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A Balada do Soldado

POR LUIZ GONZAGA FENELON NEGRINHO

28 de dezembro de 2020

Em ocasião propícia (22/12) me chega às mãos, no endereço de Passos, um singelo embrulho, com direito a laços delicados de cortesia. E um manuscrito. Desses, sem comprometimento. Ao depois, vejo: viva o Atlético! Referindo-se, naturalmente, ao Atlético Mineiro, do qual somos ardorosos torcedores. Nos tempos de hoje, no embrulho do feito, pode-se seguramente chamar de produção artesanal.

Um DVD cinematográfico. Isso mesmo. Trata-se de um filme. Dos 29 gêneros existentes, o que recebo é de guerra. Ocorrido na Segunda Guerra Mundial, conflito de ordem global que durou de 1939 a 1945. Guerra por guerra não vem ao caso. O motivo do recebimento do presente e o autor, sim. Sensação prazerosa. Vão dizer que receber presente não é bom? Com certeza. No cuidado merecido, cuidei de desembrulhar o invólucro.

De passagem e por bem traçadas linhas, vejo tratar-se do amigo Brecha. Dr. Brecha. Ah! Faz tempo não o vejo. Anos, até. Menos conhecido por Antonio Belchior de Andrade Figueiredo, conceituado médico das Gerais. Lembrou-se de mim. Não à toa, propriamente. Explico, adiante.

Leu minha coluna de domingo passado (Folha da Manhã, 20-12-20, Opinião, “A Sétima Arte”). Entre outras citações, o amigo sugere que, em oportunidade própria, insira na plataforma dos clássicos a produção cinematográfica que me enviara: “Balada do Soldado”. Justiça seja feita. À sugestão, bato continência.

Inteligente, culto. Belo texto. Riqueza literária. Brecha escreve com desenvoltura. Em 2013 publicou um livro. “O Missal”, Gráfica e Editora São Paulo. Professor Paulo Bougleux de Andrade o prefaciou. Leitura agradável. Bom de ler. Que eu saiba, ficou nesse. O que não devia. É bom na escrita. Também parou de nos brindar com seus textos neste primoroso veículo, que é a Folha da Manhã.

Ao presente de Brecha. De origem soviética, lançado em 1959, o filme “Balada do Soldado” foi agraciado com vários prêmios em diversos festivais como o de Cannes, São Francisco, Londres e Milão. Para os russos (santo de casa costuma não produzir milagres), um fato atípico: “Balada do Soldado” é considerado um dos mais respeitados da história da cinematografia soviética. Pelo que veio a receber o Prêmio Lênin, em casa. Também não é para menos. À época, no início da década de 60, foi considerado pela crítica universal como o melhor filme não norte-americano.

Dirigido por Grigori Chuckhrai, tem no elenco principal Vladimir Ivashov, interpretando o soldado Aliosha Skvortsoy, de apenas 19 anos. Por ter destruído dois tanques alemães fora premiado pelo feito heróico com uma licença de seis dias para visitar a mãe. Melhor explicando: entre medalha honrosa, optou pela licença.

Durante a jornada, em meio a dificuldades, depara-se com várias situações, entre as quais, com a bela Shura (interpretada por Zhanna Prokhorenko), por quem se apaixona. Nesse hiato há cenas e acontecimentos lindíssimos, considerando fatores à luz e sombra da arte dramática do cinema. Muitos os incidentes. Como bem disse Paulo Bougleux em “O Missal”, não vou aqui me alongar. Melhor é assistir ao filme

A história do soldado do Exército Vermelho durante a Segunda Guerra Mundial, sem dúvida alguma, deixa uma mensagem sob o ponto de vista político-social e psicológico muito interessante e proveitosa. No dizer do jornalista e crítico de cinema, Rafael Amaral, em oportuna avaliação: Perseverante, o povo é visto à beira das linhas do trem. Feito de belos rostos trabalha com a terra, quebra rochas, ajuda a reconstruir o que a Segunda Guerra Mundial, naquele momento, tirava de todos. Em filme como “A Balada do Soldado”, retornar às pessoas, à massa, é obrigatório – questão humana, não menos ideológica”.

E assim é o cinema. Com todas as nuances, magia e glória. A penetrar o imaginário do espectador, o qual se vê presa fácil das tramas a ele colocadas à sua disposição. Não menos por isso, denominada por Ricciotto Canudo de “A Sétima Arte“, no modesto entendimento deste humilde escrevinhador, a arte por si só não se define. E dispensa adjetivações. Assim como expunge numeração, ou conforme determina o léxico, o conjunto dos números. A imaginação cuida de fazê-lo por nós. Na ambiguidade do contexto.

Enfim, é isso. O filme que Dr. Brecha me presenteia vale pelo Natal, pelo aniversário do dia 31 próximo e, acima de tudo, enaltece o gesto do carinho. O agradecimento pela lembrança e a torcida de que o amigo e família estejam bem. A balada, na difusão das batalhas, continua. “Assim está escrito; assim se fará” (in “O Missal“, pág. 199, Antonio Belchior de Andrade Figueiredo, autor). Até quando Deus quiser!

LUIZ GONZAGA FENELON NEGRINHO, advogado, com escritório em Formiga, escreve aos domingos nesta coluna.