Destaques Dia a Dia

A criatura da Canastra

POR EVANDRO GABRIEL DE SOUZA MELO CIRILO

21 de agosto de 2020

Lá estava eu novamente em minha moto pelas trilhas da Serra da Canastra. Como sempre, meu amigo e eu, nos posicionamos à frente dos demais, porém, nesse dia específico, acabamos por nos distanciar muito dos outros trilheiros. Como já conhecíamos o local, continuamos seguindo o caminho. Após um longo período, chegamos ao topo de uma grande serra com uma vista panorâmica da imensa paisagem. Conseguimos localizar nosso grupo, porém eles seguiam um caminho diferente do que optamos, mas como ambos tínhamos o mesmo destino, preferimos continuar onde já estávamos e encontrá-los logo à frente.

Andamos por mais algum tempo, até que nos deparamos com uma casa muito antiga, localizada logo ao lado do famigerado poço das orquídeas — grande atração para os turistas visitantes da Canastra, em São Roque de Minas. Nunca havia reparado naquela construção, algo que me surpreendeu, pois já havia passado ali dezenas de vezes.
Como já estávamos acostumados, paramos as motos próximo ao poço e fomos nos banhar em suas águas cristalinas. Após algum tempo, decidimos partir, pois não demoraria cair a noite. Ao chegarmos em nossas motos, tentamos dar a partida. Entretanto, nenhuma funcionou, fato que nos deixou intrigados, pois a menos de uma hora, ambas estavam ligadas e funcionando perfeitamente.

Como já éramos pilotos há algum tempo, tínhamos algum conhecimento mecânico. Mesmo após procurarmos todos os indícios do motivo pelo qual nenhuma delas ligava, não encontramos nada! Acabamos por desistir e esperar nossos amigos voltarem para nos resgatar. Como sempre, íamos à frente do grupo, eles não estranhariam nossa ausência. Só perceberiam ao chegar à cidade, algo que demoraria no mínimo duas horas, tempo suficiente para anoitecer e a escuridão dominar o ambiente. Ficamos sentados, conversando, próximos às motos. Ambos estávamos com nossos smartphones em mãos, mas ali não havia sinal telefônico, fato que impossibilitou nosso pedido de ajuda, nos forçando a esperar o resgate.

Após, aproximadamente, uma hora, ouvimos um assovio estridente vindo da velha casa, e por sabermos que por ali passavam os donos da fazenda para olhar o gado, resolvemos caminhar em direção à construção para identificarmos quem emitira o som, e solicitar a ajuda. Ao chegarmos próximo à tapera, observamos que não havia ninguém, e com nossas vistas limitadas pela escuridão retornamos ao lugar onde estavam as motocicletas. Enquanto caminhávamos lentamente, ouvimos outro barulho, porém, dessa vez, algo estrondoso como se uma telha caísse do alto da casa. Olhando para trás, avistamos um imenso par de olhos que pareciam estar acima da casa.

Assustados, corremos na direção oposta, mas como estávamos trajados com pesados equipamentos de proteção, ficamos cansados em poucos metros, distância suficiente para ouvirmos passos dentro da casa. Em um momento de razão, pensei numa hipótese para justificar os fatos acontecidos: “o assovio provavelmente tenha sido causado pelo vento — pois devido à grande altitude não seria nada anormal. O barulho da telha e os olhos, 247 poderiam ser apenas de uma coruja pousada no telhado, que tivesse acidentalmente derrubado parte dele. Os passos que ouvimos seriam de algum animal andando naquela área.

Logo após esse pensamento cético, percebemos um movimento na vegetação e um gemido agonizante, penetrando em nossos ouvidos como agulhas perfurando um pedaço de tecido. Nesse momento, não consegui pensar em nenhuma justificativa para o que estava acontecendo ali. Ao olhar para meu amigo, percebi que ele estava totalmente pálido e sem reação, olhando fixamente para nossas motocicletas, que se encontravam a apenas alguns metros de nós. Para descobrir o que o teria deixado assim, resolvi olhar na mesma direção… confesso ter sido o momento mais assustador de minha vida. Continua…

Essa e outras 100 histórias regionais estão reunidas em um livro organizado por Maria Mineira. São textos de seus alunos do 3º ano do Ensino Fundamental à 3ª série do Ensino Médio, ano de 2018. Com o apoio da Cooperativa Educacional de São Roque de Minas foi lançado em 2019: “ Letras da Canastra- Cooperativa Educacional Escrevendo História”. Para adquirir um exemplar entre em contato pelo e-mail: [email protected]