Destaques Opinião

A habilidade de cada um

22 de junho de 2020

Na escala do vivendo e aprendendo, vamos coletando lições prosaicas, dessas que acontecem no dia a dia. De plano, de onde menos se espera o milagre. Afinal, cada uma que a gente vê e passa. Muitas das quais não valem apenas por duas, valem por muito mais.

Essa que aconteceu comigo no apartamento onde moro em Formiga, reputo de formidável e serve de exemplo a tantos quantos. E o que acontece de bom deve ser passado adiante. A velha história de que não se deve julgar ninguém pela aparência, na junção da prática e conveniência, já que, sabidamente, de onde menos se espera, vem a grande tacada. Mesmo porque cada pessoa é muito mais que aquilo que veste, come ou diz – mais antigo do que guaraná com rolha. E como relata a própria palavra nas Escrituras Bíblicas, “a aparência exterior nem sempre reflete o interior”. De fato, no fundo, “Deus se importa mais com o coração”.

Com um problema até então insolúvel no sanitário de um dos banheiros do apartamento – caso passado e repassado a especialistas da área hidráulica – nada de resolução. Água saindo literalmente pelo ladrão. Vizinha de baixo amolando, interpôs até mesmo uma desagradável notificação extrajudicial. Sim, porque, no seu entender, eu estava fazendo corpo mole acerca do problema e lhe causando prejuízo. De certa forma estava. A água escorria na parede de sua casa, acarretando danos no seu armário, entre outras coisas.

Pelos entendidos no ramo e matéria, fui atendendo aos caprichos e gastando tempo, dinheiro e energia psicológica. Quebraram o piso do banheiro, danificaram parede de azulejos. Enfim, tentaram localizar o defeito pela maneira mais estabanada. E em vão.

No entorpecimento da causa, cheguei a adquirir outro apartamento no centro – só Deus sabe como –, e em promessa às nuvens e ao tempo, sairia daquele lugar o mais rápido possível, no meu entender, ainda o melhor lugar de se morar na Cidade das Areias Brancas. Centralizado, perto de tudo e de todo o necessário, próximo do escritório. O canal de se esconder das intempéries. Pois verdade. Bairro Quinzinho é calmo, tranquilo, seguro. Agasalha e abriga pessoas da mais fina cordialidade.

Mas, enquanto a água escorria para o ralo e para a casa da vizinha de baixo, minha paciência ia de supetão para o brejo. De repente aparece um rapazola – desses que a gente olha e pensa: mais um borra-botas no campo da abelhudice. Chegou, olhou o defeito, e disse, sem hesitar: “É preciso trocar uma peça do reparo da válvula”. – Depois de mexer no complexo das peças na caixa, até mostrou a borrachinha circular branca, que atua como espécie de vedador.

Segundo ele estava gasta e a água passava livre, leve e solta. Ainda que para Yla Fernandes “a esperança é a primeira que nasce quando tudo parece perdido e sem solução”, mais que atacado de pânico, pensei no comum de que a esperança deve ser a última a sucumbir. Assim, quem sabe podia-se otimizar o tempo de serviço e o custo do reparo por meio de um método mais prático e mais barato. Trocar-se-ia o retentor da válvula e o problema estaria resolvido. Na decorrência, “com a fé, os milagres podem acontecer”.

Mas, fé mesmo, que nada. Apenas mais uma tentativa. Cético, nada mais a perder. Perdera muito ao longo de meses a fio. Assenti. Perguntei quanto custava, disse-me que por volta de quatro reais, se achasse a borrachinha separadamente. Dei-lhe o dinheiro e aguardei o dia seguinte.

Na parte da tarde deixou recado no escritório de que não havia como comprar só a borrachinha da vedação, mas todo o comando de reparo. Com viagem marcada, optei por comprar em Passos.
Na semana seguinte, em obediência ao encomendado, entreguei-lhe o conjunto das peças, no meu sentir, a melhor no mercado. Dele tirou o que chamou de vedador – não sei bem o nome da peça – e eis que o milagre aconteceu. Eita! Sanado o problema da “suíte master”. Ufa! Até que enfim a descarga funcionando.

Paguei o combinado – gorjeta mais que merecida – fiquei pensando, ao depois, como são as coisas. Convoquei os melhores, as chamadas expertises, fizeram um furor no espaço físico do banheiro. Os mais conceituados profissionais do setor hidráulico, e nada. Bastou um pirralhinho, uma titica de gente aparecer no pedaço e dar conta do recado!

É a mensagem que passo. De onde menos se espera vem e acontece o milagre. E foi o que aconteceu. Dos quase duzentos reis de água que pagava todo santo mês, voltou-se ao patamar dos trinta e qualquer coisa. Quanto à vizinha de baixo, nem se fala mais em bronca, reclamação e queixa. Pela cruel amolação, envidei todo o esforço necessário para reparar-lhe o dano. E ela hoje – mais do que nunca – é amiga da mais alta estima.

É isso aí. Nada a reclamar da sorte. Felicidade foi ter encontrado alguém a custo quase nenhum e despojado de ideias malucas como as sugeridas e tragicamente executadas por especialistas de nenhuma pipoca. Resta-me o agradecimento. Valeu Julinho!

PS: Num auspicioso dia 20 de junho do ano de 1978 ele veio ao mundo pela graça de Deus e pelas mãos hábeis de Dr. Galeno Silva. Ontem, o mais querido dos filhos (o único) comemorou mais um ano de vida. Sérgio Eduardo Lemos Fenelon, mais conhecido no meio artístico como Serjão (ou SELF) é alegria singular de tudo de que disponho na vida. Para o pai que desconhece no amor a medição do tempo: parabéns Serginho!

E não se fica nisso. Na mesma data, no milagre da vida, os sobrinhos Gabriel Negrinho e Patrícia Tavares também festejaram seu aniversário.

LUIZ GONZAGA FENELON NEGRINHO, advogado trabalhista e previdenciário, com escritório em Formiga, escreve aos domingos nesta coluna.