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A fundo perdido

Por Luiz Gonzaga Fenelon Negrinho

19 de outubro de 2020

Ora, pois, cada um guarde o dinheiro onde e como bem quiser. No banco, na geladeira, no bolso, na bolsa, na casinha de cachorro, debaixo do colchão… Minha mãe guardava o sagrado dinheirinho numa cômoda do seu quarto, salvação para justos momentos. Quem pensa que guardar dinheiro na cueca e no fiofó configura-se crime está enganado. Não é crime. É inusual. Anti-higiênico. Cédulas em contato com as partes íntimas do corpo, além de ser muito estranho é extremamente inadequado. Foge aos padrões da normalidade e do bom senso.

Foi o que aconteceu com o senador Chico Rodrigues (DEM-RR), vice-líder do governo no Senado. Deu o que falar. Também pudera. Foi um bombardeio nas redes sociais. Onde já se viu! O curioso é que foi na semana que o presidente Bolsonaro, em altos brados, disse que em seu governo não há corrupção: “Em meu governo não há corrupção”. Que bom que assim fosse. Ainda que negue, o senador trapalhão é seu chegado. Fatos, fotos e imagens o comprovam, com fartura.

Ao burlesco episódio. Como todo bom cristão, supostamente apertado, o senador Chico Rodrigues pediu educadamente licença para ir “à licença”. (Bons tempos de primário no Educandário, era como pedíamos à professora para ir ao banheiro). Prontamente concedida, aí que pegou. Ao andar até o WC, o caldo entornou. Ou melhor, quase. O andado não obedecia à tipicidade de quem estivesse com a bexiga e/ou intestino cheios.

Ainda mais desagradável, percebeu-se um grande volume na bermuda, como se superdotado fosse. Sem essa. Muito menos no quesito cociente de inteligência. Baixíssimo, por sinal. Perto da idiotice, no superlativo. Onde já se viu aplicar dinheiro em fundos nada recomendáveis? Volta-se ao texto anterior, quando aqui usei o termo escatológico. Só que desta vez, não no sentido de fim do mundo, dos eventos e o encerramento da passagem do gênero humano na terra. O sentido é outro e bem feio. É o que diz a palavra, numa variável. Dá conotação, pela biologia e medicina, de fezes. Mas, pensando bem, desviar dinheiro de boa finalidade para outro lugar menos agradável, é perverso, podre. Por assim dizer, escatológico mesmo.

Falou-se em princípio, na retirada das nádegas do senador, por três desagradáveis vezes, maços de dinheiro, no valor de 30 mil reais. A polícia federal contabilizou a retirada de 15 mil. Ainda assim é muito. O mais difícil para relatar um fato dessa natureza, por mais que se tente abrandar a situação com termos mais amenos e suaves, não dá.
Tanto é verdade, que os próprios colegas de bancada e partido não medem as palavras, e não sabem como: “Um titular do Conselho de Ética do Senado faz uma cagada dessa?” Podiam falar em titica, caca, burrada. No entanto não há como definir melhor a prática, a imagem, a situação. É cagada mesmo.

Peço mil desculpas. Mas os fatos inapelavelmente obrigam a que todo e qualquer escrevinhador use termos chulos para a narrativa. É um gesto literalmente escalafobético. Fazia tempo que não usava essa dicção: escalafobético. Designa algo extraordinário, excêntrico. Vamos ao pior. Fala-se em desvios de verbas destinadas ao combate à pandemia do Coronavírus. O dinheiro teria vindo exatamente de emendas parlamentares, conforme apurou a polícia federal.

No jogo da fedentina, a verdade é que Bolsonaro tenta se esquivar de possíveis ligações de seus pares com a corrupção. Mas não é crível. Um desgoverno gera corrupção. Não há como segurar as pontas do novelo. Afora mazelas naturais proferidas e reproduzidas na sua gestão, existem diversas espécies de irregularidades nos mais diferentes setores. A Amazônia Legal é uma delas. A pasta da saúde nem se fala. Os investidores internacionais não querem investir no Brasil, se não sentirem firmeza em um progresso rumo a uma solução ante a destruição crescente da Floresta Amazônica. Isso envolve produtores de carne, operadoras de grãos e títulos do governo do Brasil. A tendência é essa, por mais que se queira camuflar.

Ainda que se objetive isenção, correção de rumos e o não comprometimento com parças ligados a desvio de conduta e afins, bom que o presidente Bolsonaro se alimente de outras iguarias senão da política, cujos temperos remontam à obscura tese de se levar vantagem em tudo. Como a tremenda roubada de dinheiro do Chico a fundo perdido, fruto de insana descoberta que mais se parece com um dramalhão mexicano.

Oportuno tempo, por decisão monocrática, o ministro Luís Roberto Barroso, do STF, determinou o afastamento, por 90 dias, do senador Chico Rodrigues (DEM-RR). Certo mesmo é ser banido de vez da política! Embora não haja comprovação da licitude do dinheiro do senador Chico Rodrigues, pelo sim e pelo não, a situação constrangedora nos leva a acreditar na venda de emendas parlamentares. Basta puxar as pontas do novelo e se chegará à verdade que liberta. Aliás, será preciso ir longe? No imaginável, e tudo indica: mais um caso de se tirar proveito da dor alheia, da pandemia do Coronavírus. Que coisa!

No melodrama da situação – vexatória e patética –, fica aprovada a sentença na qual o senador Chico Rodrigues (DEM-RR) foi alvo da Desvid-19, operação deflagrada pela Polícia Federal em Boa Vista. Cédulas foram encontradas nos glúteos do ensandecido político. O que faltava para não impactar: glúteos. PS: Errata. No texto de domingo passado, houve falha na grafia do nome do futuro ministro do Supremo Tribunal Federal. Seu nome é Kassio Nunes Marques. Em duas situações, Daniel entrou de enxerido.

Luiz Gonzaga Fenelon Negrinho, advogado, com escritório em Formiga, escreve aos domingos nesta coluna.