Destaques Opinião

A literatura do nocaute

POR ALBERTO CALIXTO MATTAR FILHO

26 de novembro de 2020

Anos atrás publiquei aqui um artigo chamado “Coletânea de narrativas curtas”, que também incluí em meu livro em 2017. Referia-se a uma abordagem da obra “Os cem melhores contos brasileiros do século”, uma seleção das preferências do professor Ítalo Moriconi, que destaca muitos escritores brasileiros hábeis neste gênero durante o século XX.

A coetânea, um calhamaço de mais de 600 páginas, representa um verdadeiro passeio por nomes consagrados na literatura brasileira, num período que abrange o início do século XX e deságua nos anos 90. Integram a obra nomes consagrados como Machado de Assis Lima Barreto, Graciliano Ramos, Monteiro Lobato, Mário de Andrade, Carlos Drummond de Andrade, Érico Veríssimo, Fernando Sabino, Clarice Lispector, Lygia Fagundes Telles, Dalton Trevisan, João Ubaldo Ribeiro, Rubem Fonseca, além de vários outros de menor alcance.

E por que literatura do nocaute? Porque, ao fazer analogia com o box, o escritor argentino Júlio Cortázar, disse, certa vez, que, por ser bem mais sucinto, o conto, detém o poder de vencer o leitor por nocaute, ao passo que o romance e, por extensão, a novela, são os gêneros que o vencem por pontos, já que progridem ao longo de enredos bem mais vastos.

Sim, não há dúvidas de que os contos, em razão de suas parcas dimensões, possuem impacto dramático muito mais rápido, concentrado em um único núcleo, enquanto, nos romances, em geral, o leitor costuma ser conduzido com parcimônia ao clímax da narrativa, pois a variedade de personagens e situações servem ao propósito de alongar as expectativas do leitor.

Na verdade, o admirável trabalho do professor Ítalo mostra-se em condições de nos fornecer uma grande atmosfera de estilos e se torna, por tal razão, uma fonte para impulsionar o conhecimento de autores que marcaram época não somente na literatura brasileira, mas que levaram nosso arcabouço de criações para outros países.

O acesso a ícones como os presentes na obra, dos mais simples aos mais complexos, consiste também numa forma de fazer evoluir tanto o pensamento, quanto a compreensão linguística dos que se dispõem a percorrê-la. Trata-se mesmo de um mergulho na linguagem literária brasileira, uma vez que estamos diante de textos extremamente criativos e que emergem de autores que fizeram da paixão por escrever sua própria história de vida.

Já o disse em outras oportunidades que o conto pode ser uma porta de entrada mais plausível para o universo da literatura, justo por contemplar narrativas muito mais curtas. Eles podem até ser lidos gradativamente por professores durante suas aulas, inclusive nas plataformas virtuais, para despertar o desejo de iniciação em seus alunos.

No seio de tantos, faço agora menção a dois, também de dois gigantes da nossa literatura: “Um cinturão”, de Graciliano Ramos, e “O homem nu”, de Fernando Sabino. Ambos em torno de apenas quatro páginas e capazes, claro, de nos apresentar certas características que marcaram as obras tanto de Graciliano, quanto de Sabino.

Em “Um cinturão”, o narrador já adulto rememora suas relações com o pai despótico e ignorante, que não poupava esforços para puni-lo com surras homéricas em seus tempos de criança, não importa se houvesse cometido alguma travessura ou não. Bastavam os humores do autoritário. Bastava surgir seu furor de arbítrio. Eram tempos em que punições por surras pareciam ser comuns, os anos 40 e 50.

O que importa no texto, todavia, não são as surras praticadas contra a criança, mas a profundidade das observações de um narrador já adulto. Estamos diante do genuíno estilo do extraordinário Graciliano Ramos. Ao lembrar as circunstâncias que lhe causavam aqueles estúpidos suplícios, o narrador expõe seus traumas e empreende uma certa semelhança de seus sofrimentos com os atos relativos à justiça. Quem sabe, não só a noção de justiça subjetiva, mas a Justiça como instituição.

Eis o que sinalizam suas palavras logo no início: “As minhas primeiras relações com a justiça foram dolorosas e deixaram-me funda impressão.” A partir daí, registra os tormentos da infância. Na verdade, um dos piores sentimentos que podem nos ocorrer, em quaisquer situações, é o de sermos injustiçados de algum modo. Ser punido por algo que não se praticou transforma-se em fardo de proporções capazes de dilacerar para sempre a existência de alguém.

As poucas páginas não lhe retiram a intensidade e a tensão crescente das frases. O dizer muito com pouco, um dos principais legados de Graciliano, característica que a tantos inspirou. Assim, avaliava com rigor seus próprios textos e conseguia aliar profundidade e economia em um estilo seco, cortante e isento de rodeios, mas, por isso mesmo, apto a transmitir as nossas angústias.

Já em “Um homem nu”, de Fernando Sabino, temos, ao contrário do nocaute doloroso, um tipo de nocaute do hilário, da comédia em si. Quem leu “O grande mentecapto”, esta grande obra de Sabino, há de concordar que sua criatividade consiste em nos expor a fatos surpreendentes. Do início ao fim, somos envolvidos justo por algo completamente inimaginável, que resulta em um homem em pele pura a se esconder pelas estruturas de um prédio de muitos moradores. A mera casualidade gera os tormentos de um escândalo iminente.

Evidente que muitos outros poderiam ser mencionados. Há alguns meses, escrevi um artigo sobre Sérgio Sant’Anna, que foi levado, em maio último, pela Covid 19. Ele está presente na obra, com um título também raro, “Conto (não conto)”. Sant’Anna consegue discorrer, de forma rápida, sobre o vazio, sobre o nada, algo que somente seu enorme talento poderia explicar.

Infelizmente, por questões de direitos autorais, reitero, como o fiz no antigo texto, que não há nenhum conto de Guimarães Rosa, que foi também um mestre na arte. Basta lembrar “Sagarana” e “Primeiras estórias”, dois de seus pilares no gênero. Noutras oportunidades, mencionarei demais autores e suas respectivas criações presentes nesta espécie de bíblia da nossa literatura. Vale muito conhecê-la.

ALBERTO CALIXTO MATTAR FILHO escreve quinzenalmente, às quintas, nesta coluna