Destaques Opinião

A contabilidade e a vida

POR WASHINGTON L. TOMÉ DE SOUSA

20 de janeiro de 2021

A quem muito foi dado, muito será exigido…” Em contabilidade encontramos conceitos que se identificam com a vida. Um deles é o de contas credoras e devedoras. Quando um aluno inicia o estudo desta ciência, geralmente tem dificuldade de compreender, dentre tantas outras, como uma conta identificada com o nome de ‘Caixa’ é considerada devedora e não credora. Afinal de contas, no caixa é onde se encontram o dinheiro, a arrecadação, os valores recebidos. É onde está o crédito. Então, como se explica isso? Como o Caixa pode ser devedor e não credor?

Para complicar um pouco mais a compreensão do conceito acima (ao final, espero esclarecer), quando uma determinada conta, no balanço contábil, não apresenta os valores que lhe foram atribuídos originalmente e acrescentados ao longo do tempo, é sinal de que alguma coisa está errada naquele ponto… e o balanço não vai fechar.

Por exemplo, se havia R$100 mil em caixa e, no balanço, tal conta exibe apenas o valor de R$80 mil, temos, então, uma diferença de R$20 mil que precisa ser explicada. Ou seja, o Caixa tem que prestar conta do valor integral que nele foi depositado – ele é devedor dos R$100 mil -, sob pena de se identificar aí um desvio ou roubo, com as suas consequências ruins de toda ordem. Afinal, dinheiro não evapora.

No entanto, se esses R$20 mil foram empregados na aquisição de móveis e utensílios para a empresa, está plenamente justificada a diferença… e a conta fecha. E é assim para todas as demais contas. Se umas são devedoras, outras, em contrapartida, são credoras (como, por exemplo, ‘Fornecedores’), havendo entre elas um intercâmbio, uma ‘troca’ que mantém o sistema sempre em equilíbrio, funcionando de forma saudável.

Na natureza não é diferente. Tal princípio também vige. Um exemplo é o dos mares, com as suas dinâmicas e movimentos, sustentando imensa diversidade de vidas e interagindo com toda a natureza. Recebem dos rios e das chuvas as suas águas e nutrientes e retribuem, partilhando-os com todo o ecossistema global, contribuindo grandemente para sustentar a vida no planeta e, também, do planeta.

Devolvem o que recebem e recebem o que devolvem, em um ciclo virtuoso que tende a se perpetuar, se não for perturbado por fatores externos e degradantes, como, por exemplo, a poluição de suas águas. Como exceção, temos o Mar Morto que, dadas as circunstâncias geográficas e de clima em que se situa, recebe mais do que doa, é um mar acumulador de sais minerais, tornando praticamente inviável qualquer forma de vida em suas águas, devido ao seu alto teor de salinidade. Daí, o nome de… Mar Morto…. um grande devedor.

Diz o poeta John Donne, em um de seus poemas (Meditações VII), que “Nenhum homem é uma ilha isolada; cada homem é uma partícula do continente, uma parte da terra; se um torrão é arrastado para o mar, a Europa fica diminuída, como se fosse um promontório, como se fosse a casa dos teus amigos ou a tua própria; a morte de qualquer homem me diminui, porque sou parte do gênero humano. E por isso não perguntes por quem os sinos dobram; eles dobram por ti.

Está aí a pandemia do Covid-19, com as suas restrições de circulação e os lockdowns, gerando transtornos vários… e a angústia de não podermos nos reunir como antes o fazíamos, pois somos seres gregários e carentes de socialização. E cada um de nós é depositário de valores, de capacidades e qualidades – uns mais, outros menos -, de tal forma que todos detemos algo para contribuir com a sociedade e com o planeta.

Somos, assim, ‘contas devedoras viventes e ambulantes’, desafiadas a partilhar e compartilhar com os nossos semelhantes e com o mundo os valores em nós depositados e acrescidos ao longo das nossas vidas, sejam eles de natureza material, moral, ética ou espiritual, promovendo o bem e a vida, sob pena de nos tornarmos ‘mares mortos’, ao não fazê-lo. Saúde e paz a todos!

WASHINGTON L. TOMÉ DE SOUSA, bacharel em Direito, ex-diretor da Justiça do Trabalho em Passos, escreve
quinzenalmente às quartas, nesta coluna