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A dor dos que não podem se despedir

3 de abril de 2020

Foto: Helder Almeida

PASSOS – Francisca Julia de Oliveira comemorou seus 73 anos no dia 1º de março deste ano. Ela sempre gostou de música, reunir pessoas em sua casa para comer frango caipira, uma mulher extrovertida, que adorava contar piadas e dar boas risadas. Embora sua família fosse pequena, marido e dois filhos, ela era rodeada de sobrinhos e amigos. E foi assim até bem recente, quando começou aos 72 anos ter complicações de saúde. Na última segunda-feira, 27, faleceu. E seu velório foi como queria, rápido, mas não como a maioria dos amigos e parentes gostaria, tudo por conta da pandemia do coronavírus, mesmo pela causa de sua morte não ter nada a ver com a covid-19.
E, assim, tem sido os velórios em Passos, na região, e por todo o Brasil e em outros países. Para o filho de Francisca Julia, o funcionário da Santa Casa e também DJ, Helderson Oliveira Silva, o Heldinho, foi bem triste não poder receber todos os amigos e parentes, mas ele disse entender a exigência justamente pelo momento delicado que a situação do coronavírus impõe.
“Certamente, se fosse outra época o velório estaria lotado, mas não. Só mesmo os familiares de primeiro grau entraram. Os acima de 60 anos, só se fosse de primeiro grau também e foram dadas fichas para entrar e ficar rapidamente com ela, que recebeu quatro coroas de flores e teve o sepultamento como sempre pediu: ‘que seja rápido, não vão ficar fazendo hora comigo’. Então, mesmo sendo um momento marcado pela dor dos parentes, principalmente daqueles que não puderam se despedir dignamente dela, é uma exigência necessária e positiva para não agravar ainda mais esta pandemia. E, pelo que percebi, ela que gostava tanto de dormir, e nos últimos tempos não estava dormindo bem, agora sim, estava num sono tranqüilo e eterno como gostaria de ter”, afirmou.
A aposentada e ministra da eucaristia Maria Aparecida Borges da Silva, a Filinha, perdeu seu irmão José Raimundo Moraes Borges na última semana e, pela primeira vez em sua trajetória como ministra, realizou a celebração das exéquias (oração para o defunto), que normalmente é feita por um padre ou por um ministro da eucaristia, e que, com a pandemia o Papa Francisco autorizou que qualquer um da família possa fazer.
“Além da dor de ter que ser um velório bastante restrito, eu jamais imaginei fazer a oração e ainda para meu irmão. Mas fiz. Só estávamos eu, meus dois filhos e minha nora. Se fosse em período normal iria muita gente, pois meu irmão era muito querido. Nem nossa irmã e filhos que moram em Uberlândia puderam comparecer, então, este é um sentimento muito doloroso. Os profissionais que cuidam do velório não queriam nem que eu entrasse por já ter mais de 60 anos, mas eles entenderam a necessidade e foi rápido. Nunca pensei vier isso, mas fica o sentimento também de que Deus está mostrando que o homem precisa se voltar a Ele e ter fé”, afirmou Filinha.
Sobre o sacramento das exéquias, o pároco da Matriz Senhor Bom Jesus dos Passos, Sandro Henrique Almeida dos Santos, explicou que no Velório São Vicente de Paulo e crê que haja também em outros, existe um recipiente com água benta para ser jogada pelo familiar que vai fazer a bênção.