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A esperança é revolucionária, diz Karnal

Por Danilo Casaletti / Especial

9 de julho de 2021

O historiador e professor Leandro Karnal reúne em livro os textos publicados na imprensa. / Foto: Divulgação

Em 1978, o compositor Aldir Blanc falou em “esperança equilibrista” para definir o momento político conturbado e de incertezas pelo qual o Brasil passava. O historiador e professor Leandro Karnal, que lança o livro “A Coragem da Esperança”, escreve que este sentimento, hoje, apesar das transformações e desafios pelos quais o mundo enfrenta, está no décimo segundo andar pronto para, sem cordas, saltar e se transformar em algo “fértil e vicejante”.

Entendo o prudente ceticismo, mas sou esperançoso. Quando encerro as crônicas dizendo que é preciso ter esperança é porque ela é necessária para existir”, diz Karnal. O livro traz uma reunião de textos publicados no jornal O Estado de S. Paulo. Essa provocação com o pensar em um amanhã diferente está em textos como O Controle, no qual ele discorre sobre radicais e diz que a esperança raramente está neles. Em A Ira das Pombas, Karnal fala sobre ódios e redes sociais – as quais ele classifica como um sistema de vigilância humana jamais visto anteriormente – e diz que é preciso voar alto para escapar dessas labaredas.

Karnal falou sobre o tema que une os textos, divididos em seis partes, aos quais o escritor Ignácio de Loyola Brandão recomenda, no prefácio, ler com calma; e também sobre solidariedade, redes sociais e fama.

É curioso observar como alguns textos envelheceram rapidamente, perderam o sentido do tema mais quente. Outros, permanecem dialogando com o momento atual. É natural. Para este livro, eu tinha mais opções de crônicas do que os anteriores. Escrevi novos textos, subdividi em itens. Então, aqui, a dificuldade foi o que deixar de fora. A novidade é que, pela primeira vez, eu passei a escrever crônicas de ficção. No ano passado, enviei a primeira crônica de ficção para ser publicada no Estadão, As Quatro Vítimas do Chá. Elas me dão um imenso prazer. É uma maneira de ver as coisas sem o compromisso com o rigor dos fatos. Às vezes, é um manifesto político, outras, uma reflexão sobre a decadência, aliás, tema esse recorrente”, diz.

Ao ser indagado se é imperativo debater a esperança em tempos como o atual, Karnal explica que nem sempre a esperança foi vista como algo positivo.

Os gregos a colocaram como o último dos males na caixa de Pandora. Nietzsche, grande especialista em cultura grega, diz que a esperança é uma crueldade. Você diz para aquela pessoa em estado terminal de câncer: vai dar tudo certo. Você sabe que não. Sou uma pessoa com uma carga de realismo muito grande. Mas, se eu, como professor, perder a esperança, não tenho porque educar alguém. A esperança, para mim, que tenho formação religiosa, me torna mais produtivo. Então, se não for depressão, que é uma doença, ser pessimista é ser vagabundo. A pessoa adota a desesperança como estratégia de imobilismo. Entendo o prudente ceticismo, mas sou esperançoso. Quando encerro as crônicas dizendo que é preciso ter esperança é porque ela é necessária para existir. Eu, com 58 anos, tenho até o direito de ser cético e pessimista, mas não posso dizer a alguém de 18 anos que a vida é um horror, até porque ela tem o direito de imaginar que ela possa ser boa”.