Destaques Dia a Dia

A grande ponte do Turvo

Por Adelmo Soares Leonel

8 de agosto de 2020

Cada pancada surda do bate-estaca soava fundo no coração. Era a predição do fim de uma época, da infância, da casa-grande, monjolo, tulha, currais, a volta do ribeirão, a cachoeira. Ah! A cachoeira! Descendo majestosa, desvairada, dividindo-se nas pedras lisas de intermeio, espumante por dentro, barrigando em remanso à direita, protegida pela mata agradecida da umidade levantada em respingos e garôa.

Ao repetitivo tuuum do enorme bate-estaca, ela respondia em urros de dor, brava, resfolegante, querendo intimidar os invasores que lhe cravavam a cacunda, lá em riba, com gigantescos pregos. Agonia que durou tempos corridos contra o relógio, cronograma apertado dos engenheiros de Furnas que pressionavam a empreiteira construtora da ponte do Turvo. E aquilo foi crescendo, um monte de candangos, de peões, enchendo as fôrmas de cimento, subindo, subindo a inimagináveis alturas, deixando a gente de formiguinhas em baixo a espiar, atônita.

Os pezinhos descalços, sobrando das calças curtas, sentiam o tremor do chão, antes mesmo do barulho, este eterno atrasado ao qual debochávamos que estava sempre de “pegador”, correndo atrás nos brinquedos de pique-de-pegar.

– Prá que essa altura tôda?
– A água vai chegar até em cima.
– Cê é besta, sô?
– Vai sim.
– Duvido. Aí entope o mundo de água!
– Os doutor tiveram aqui mostrando prá nóis.
– Aaara. Essas águas num tampam o bambuzal da beira do ribeirão.
– Tampam, sim.
– Então num cobrem as grimpas das mangueiras.
– Uh, se cobrem. Meu primo me apagava cada esperança de preservar a paisagem querida ali nas terras do tio Mimi, tocadas pelo tio João da Mata.
– Mas num chegam na mão do monjolo.
– Chegam. Seu laconismo mostrava que o primo já passara pela minha fase de susto, de avaliação de medidas e níveis, de argumentos…
– Aposto que num passam da cumeeira da casa.
– Passam e muito. Puxa vida! Conheci aí a raiva da impotência contra os abusos dos grandes. E como doeu!
Molequinho nas segundas letras, principiei a despedida, pois conforme a contagem do tio, nas próximas férias haveria de ser só água.
– Um marzão dágua. A enterrar tudo…

E ela veio deveras. Engolindo o ribeirão, os bambus, a ladeira dos pés de manga espada, o braço erguido do monjolo, as pencas de coquinho, a cumeeira da casa, peitando a corredeira, amordaçando a cachoeira, trepando no esqueleto da ponte, trepando, trepando até roçá-la os umbigos.

Do jeitinho que os doutores falaram. A enterrar tudo… Hoje, vira e mexe, tô passando na ponte do Turvo (dizem que sua estrutura está abalada, proibiram o tráfego de carretas pesadas, seu asfalto está uma vergonha) e todas as vezes dou uma assuntada no nível da reprêsa. Há poucos anos, êle desceu, desceu, até mesmo assustou o pessoal em volta.

Prá mim, foi diferente: as riscas brancas dos barrancos íam descobrindo pontas de saudosas lembranças, de pedras, trilhos e tôcos, a ponte mostrou a carcaça o mais que pôde. Ôba! Daqui há pouco, o rugido da cachoeira retorna vitorioso, a mata volta a se debruçar alvoroçada de macacos, os dourados, tabaranas e curimbas reaparecem, cansados de se enconder nos fundaréus insôssos do lago.

Eu recolocaria as calças curtas, as varinhas no ombro, a mão do papai e, pronto!, estaria restabelecida a harmonia e os sonhos da felicidade, reconquistados. Mas aí… saco!!! Tivemos de aguentar apêlos frenéticos do govêrno, aumentos na conta, fazer economia de luz, novenas em troca de chuva, o desespéro dos donos de lanchas e a reprêsa se abarrotou de vez e de sobra. A enterrar tudo… Hoje, o caro leitor não achou graça na crônica? Nem eu.