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A democracia dos EUA e seus vieses

POR ESDRAS AZARIAS DE CAMPOS

23 de janeiro de 2021

Democracia não se mensura, não tem maior nem menor democracia do mundo. O que existe é país que adota o sistema democrático de governo ser grande ou pequeno. Neste caso, os Estados Unidos da América (EUA) por ser tanto populacional quanto territorialmente grande podem ser sim chamados de a maior nação democrática do mundo. “Pode-se também adjetivar democracia como, por exemplo, “democracia frágil” ou “democracia consolidada”, “democracia representativa” ou “democracia direta” e por aí vai.

Existe também a tal “democracia relativa”, ou seja, democracia meia boca, tal conceito foi inventado por ditadores e por isto muito utilizado em ditaduras. Por isto que os defensores do regime civil/militar no Brasil de 1964/1985 não aceitam que aquilo foi uma ditadura. Porque este modelo de regime discricionário adota algumas instituições da democracia como, por exemplo, uma Constituição com manutenção dos três poderes, mas quem manda ou fica acima das instituições constitucionais é o ditador.

Nesta situação se encontram a maioria dos países, principalmente os subdesenvolvidos espalhados pelos cinco continentes, sempre tentando consolidar a democracia. Poucos países no mundo têm a democracia consolidada e o maior deles são os EUA, até porque pode ser considerada a primeira república do mundo contemporâneo, além disso, adotou o sistema democrático. No entanto, a democracia dos EUA tem lá os seus vieses, não são poucos, senão vejamos.

Desde o dia 4 de julho de 1776, em Segundo Congresso Continental realizado na cidade de Filadélfia, em que foi declarada a independência dos EUA, portanto lá se vão 244 anos de vida republicana da maior, mais rica e poderosa nação capitalista do mundo. Este fato serviu de forte influência para todos os demais movimentos de independência e adoção do republicanismo para todos os demais países das Américas, tendo apenas o México breve passagem por monarquia e o Brasil por dois reinados, mas ambos acabaram por proclamar suas respectivas repúblicas.

Uma das principais marcas da república norte-americana é não ter histórico de golpe seguido por ditaduras, lá não se derruba presidente, quanto não gostam do presidente preferem matar. A única exceção foi o presidente Richard Nixon diante de um inevitável impeachment e renunciou em 08/08/1974. Joe Biden (que se cuide) é o 46º presidente dos EUA empossados e destes 46 presidentes quatro foram assassinados a saber: Abraham Lincoln que foi o primeiro presidente do Partido Republicano assassinado em 14 de abril de 1865, James Garfield, republicano em 19 de setembro de 1881, William McKinley, republicano, o terceiro em 5 de setembro de 1901 e em 22 novembro de 1963 marca o assassinato do democrata John Fitzgerald Kennedy.

Lembro que ainda aconteceram mais nove atentados frustrados contra presidentes lá nos States, sendo o último deles contra o presidente Ronald Reagan em 30 de março de 1981. Portanto o Joe Biden que se cuide dado esta nova onda de ódio e intolerância provocada pela bipolarização gerada na má gestão de Donald Trump colocando em xeque a tão decantada democracia norte-americana. Isto tudo entre outros problemas sociais como o racismo exacerbado com o movimento da supremacia branca, a crença na segurança de uma população armada e xenófoba são também aspectos negativos da democracia dos EUA.

O mundo não vê com bons olhos a política internacional do gigante do Norte como nação imperialista, temidas são suas intervenções militares em quase todos os continentes para apoiar regimes ditatoriais para defesa dos interesses das grandes corporações norte-americanas. São tantos casos e entre os mais significativos está a geopolítica de guerra norte-americana no Oriente Médio em defesa de seus cartéis petrolíferos, não raro deixando os países vencidos em terra arrasada, como aconteceu com o Iraque.

Para nós aqui da América Latina conhecemos bem a geopolítica dos EUA! Os países latino-americanos já sofreram centenas de intervenções militares ou pelo menos apoio tático e estratégico para manutenção de ditaduras de extrema direita favoráveis aos interesses dos EUA. Nota final. O governo Biden, em linhas gerais, não tem o Brasil como prioridade, o que em princípio as relações entre os dois países não devem sofrer mudanças significativas, os interesses econômicos falam mais alto. A única complicação poderá acontecer diante da agenda ambiental ambiciosa para reverter as políticas de Trump. Biden já ameaçou que fará pressão pela preservação da Amazônia, agora é esperar para ver se o Bolsonaro mudará seu brusco modo de lidar com esta questão ou se continuará destilando impropérios contra os ambientalistas?

ESDRAS AZARIAS DE CAMPOS é Professor de História.