Destaques Entrevista de Domingo

“A gente só precisa de uma chance” e o povo nos deu. Agora é trabalhar

Por Adriana Dias / Da Redação

7 de dezembro de 2020

Foto: Divulgação

Dando continuidade à série de entrevistas com alguns dos prefeitos eleitos na região, neste domingo a vez é do próximo gestor da prefeitura de São Sebastião do Paraíso, Marcelo Morais, de 42 anos. Natural de Belo Horizonte, ainda criança se mudou com os pais para o Distrito de Guardinha, em São Sebastião do Paraíso, cidade para onde se mudou jovem.

Graduado em Matemática, com pós-graduação em Estatística, é professor da rede pública estadual e vereador. Atualmente é estudante de Direito da Faculdade Libertas. Casado com a professora Vânia Rosa da Silva Morais, com quem tem o filho Gabriel Morais, de 11 anos, ele se define como um homem de gostos simples, de família humilde e sempre disposto a novos desafios. Marcelo é filho da dona de casa, Dulce Aparecida Ribeiro de Morais, nascida no distrito de Guardinha.

E seu pai, já falecido, é Antônio Ribeiro de Morais, Moraizinho, natural de Alpinópolis e, por ser militar, morou em vários lugares. O prefeito eleito tem três irmãos: Douglas, Juliano e Lucas, todos residentes em Paraíso, município que quer transformar e deixar a marca como o gestor que tirou a cidade do ‘buraco’ e, para isso quer contar com a ajuda de todos.


FM – Você já começou a transição?

Marcelo – Já, nós começamos o processo de transição. Estamos estudando desde a terça-feira depois das eleições.


FM – Você havia dito no início da sua campanha que conseguiu agrupar vários partidos. Vai ter que lotear os cargos para cada um?

Marcelo – Não, porque eu não fiz promessas. Esse apoio partidário que aconteceu foi de forma espontânea, não existe nenhuma conversa e não tem nenhum compromisso de campanha de que haja troca de secretariado porque o partido ‘x’ ou partido ‘y’ apoiou o Marcelo, não. Hoje posso te garantir que nós estamos livres, leves e soltos para poder montar nosso governo sem qualquer tipo de troca. Sem ter essa questão partidária, já percebemos que muita gente chega pra fazer um lobby aqui, uma indicação ali, mas que, na verdade são pessoas que não condizem com aquele pensamento que nós queremos dar à gestão. Nós queremos uma gestão eficiente em todos os sentidos. Na hora que chegar um pedido já tem uma resposta, não ficar enrolando, o famoso protocolo que entra e fica duas semanas. Não, vamos fazer o negócio desburocratizar. Acho que a grande sacada nossa é organizar a saúde, cuidar das pessoas nessa pós-pandemia que está vindo uma questão aí muito complicada psicologicamente falando, cuidar das crianças, as crianças estão muito vulneráveis. Estão ficando doentes em relação à essa questão, ter um trato mais próximo com as pessoas, mais próximo mesmo de olho no olho, de ir ao bairro ver a demanda, demandar dentro da secretaria, ter uma visão mais próxima.


FM – O seu mandato vai priorizar o critério de tecnicidade, as pessoas serem técnicas para cada secretaria ou diretoria?

Marcelo – Tenho tentado. Temos buscado os quadros com um olhar mais próximo do técnico, mas sem esquecer do âmbito político também. Inclusive estamos demorando um pouco na escolha, pois faço questão e quero ter certeza absoluta de que quando anunciar o nome, ele seja alguém que vai conseguir fazer o trabalho que a gente quer, porque na política existe a famosa imagem do gatinho leão. No começo é um gatinho, no final é um leãozinho. Então, precisamos de certo cuidado. A ideia é fazer um mandato em que as pessoas de fato entendam que o procedimento nosso agora é de dar transparência em tudo, eficiência em tudo e organização de gestão.


FM – Você já tem o secretariado?

Marcelo – Tenho praticamente quatro nomes definidos. A prefeitura de Paraíso conta com 12 secretarias, mas estou pensando em reduzir para nove e olhe lá se eu conseguir trazer para oito, para enxugar a máquina pública. Eu não sei ainda, mas o meio ambiente, agricultura, planejamento urbano, pensamos em juntar.


FM – Já tem definido algum nome?

Marcelo – Na verdade tem o José Henrique de Caldas de Pádua, que trabalha comigo, ele será da Secretaria de Planejamento e Gestão. Ralph Diniz para a Secretaria de Comunicação, Adelma Lúcia da Silva, na Secretaria de Saúde, ela foi servidora do Fórum por 32 anos, servidora de carreira e é uma pessoa que tem bom trato com as pessoas. A secretaria vai ser tocada por ela com o apoio de dois técnicos muito fortes na questão de resolução de problemas. Adriana Rogéri, que é diretora de Saúde atualmente e o médico Daniel Tales de Oliveira, que é meu vice. O gabinete do vice vai ser dentro da secretaria de Saúde. De jeito nenhum que vai ser figurativo. A gente quer o vice-prefeito ajudando e trabalhando. Para a secretaria de Meio Ambiente temos o nome de Renan Jorge Preto.


FM – Algum dos cargos de secretaria atual será aproveitado?

Marcelo – Muito pouco. Alguns de segundo escalão sim, mas vou trocar todo mundo de primeiro escalão. Literalmente todo mundo. Porque existe um vício, do qual as pessoas se acham donas dos cargos. E não é assim. Não existe isso no setor público.


FM – Como vai ser o seu relacionamento com Carlos Melles e com Antônio Carlos Arantes? Porque são duas figuras importantes em níveis, nacional e estadual.

Marcelo – Vou ser franco em relação ao que as pessoas esperam de mim. Eu gostaria de ter um tipo de atitude, mas não posso. Aquilo que for bom para a cidade e, se for necessário que tenha a participação deles, eu vou ser parceiro, abrir a prefeitura da forma que tem que ser feita, vou dar a publicidade da forma que tem que ser feita, tendo parcerias, estou à disposição. Mas aquela figura emblemática de política que ficou no passado, cargos, de querer mandar numa situação politicamente partidária, não. Então, tudo que for favorável para a cidade, que nos ajude a tirar São Sebastião do Paraíso do buraco, como estamos pegando, eu acredito que vai ser válida a parceria com todos. Isso acontece, inclusive, com deputados de Passos, que têm representatividade em Paraíso, não é só chegar e ter voto, eu vou cobrar deles também uma participação mais efetiva e eu acho que o caminho é esse, se a gente conseguir traçar um foco e conseguir, independente com quem seja. Tem que estar com o mesmo objetivo.


FM – Você tem ideia deste rombo nas contas públicas?

Marcelo – Na previsão como vereador, e acompanhando as contas públicas, como tenho acompanhado, acredito que a dívida do município deve bater algo em torno de R$65 milhões mais ou menos. Eu tenho uma visão muito particular em relação à gestão do Walker Américo Oliveira. Agora, no âmbito como vereador que sou ainda, até 31 de dezembro, e também pensando como futuro gestor, penso que um orçamento que, em plena pandemia, de ano para ano cresce R$10 milhões de receita, um orçamento onde você tem, durante quatro anos, colocando o recurso da covid junto, uma receita extra-orçamentária que você não esperava que cairia em sua conta, algo em torno de R$40 milhões, então é uma receita que não existe e que caiu. Pra tirar R$20 milhões da covid, ainda restam R$20 milhões de receita líquida que entrou no seu orçamento que você não esperava. Então, se têm duas vertentes, aumento de receita e receita que não existia, orçamentariamente. Tem uma terceira vertente que é a quantidade de contas que foram canceladas por parte do município, deu 5 anos, cancelou. Eu chamo isso como cano indireto. Então nós estamos falando em algo de R$7 milhões.


FM – Neste sentido, sua crítica, muito mais do que vereador que fiscalizou as contas, do que prefeito eleito, é de que houve má gestão?

Marcelo – Não teve gestão. Um recurso próprio que paga aos servidores da saúde, algo em torno de R$500 mil. O que ele fez? Ele tinha autonomia de pagar esse recurso próprio com o dinheiro da covid, ou seja, sobrou. Então ele fez o barulho que ele precisava fazer no final do mandato. Só. Deixou a prefeitura sangrar por três anos e seis meses. Não houve equilíbrio.


FM – Mesmo o prefeito Walker sendo advogado, ele não teria que ser mais cuidado com essa parte?

Marcelo – Eu penso assim, que partindo desse princípio que você está falando, o que mais me chama a atenção é que a vaidade acaba com o político. Porque até aqui na Folha, preste atenção em quem discorda de você, porque, de repente, o cara está dando uma linha ali que você não está se atentando, porque, infelizmente, é uma bolha. E o Walker nunca deixava chegar nele. É algo assim que não sabia dos problemas que estavam falando dele.


FM – Passos teve um grave problema de buracos nas ruas. Em Paraíso isso não aconteceu. A administração estava sempre a fazer operações de tapa-buracos.

Marcelo – Eu vim para uma reunião e comentei que, em Passos, se você não fizer um refilamento, acabou, porque não tem como fazer apenas tapa-buracos. E esse refilamento fica mais barato que a operação tapa-buraco. Mas, tanto Passos quanto Paraíso, falta visão de gestão. Em Paraíso, eu vejo assim, aí é onde eu tenho a visão da gestão, porque “Ah, eu fiz gestão e diminui a dívida”, não! Você pegou uma receita muito maior, você fez uma gestão cancelando débitos, você aumentou a sua dívida com fornecedores, aumentou sua dívida com precatórios, ou seja, você não fez gestão. Você pode falar assim para mim: “Ó, a dívida fundada, eu peguei com 38, estou largando com 15, que é aquela a longo prazo, e a dívida flutuante eu peguei com 45, que foi na época que pegou, e eu estou deixando com 20”. Aí, eu concordo com você, que ele fez gestão.


FM – Paraíso faz uso da saúde em Passos como referência. Tem algo especial para estes pacientes que fazem tratamentos na Santa Casa e no Hospital Regional do Câncer?

Marcelo – Sim, pensamos em algo específico para estes pacientes que vêm cedo e vão embora só de tarde. Não posso deixar o povo sofrendo o dia inteiro fazendo quimioterapia, passando mal e, muitas vezes terminam o processo e ficam horas esperando para voltar pra casa. Portanto, penso em criar duas linhas de transporte, sendo uma pela manhã e outro no meio do dia. Como os retornos intercalados. Se pegar um veículo que faz 4km/litro, vou gastar R$100 por dia, R$2.000 por mês, que é uma quantia irrisória para uma prefeitura de R$170.000.000. Eu vou estar abraçando o povo, mas parece que não pensam assim não. Quem está no poder. A gente só pediu uma chance. O nosso mote de campanha era “A gente só precisa de uma chance” e o povo nos deu. Agora é trabalhar e estou já estou fazendo isso mesmo antes de assumir.


FM – A sua experiência com a câmara foi fundamental para sua campanha e será para a gestão?

Marcelo – Foi impagável. O que eu aprendi na câmara como vereador não tem preço, eu fiz um mandato muito efetivo. Nunca me omiti de nenhum assunto, se tinha alguma coisa acontecendo estava a cara do Marcelo estampada.


FM – A instalação da Unifal que estava em andamento pela administração atual, terá prosseguimento?

Marcelo – Sinceramente não sei em que ponto está essa negociação. Me lembro que teve uma carta de intenção de várias pessoas de instalar um braço da Unifal em Paraíso. Tudo o que for bom para a cidade nós daremos sequência. Se a Unifal quiser, se a Ufla quiser terminar já esse ano, pois está paralisada a negociação no Ministério da Educação. Entendo que são necessárias para Paraíso. Estou rezando para que dê certo porque essa indústria educacional é algo que a gente tem que investir. Se a gente perceber que a Unifal tem interesse de ir para Paraíso, que a Ufla consiga se instalar e que a gente consiga valorizar ainda mais as instituições que a gente tem dentro da cidade que são a Calafiori e a Libertas eu vejo com bons olhos esse fomento ao ensino universitário.


FM – Paraíso tem um processo relacionado ao lixo que é bastante interessante, é um dos poucos municípios da região que está no caminho para a coleta seletiva completa, inclusive com usina de reciclagem e um consórcio. Isso já vem acontecendo, você vai dar continuidade? 

Marcelo – É outro assunto do qual precisamos tratar com certa urgência, porque não se pode manter o aterro sanitário da forma que está. Mas, também vejo que essa questão do consórcio ficou se discutindo durante muito tempo e não ganhou a efetividade que todos nós esperamos. E eu sou muito prático. Vai resolver, vai funcionar? Vamos. Não vai? Não perde energia com isso mais. Então, vou chamar os responsáveis e vamos ver como dar sequência, como é que pode ser feito esse desenho para realmente o serviço funcionar. Porém, eu gosto de efetividade, sou muito proativo e gosto de pessoas proativas, não adianta nada falar que vai fazer. “Nossa que projeto bonito, que projeto maravilhoso”, mas já faz três anos que está discutindo isso. Se no campo das ideias ficaram três anos, imagina no campo da elaboração de projeto, o tempo que vai ficar? Imagina no campo da execução o tempo que vai ficar? Não resolveu, vamos buscar outra solução, mas que realmente seja efetivo. Tenho interesse de dar continuidade desde que tenha mais efetividade.


FM – Durante a campanha você falou sobre o distrito industrial. Qual será a proposta neste sentido?

Marcelo – A ideia é fazer com que aquele projeto do qual eu fui autor como vereador e o prefeito vetou, de incentivos fiscais para empresas, ele possa ser reenviado agora em nome do Poder Executivo para que a gente possa gerar incentivos fiscais de IPTU, ISS, forma de facilitar essa instalação de procedimentos em Paraíso e também uma forma de garantir para quem já está instalado efetividade para também ter esses benefícios. A ideia já é fazer também uma lei de livre comércio que fomente que as licitações públicas, a grande maioria fique no comércio local.


FM – Isso não configuraria abrir mão de receita?

Marcelo – A renúncia de receita, ela pode até acontecer. Mas você tem que justificar, o que seria uma receita de ISS, por exemplo, ou de IPTU, se ele me reverte, por exemplo, em 100 empregos diretos. Então, nós estamos falando de entrar na economia mais 100 mil reais diretamente e que isso vai gerar ICMS, que é outro imposto que de forma indireta a gente cobre aquele que está sendo, vamos dizer assim: doado. É uma questão matemática. De você tirar de um lado e colocar do outro.