Destaques Dia a Dia

A lenda do Canastracross

POR LILLIAN CRISTINA CASTRO SOARES COSTA

7 de agosto de 2020

Tudo se passou em uma cidadezinha no interior de Minas Gerais, onde nasci, cresci e morei até meus 60 anos. Na minha época de adolescente, eu nutri uma enorme paixão pelos torneios de MotoCross. Meu pai sempre me apoiava e eu participava de todos.

Lembro-me bem do último torneio do qual participei. Era uma segunda-feira e como de costume fui para a escola. Depois do recreio, alguns homens dos quais a aparência não me recordo, deixaram fichas de inscrição para o chamado CanastraCross.

Era um campeonato anual do qual eu nunca havia participado. Todo contente, liguei para meus pais. Eles, sabendo da minha excitação por esse esporte, concordaram e me deixaram participar. Na noite anterior ao evento, uma insônia devastadora me fez ficar acordado sem conseguir dormir nenhum minuto. Uma grande sede por ganhar a corrida e muita ansiedade percorreram horas a fio o meu ser. Então, pulei da cama bem cedinho e me preparei para o torneio. Abasteci minha motocicleta, limpei as viseiras do capacete e ajustei todas as proteções que vestia em meu corpo.

Logo chegou a tão esperada corrida de motos. Uma enorme estrutura foi armada e as trilhas da Canastra sediaram um dos maiores eventos da região. Ao chegarmos no local, todos os outros competidores já estavam lá. Então me troquei e dei os últimos ajustes necessários em minha moto.
Já estávamos todos enfileirados. Meu coração batia a mil por hora. O sangue pulsava rapidamente nas minhas veias. Até que o sino tocou e tomado pela adrenalina que invadia meu corpo, acelerei.
Iniciou-se, então, o grande campeonato do ano. Já era a segunda volta, eu estava muito bem, em toda a corrida havia mantido a liderança. Mas à frente havia uma grande curva, a chamada “Curva da Morte”.

Faltavam apenas mil metros para eu alcançá-la e já estava todo arrepiado. Quando comecei a virar na curva, algo surpreendente aconteceu comigo. Uma linda mulher de pele clara e cabelos escuros apareceu bem na minha frente. Para não atropelá-la joguei a moto para fora da pista.
Fiquei inconsciente durante bastante tempo. Quando acordei estava em um hospital e do lado estava meu pai. Contei a ele toda a história, e ele, surpreendido e bastante assustado, disse ter acompanhado todo o meu trajeto e afirmou não ter visto nenhuma mulher.

Depois de ouvir isso de meu pai, assim que tive alta do hospital, tratei de saber direito de tudo, pois eu tinha certeza do que havia visto. Procurei o dono da pista e fiz algumas perguntas. Depois de muito insistir, emocionado, ele me contou a verdadeira história.

Há exatamente 10 anos, havia comprado o torneio, pois sua filha amava intensamente Motocross. Reformou algumas pistas e lançou o primeiro campeonato, no qual ela participou. A felicidade tomou conta, ela liderava a corrida durante as três primeiras voltas. Até que numa curva perto de uma aroeira, o pneu de sua moto estourou, fazendo com que a moça perdesse o controle e sofresse um gravíssimo acidente. Ali mesmo, naquela curva ela perdeu a vida.

O pai, desolado, chorou muito ao narrar a triste história. Afirmou que todo ano continua a fazer o torneio 252 anual, pois prometeu no sepultamento de sua única filha, honrar o seu amor ao esporte. Disse-me ainda que em alguns torneios os competidores juram ver sua filha e sempre acabam caindo.

Eu nunca mais pude participar, pois no acidente fraturei a coluna e tornei-me paraplégico. Reza a lenda que a bela motoqueira dos cabelos pretos e olhos de jabuticaba ainda aparece nos campeonatos, derrubando o líder querendo ser lembrada para sempre como a melhor…

LILLIAN CRISTINA CASTRO SOARES COSTA, autora deste texto que faz parte do livro “Letras da Canasta”. Esta e outras 100 histórias regionais estão reunidas em um livro organizado por Maria Mineira. São textos de seus alunos do 3º ano do Ensino Fundamental à 3ª série do Ensino Médio, ano de 2018. Com o apoio da Cooperativa Educacional de São Roque de Minas foi lançado em 2019: “ Letras da Canastra- Cooperativa Educacional Escrevendo História”. Para adquirir um exemplar entre em contato pelo e-mail: mariamineira2011@yahoo.com.br