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A Língua Portuguesa e os significados da vida

6 de junho de 2020

Todos nós deveríamos ter como objetivo de vida o afastamento de nossas ignorâncias por meio da busca consciente de nossas leituras. Como isso é possível? O exercício da leitura já elimina boa parte da falta de conhecimento, mas é fato que quando entramos para o mundo da descoberta das origens das palavras, os nossos conhecimentos são remetidos a outro nível.

Conhecer a etimologia das palavras, que significa origem e evolução delas, no dizer de Gabriel Perissé, é ir ao encontro dos caminhos percorridos por elas a fim de “estabelecer relações de sentido estimulantes com tudo o que se lê”. Ouvir bem as palavras por meio das leituras de mundo que fazemos, nos dá a possibilidade de termos mais consciência sobre nós e os que estão em nossa volta. A consequência disso é o bem-estar individual e social.

A própria etimologia de “ler” e “leitura” nos traz o latim “legere” que significa “colher”. Não é à toa que as palavras que estão relacionadas com “ler” são ligadas ao universo agrícola. “Colligere” nos leva a ação de coletar e resumir concomitantemente. Mas, ainda que estejam no mesmo campo semântico, podemos enfatizar os conceitos de ler e leitura.

O primeiro, possui relação com a colheita dos olhos, captura com a vista. Isso significa que ao ler, captura-se e colhe-se as palavras, mas não há, necessariamente, uma leitura. O segundo, é ir além do ato de ler. Fazer uma leitura é estar apto para a habilidade de comentar, de ter uma postura mais ativa, ou seja, a leitura é o processo de um leitor que possui autonomia.

A origem de autonomia é advinda do grego “autonomos” – aquele que estabelece suas próprias leis, auto (de si mesmo) mais nomos (lei). Para que se estabeleça o poder da leitura, precisamos gerir vontades próprias, portanto, para isso, conhecer a etimologia das palavras é fundamental. Para exemplificar o conhecimento sobre isso, irei expor os sentidos do verbo “sentir”.

Muitas coisas nos causam sensações, entre elas, as palavras. Esses sentidos nem sempre são sentidos da mesma forma por todos. Para nós, hoje, sentir é a capacidade de percepção, de sensibilidade, de consciência etc. No entanto, “sentir” é um termo que originalmente, vem do latim “sentire” e significa “espalhar um odor”. Dessa forma, vemos que houve uma mudança de significado a partir das convenções que fazemos na língua.

No conceito atual, não há o espalhamento de um odor e sim a captação de uma consciência, percepção ou sensibilidade. Essa mudança de concepção está registrada desde o século X, no espanhol, no português do século XIII e no francês do século XIV. Portanto, tenho uma má notícia para aqueles que acham que a língua portuguesa deve ser intocável: ela, assim como todas as línguas naturais, muda de acordo com as convenções populares. A boa notícia é que essas mudanças casam-se muito bem com as variações da vida.

PROF. DR. ANDERSON JACOB ROCHA. Professor, Escritor e Palestrante. Autor do livro: A Linguagem da Felicidade. Instagram: prof_andersonjacob. Youtube: Prof. Dr. Anderson Jacob