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A feiticeira vem aí!

19 de junho de 2020

Desde criança ouvi falar de bruxas e feiticeiras, influenciada pelas histórias das avós. Na roça sempre ouvia cochichos de que essa ou aquela benzedeira fosse bruxa. Nesse tempo, aprendi algo para evitar feitiço: cruzar as mãos nas costas, ao passar perto de uma suspeita.

Quando me mudei para a cidade, soube pelos colegas, que na rua havia uma bruxa. O pior de tudo, ela morava bem ao lado de minha casa. Amedrontada observava de longe aquela mulher misteriosa. Sempre que passei perto dela foi de mãos cruzadas. Ensinei o truque anti-feitiço a todos os amigos ali da rua.

À primeira vista, Dona Leôncia parecia uma velhinha igual a qualquer outra, a não ser pelo longo fio de barba que crescia no seu queixo e também pela cor excessivamente preta de seus cabelos. As outras senhoras de sua idade já tinham cabelos brancos, os dela brilhavam de tão negros. Dois motivos que nos deixava com um pezinho atrás.

À noite, brincávamos de pique pega, cabra cega e chicotinho queimado. O chefe sempre mandava bater à porta de Dona Leôncia. Isso era missão impossível, ninguém obedecia, a casa dela era a única da rua que ficava livre das nossas brincadeiras.

Naquele tempo, não havia muros, os quintais eram grandes, separados por cercas de bambu. Isso facilitava meu trabalho de investigação. Passava horas olhando pelas frestas e me familiarizando com a vida de Dona Leôncia. Um dia, a vi passando carvão nos cabelos…

Descobri que ela vendia bananas, verduras e legumes. Vinha gente de longe bater à sua porta procurando os vegetais tenros e bonitos, cultivados por ela.

A velhinha acordava cedo e vinha para o quintal com seu penico e despejava na moita de bananeira, sempre cheia de cachos. Depois pegava a bacia de cobre de tomar banho, enchia com água do poço, retirava a água da bacia com seu penico e regava a horta.

Era incrível como sua plantação crescia mais que qualquer uma da vizinhança. Lembro-me de vez em quando ela chamava mamãe na cerca e gentilmente entregava abobrinhas, pés de alface e pencas de banana madurinhas. Mãe agradecia a gentileza, mas nunca nos deixou comer nada daquele quintal estranho. À noite cortava em pedacinhos e dava tudo para as galinhas.

Certa vez, ia com meu irmão levar uma bandeja cheia de doces de leite feitos por encomenda. Andando rua abaixo, muito peso e eu com as duas mãos ocupadas. Meu irmão me olha assustado e já cruzando os dedos nas costas me diz:

— Olha quem vem vindo!

Misericórdia! Era dona Leôncia vindo em nossa direção, no sentido contrário da rua. Fiquei totalmente sem rumo. As mãos estavam impedidas, segurando os doces.

A feiticeira chegando e eu sem poder me proteger, me apavorava! E se ela já soubesse que eu a vigiava? E se ela resolvesse me pegar no pulo e me tacar um feitiço daqueles grandes? Fizesse nascer em mim um fiozão de barba igual ao dela? Ou pior, me fechasse numa gaiola me obrigando a comer um pé de alface de seu quintal?

Faltando poucos metros para o encontro fatídico, eu, uma criança de nove anos, medrosa, mas esperta, não ia me deixar enfeitiçar assim tão fácil. Bem na horinha que ela passou por mim, joguei a bandeja no capim, (os doces eu catei depois) cruzei os dedos e me livrei do feitiço de Dona Leôncia.

Naquele dia eu notei um quê de amor, simpatia e cumplicidade nos olhos daquela senhorinha…Isso eu nunca me esqueci…

* Dona Leôncia, mudei seu nome. Até hoje nunca contei a ninguém sobre a bacia e o penico que regava as plantas e nem o segredo dos cabelos sempre negros. Onde a senhora estiver um beijo carinhoso!

MARIA MINEIRA é escritora. Esta e outras 52 histórias fazem parte do livro: “Ao Pé da Serra- Contos e Causos da Canastra”.