Destaques Opinião

A dor de Dostoiévski

15 de outubro de 2020

Li Crime e Castigo pela primeira vez em meados de 2013. A leitura, que me cativou de imediato, durou alguns meses e, pode-se dizer, foi responsável pelo despertar da literatura e, principalmente, de Dostoiévski, em minha vida. Nunca mais abandonei seus escritos. É o que acontece quando algo nos toca na alma. O exemplar do romance – antigo e de tradução passada pelo francês – foi-me emprestado por meu tio e padrinho Alberto Calixto Mattar Filho, a quem “devo” essa sublime iniciação. Era uma edição chamada “de bolso”, cujas longas páginas eram espremidas num espaçamento curto. Havia apenas um glossário ao final, com a tradução de expressões russas surgidas no decorrer no romance.

Nada disso impediu a impressão extraordinária e tocante que o livro traz. A tradução indireta e a falta de notas explicativas e elucidativas ao longo do romance não prejudicaram a sensação de dor provocada pela leitura de Crime e Castigo. Ali, em torno de meus 18 anos, pude sentir com estranha realidade os momentos de Rodion Románovitch Raskólnikov (naquela edição grafado com “f” ao final, em lugar do “v”) e de toda a gama de espetaculares personagens. Vários momentos levaram-me às lágrimas, sinal de que tocavam na alma, de fato.

Recentemente, já em 2020, após adquirir um box da Editora 34 – conhecida pelo trabalho notável nas traduções, ilustrações e notas nos romances de Dostoiévski e de outros autores russos – contendo os cinco chamados grandes romances do escritor, dentre eles Crime e Castigo, quis relê-lo. E relê-lo não só pela tradução direta do russo, vinda de edição local da obra completa de Dostoiévski, repleta de notas também traduzidas e outras inseridas pelo tradutor, que enriquecem e contextualizam a obra, mas para sentir novamente aquela história, perceber como seria o seu impacto após cerca de sete anos, depois de toda a experiência adquirida com o tempo.

Novamente, pude testemunhar que a leitura de Crime e Castigo é, antes de mais nada, uma leitura de dor. É a dor psíquica dos personagens, e por vezes também a física, que acompanha o leitor durante todo o romance. Não foi coincidência que Dostoiévski encantou entidades como Freud e Nietzsche. Porém, ficou nítida também outra impressão. Somente foi possível a Dostoiévski imprimir com tamanha grandeza, profundidade e realidade os sentimentos, virtudes e angústias humanas por tê-las sentido por demais na própria pele. A existência do escritor foi ferida de enormes e terríveis dores.

Foi condenado à morte e, nos minutos finais que lhe restavam, já preparado ao lado de outros prisioneiros, teve a pena comutada a anos de trabalho forçado na Sibéria. Esse episódio em si deixou marcas em toda a obra posterior de Dostoiévski, valendo a todos a leitura da carta que este enviou a seu irmão, Mikhail, no mesmo dia da experiência de quase morte. Vejamos um trecho:

[…] Meu Deus! Quantas imagens, sobreviventes, criadas por mim irão morrer, irão apagar-se em minha cabeça ou derramar-se em meu sangue como veneno! É, se não puder escrever eu vou morrer… Em minha alma não há fel nem raiva, gostaria de amar muito e abraçar ao menos algumas das pessoas de antes neste momento. Isso é um deleite, eu o experimentei hoje ao me despedir dos meus entes queridos perante a morte… […] A vida é uma dádiva, a vida é uma felicidade, cada minuto poderia ser uma eternidade de felicidade.

Também adveio daí sua ligação com a obra do escritor francês Victor Hugo, O Último Dia de um Condenado à Morte, por diversas vezes trazido à baila em seus próprios escritos. Teve sua primeira mulher vitimada pela tuberculose, fato que – intuo – o inspirou para outra personagem inquietante de Crime e Castigo, Catierina Ivanóvna. Sofreu horrores com dívidas, agiotas e vícios outros que sempre o acompanharam na vida. Isto posto, Dostoiévski escrevia com a alma, com o sangue e por isso arrebata a humanidade até os dias de hoje, especialmente aqueles dotados de especial sensibilidade.

A interpretação que Fiódor Dostoiévski deu à sua experiência no mundo encontra-se grafada em sua obra, na forma de inúmeras personagens e passagens sublimes. A exemplo da citada Catierina Ivanóvna, de Crime e Castigo, a personagem é terrivelmente escrutinada até as vísceras, nos seus mais íntimos sentimentos e impressões diante da vida; vem à tona a psicologia por trás de suas atitudes oriundas de profundo sofrimento, humilhação e mesmo de injustiça, além da dor física vinda da tuberculose que lhe acometia.

Criando convicções para si própria como uma forma de fuga da realidade, a personagem é levada mesmo a momentos de nítida loucura, de surtos e rompantes que trazem ao leitor empatia imediata, e não aversão. Cercada pela extrema pobreza, casada com outro personagem marcante do romance – que aliás marcou-me muito na primeira leitura – o bêbado inveterado Marmieládov, mãe de outras três pequenas crianças e madrasta de Sônia – figura central da história – acaba por contribuir, juntamente de outros no livro, pelo resgate de uma possível humanidade no protagonista Raskólnikov.

Há muitos outros personagens igualmente marcantes, cada qual com suas questões próprias, existenciais, como é característico de Dostoiévski, valendo citar figuras como Razumíkhin, Dúnia, Svidrigáilov, Lújin e Porfiri, sem, no entanto, adentrar em maiores detalhes a respeito, já que cada uma delas merece uma abordagem dedicada. Há ainda questões atemporais discutidas de forma brilhante no decorrer do romance.

Sendo assim, não pretendo alongar-me na história por esta via, não se destinando este artigo, é evidente, a esgotar ou resumir a obra de alguma forma. Enfim, trata-se de um incentivo, um convite aos leitores a se aventurarem neste magnífico – a beleza pode mesmo advir da dor – e mais do que consagrado romance, por certo um excelente ponto de partida na obra do autor russo ou mesmo da literatura como um todo, sendo importante, sempre que possível, atentarem-se às edições com traduções mais recentes e revisadas, além de diretas do idioma russo.

GABRIEL AVELAR MATTAR, advogado formado pela PUC-MG, escreve excepcionalmente hoje no lugar de Alberto Calixto Mattar Filho.