Destaques Opinião

À espera de um milagre

POR WASHINGTON L. TOMÉ DE SOUSA

28 de outubro de 2020

“A política se tornou um deserto de homens e ideias”. (Oswaldo Aranha) Após a epopeia do descobrimento do Brasil e a sua consolidação como possessão portuguesa, passando pelo estabelecimento da Família Real no Rio de Janeiro, declaração da independência, inúmeras revoltas populares, proclamação da república, Revolução de 1930, Revolução de 1964, golpes, contragolpes, crises – políticas, institucionais e econômicas -, planos mirabolantes de salvação nacional, chegamos, finalmente aos dias atuais, em que as instituições e os três Poderes da república, encontram-se abalados, achincalhados e desacreditados, quer pela má (péssima, horrorosa, ruinosa, inominável) gestão, quer pelo comportamento semelhante, abominável e criminoso, de agentes que são colocados à frente destas instituições para delas se locupletarem e alimentarem, com dinheiro público roubado às escâncaras e fartamente, pelo próprio sistema político-partidário corrupto que ali os instalou para esta finalidade.

O último escândalo político retrata bem tudo isso: o do senador pego pela Polícia Federal com milhares de reais de origem duvidosa enfiados no derriere (perdoem-me o galicismo, mas foi apenas para atenuar a cena. Já imaginaram botar aqui no jornal em linguagem popular – o dinheiro enfiado no…). O derriere é a cara desse nosso Brasil (por favor, Parreira, ou revisor, não corte esta última parte). Outro escândalo, não menos tragicômico, dessa vez na mais alta instância do judiciário, foi o da soltura do megatraficante André do Rap, em uma grande ‘comida de barriga’ (ainda que fundamentada) do nobilíssimo ministro do Supremo, sua excelência Marco Aurélio de Mello, repudiada, posteriormente, pelos seus próprios pares, em uma votação de 9 x 1.

E cá estamos nós, mais uma vez, envoltos e aturdidos, também, por outra grande crise que abala o mundo já há quase um ano, a da famigerada pandemia do Covid-19, e pelas suas consequências de toda ordem. Perdidos em meio à eterna polarização de tudo, que, diuturnamente, abarrota, em todos os níveis, a imprensa, as mídias sociais e se estende até as conversas em rodas de botequins, que não levam a nada: faz lockdown, não faz lockdown, toma cloroquina, não toma cloroquina, usa máscara, não usa máscara, voltam as aulas presenciais, não voltam as aulas presenciais, toma vacina, não toma vacina… “e la nave va”, sem rumo, ao sabor das ondas. Que país grande e bobo nos tornamos (ou nunca deixamos de ser).

Será que há alguma esperança de dias melhores? Desculpem-me os leitores, mas vou bater novamente na mesma tecla que tenho batido em quase todos os meus artigos (“Água mole em pedra dura, tanto bate até que fura”), na esperança de que algum resultado produza: diz um provérbio oriental que “Quando o aluno está pronto, o mestre aparece”. Para não ser injusto com nenhuma categoria aqui citada ao traçar quadro tão estarrecedor e desalentador, se o país ainda está de pé e é, ainda, uma das principais economias mundiais, mesmo diante de tantos descalabros, poderíamos atribuir a milagre. Mas este milagre tem nome. O nome dos anônimos brasileiros que trabalham honesta e arduamente, que norteiam suas vidas e atitudes por princípios éticos e creem que o bem prevalecerá. São estes que, espalhados por todo o tecido social da nação, seja no Legislativo, Executivo, Judiciário, na iniciativa privada ou como cidadão comum, realizam o verdadeiro milagre.

Somos um povo muito religioso. Estamos habituados a buscar e cultuar salvadores da pátria, a aguardar uma solução que nos venha de fora, como que nos eximindo da nossa responsabilidade pessoal e coletiva. Mas as sucessivas decepções com estas figuras, sejam elas políticas, religiosas ou de qualquer outro espectro, estão a nos mostrar, a quase espancar as nossas consciências, que a solução há de ser construída, passo a passo, gradativamente, com a participação consciente e ética de cada um, em espírito coletivo e solidário. Quando isso se tornar a ideia prevalente, certamente deixaremos de ser um deserto de homens e de ideias, e o terreno estará preparado para que boas lideranças naturalmente despontem.

WASHINGTON L. TOMÉ DE SOUSA, bacharel em Direito, ex-diretor da Justiça do Trabalho em Passos,
escreve quinzenalmente às quartas, nesta coluna