigidez de caráter e posicionamento de conduta a melhor forma de doutrinamento, cujo diploma maior e mais significativo, só veio por endereçamento certo e em domicílio muito tempo depois, através do edificador exemplo.

Foi exatamente através de suas palavras que a cidade de Passos passou a contar com um jornalismo sério, contundente, aplicado aos anseios dos destinos de um povo voltado para a prática da cidadania.

Assim deve ser. Em defesa e em favor do Estado Democrático de Direito, a Folha da Manhã vem cumprindo o seu papel, o de mantenedor de um trabalho isento e plural, através da seriedade de conduta – como se diz no bom jargão jornalístico –, “com o ar fresco da liberdade de imprensa e do pensamento”.

Não existe melhor forma de garantir a democracia e uma sociedade justa e igualitária do que participar dos compromissos reais da responsabilidade social. Fazendo isso é relevante e todos saem ganhando. E lendo um bom jornal, de caráter independente – seja impresso ou on-line (opto pelo primeiro) não deixa de ser uma boa pedida.

No que diz respeito ao jornalismo digital – este pode ser cooperativo, direto, o que possibilita a participação dos leitores na criação das matérias jornalísticas, com poder de influência, justificando, ainda mais, a efetividade democrática no seu mais alto sentido em favor das liberdades. Quando, em tempo, faz-se necessário registrar as quatro liberdades fundamentais de que os cidadãos devem se valer, o que certa feita apregoou o 32º presidente dos Estados Unidos, Franklin Delano Roosevelt (“in Four Freedoms Speech, aos 6 de janeiro de 1941, no famoso “Discurso das Quatro Liberdades”. Assim: a) liberdade de expressão; b) liberdade religiosa, c) liberdade de viver sem penúria (direito a um nível de vida adequado); e, d) liberdade de viver sem medo”.

LUIZ GONZAGA FENELON NEGRINHO, advogado trabalhista e previdenciário, com escritório em Formiga, escreve aos domingos nesta coluna.